2 de dezembro de 2014

O CORDEIRO E O TIGRE

O CORDEIRO E O TIGRE
Virginia Woolf escrevia. De acordo com o seu próprio testemunho era uma menina, num quarto, com uma caneta na mão, a aprender que, por vezes, são precisas horas de caneta na mão, o movimento interrompido sem dar pela interrupção, sem que o aparo mergulhe a pique no tinteiro.
Cresceu. Nada mudou por aí além. Excepto ter enviado pelo correio, uma vez, ainda muito jovem, um texto para um jornal. Um mês depois, dia de júbilo!, diz-nos, recebeu o pagamento por essa recensão publicada. Com o primeiro dinheiro ganho comprou um gato. Saí e comprei um gato - um lindo gato, um gato persa. Contou ela.
Eu comprei um cão, um lindo cão, o Cão.
Não era muito jovem. Tinha 33 anos e um desespero de Cristo na cruz: a mim, que nem sei em que dia da semana estou, dava-me para vigiar o relógio e saber as horas ao segundo. Quando o meu contrato chegou ao fim, ofereceram-me outro, pensei, se o aceito, mato-me. Não aceitei.
Há momentos na vida em que ou se mata ou se morre. Tanto pode ser um trabalho, um casamento, um homem, ou The Angel in The House como Virginia Woolf – confundem muito isto de ter consciência do mundo com a intervenção social do escritor. Explico: se a consciência do mundo é um estado também de consciência do escritor, no caso de Virginia Woolf ter de matar a vitoriana fada do lar que lhe queria tomar conta da caneta, a mulher subalterna, submissa e abnegada, cordeiro de sacrifício, a intervenção social não. Uma causa não faz literatura - nem faz música, nem pintura, nem coisa alguma além de um activista, ainda que um activista possa coexistir, pontualmente, com um pintor, um músico, um escritor. Mas derivo.
Há momentos na vida em que ou se mata ou se morre. Acontece com todos os escritores. Parece que com os místicos também, mas disso não sei grande espingarda porque tenho a alma agarrada ao corpo. Desconfio que seja uma experiência transversal em qualquer vocação. Enfim, tem de estar-se na disposição de perder tudo para ganhar. A parte difícil é que na altura da decisão só se vê a perda. E a Graça chega tarde, já quando todos nos tomam por um caso perdido, e nós só percebemos o ganho.
Saí, comprei um cão, um lindo cão, o Cão. Fiquei com a conta a zeros e a inocência organizada de William Blake. Nem sempre a Vida nos oferece o meio termo. É certo, poderia ter pago contas, e ter estoirado os miolos. Mas sei quem sou, não preciso de me procurar, encontrar ou descobrir, só preciso de me criar a mim mesma, verso a verso, linha a linha.