14 de dezembro de 2014

Manhã, tão bonita manhã

MANHÃ, TÃO BONITA MANHÃ
Hoje tive uma daquelas gloriosas manhãs em que nada acontece além da perfeição. Quando cheguei ao carro, o passeio estava limpo da chuva acabada de cair e a luz matizava sem querer as pedras de calcário manchadas de uso e cintilava o fim da água enquanto do céu impávido de cinza nem um brilho.
Pensei, esta é a minha manhã preferida. Já a conduzir, quando estou a fazer aquela curva aguda e lenta à frente do mini-mercado do bairro lá de baixo, onde nunca entrei, zás, três, três belezas como as Três Graças.
No fim do ramo da árvore alta, no passeio oposto ao da mercearia auto-denominada Mini-Super, quatro enormes folhas, seriam as de uma nespereira gigante se existissem nespereiras gigantes, mas folhas de um verde mais aberto, verde de derramar claridade a quem passava, e o relevo de sulcos mais suaves, e ao centro das quatro folhas, dois frutos gémeos e da mesma exactidão verde - e eu que até sei as árvores pelos nomes, esta nada. Caneco. Estava a tomar nota desta ignorância e a pensar num livro onde vivessem as árvores que nos habitam de norte a sul, bem indexadas, quando na varanda em frente à árvore, portanto, logo no segundo andar por cima do Mini-Super, outra Graça.
Um homem de trinta e muitos ou quarenta e poucos, de cabelo preto, uma fartura dele, barbudo pelo pescoço todo, de uma barba curta, coisa de uma semana mas ainda desgovernada, pêlos de manhã de sábado – não deixa de ser interessante que a domesticidade faça os homens regressarem a um estado mais selvagem... Tinha vestido um roupão de fibra polar em losangos castanhos e amarelos fogo, até ao meio da perna um homem-labareda, e umas meias pretas como a barba. Era a imagem acabada de um Outono desfolhado num desenho da primária onde houvesse negro queimado. O Outono barbudo mostrava uma eficácia tremenda: sacudia com vigor pequenas peças de roupa, bibes, cuecas, calças de criança, antes de as prender no estendal da parede. Ainda estava a matutar naquele roupão de fibra polar, pois tenho um pavor irracional de entrar em combustão espontânea e ninguém me apanha dentro de certos tecidos, quando vejo a última Graça.
Com mais de oitenta anos, de impecável corte de cabelo, branco, a direito na linha do rosto, magra magríssima, elegante no seu tailleur azul escuro de atravessar o tempo, caminhava em passo ainda seguro, de bengala e saco do Expresso na mão, uma mulher intrigante.
Mais tarde, também eu de Expresso na mão encontro literatura puríssima pela boca de Victor Hugo Forjaz, “vulcanólogo e professor jubilado da Universidade dos Açores”. Ao fim da entrevista que deu, página 8, em resposta à última pergunta “qual foi o vulcão que mais o impressionou?” Refere a erupção dos Capelinhos, em 1957, e conclui “Como foi possível surgir uma coisa destas, pensei. Por causa do vulcão, mais de doze mil pessoas imigraram para a América.”
A vida é boa, Luiz Bonfá.