24 de janeiro de 2015

Submissão


Soumission, de M. Houellebecq, Flammarion, 2015
Estamos em França no ano 2022. No fim do segundo mandato de Hollande. Mais do que o estertor político e social, mais do que a erosão das relações familiares e afectivas, a evidência é a da perda de identidade pela atomização do eu. Quem é, quem pode ser, este eu fora do ágape já tão distante?
Vamos descobri-lo enquanto a islamização europeia se consuma em França, no percurso de François, professor na Sorbonne, um académico de quarenta e quatro anos de tédio, cinismo, solidão, e de um desejo que se satisfaz na variedade e metade da idade das suas alunas. Isto acontece na segunda volta das eleições presidenciais. A Irmandade Muçulmana, liderada por Mohammed Ben Abbes, vence a Frente Nacional de Marine Le Pen, com o apoio do Partido Socialista, e dos restantes partidos de esquerda e centro-direita, e com o subsídio dos petroeuros de sangue saudita.
Na verdade, nada disto se passa em França. Passa-se connosco.
Submissão, o título do último romance de Houellebecq, talvez seja o resumo das nossas submissões tanto quanto é a tradução literal de Islão que quer dizer submissão à vontade de Allah. E é o pretexto para uma ficção socio-política polarizada entre avesso e direito de uma mesma coisa: o laico e o religioso enquanto donos de uma expressão social absoluta e salvífica.
Este é um livro que precisamos de ler, não apenas porque é bom e está houellebecquianamente bem escrito quando leva a tradição da sátira pelo texto fora e se faz herdeiro também do pensamento de Bataille e do escândalo de Klosswski, adjectivos e nomes que pouco falam para o tanto que lá é dito, não necessariamente só a sobre França, mas sobretudo sobre a dor ocidental de ser após o Maio de 68.
Em 2022, como hoje, como desde o fim dos anos sessenta, com a emergência da mulher inteira, sexualizada, profissional, gerou-se o déficit do incondicional, omnipresente amor materno e com ele este fundo masoquista ao qual o eu adulto responde cinicamente, com o desapego afectivo do predador sexual que, após a saciedade, sofre do novo vazio.
Esta lógica afectiva reverbera em todas as interacções pessoais e profissionais, e é a mesma lógica do consumo, sujeita à mesma inescapável estrutura, ao neo-liberalismo-emocional e a sua recessão: vivemos o rosto da democracia em crise. E vemos o imenso rasgão do tecido social por onde a infecção totalizante ataca.
É desta dinâmica pouco madura que costuma emergir e emerge o moralista. Crescem o conservadorismo religioso e as ideias políticas mais severas. Ambos servem os mesmos propósitos: punição, reparação, satisfação. São o seio cheio que alimentará todas estas fomes a que o consumo não responde com significado. O lirismo amoroso e poético poderá ter perdido o seu lugar no mundo, mas a nova ordem trazida pela Irmandade Muçulmana - ou Fraternidade Muçulmana, não sei como o português escolherá traduzi-la -, recria-lhes os substitutos por norma e decreto, são eles a família e a prática religiosa. Tal como a extrema-direita de Marine Le Pen o faria com o modelo fascista porém. Estruturas rígidas em que a forma assume o lugar do conteúdo e o rito o lugar do significado.
A diferença fundamental entre um e outra não é o carácter religioso oferecer o sentido perdido ao perder-se a poética. A diferença fundamental é o lugar da mulher e como e onde. Não porque com ela fora do espaço de trabalho o desemprego diminua, a natalidade aumente com a poligamia, e a economia floresça com a deseducação e os fundos sauditas. Não porque com o patriarcado a autoridade dê em segurança o que retira em liberdades. Mas porque com a mulher no lugar de seio, a barriga de um homem está cheia sem que ele precise de encontrar o seu próprio lugar no caos ou crie a sua cosmologia.
Este sexto romance do dito enfant terrible das letras francesas não será, de facto, sobre o enfant terrible que mora, tão silencioso, em nós? Quem está dentro da nossa sombra e o que esconde ela da luz?