13 de janeiro de 2015

O tempo mede-se em anos de cão, meu lindo Cão





O TEMPO MEDE-SE EM ANOS DE CÃO 
Quando o Cão era jovem,
era um cavalo a galope
pela casa nas nossas
brincadeiras corridas
até à exaustão, e um macaco
escada acima atrás de mim,
que lhe ia esconder a bonecada,
para ele, na grande caçada,
escada abaixo, a
encontrar. Quando o Cão 
era jovem, era uma pantera
de saltos nem sei quantas vezes 
a altura das suas patas, e naquela
loucura era eu quem andava de gatas.
Jovem, foi um grande caçador:
matou mil vezes o porco selvagem
de borracha, abanava-o
pelo cachaço e o bicho apitava
de dor a agonia cor-de-rosa.
Quando o Cão era jovem,
atirava-se do cesto da bicicleta
para atacar os cavalos,
e eu atirava a bicicleta para 
ir atrás do Cão e os guardas da
GNR já nos conheciam aos dois.
Quando o Cão era jovem,
tínhamos um ginásio alugado
num hotel decaído, éramos 
pouco mais de meia dúzia de obcecados, 
e treinavámos lá em pós-laboral,
excepto aos domingos, ninguém trabalhava,
de manhã cedo, que felicidade,
matávamo-nos de cansaço no ginásio alugado -
há quem não saiba parar:
o Cão não sabia, escapulia-se
pela porta que dava para o jardim,
largava a correr atrás dos tigres citadinos, 
seres felinos, gatos maiores do que ele, 
e eu, pára!, é um belo gatini 
e ele convencido de que perseguia 
um arqui-inimigo…
Estava o aquecimento feito quando,
finalmente, agarrava o grande lobo
das estepes siberianas a ladrar à
palmeira onde o gato subira
e a clientela da piscina a assistir: 
figuraças, senhor Cão,
menino Cão, meu lindo Cão. 
Isto foi há doze anos. O tempo correu
mais do que o Cão, ele está quase surdo
e medicado para o coração de leão,
e não vê os outros animais da selva,
agarrou-se à minha miopia e diz o
veterinário que são inoperáveis cataratas:
está tudo doido? Não as queríamos operar,
rafting nunca foi desporto que fizéssemos,
mas ainda acreditamos 
num passeio lento de bicicleta.