7 de dezembro de 2014

ii - Sou tua

TERRA DE NINGUÉM EU TE PERTENÇO
i
 ii
Não sei em que dia a vida de uma pessoa 
se transforma na vida de alguém que lhe é estranho, 
nem sei como, nem sei porquê. É aquilo da hora. 
Há um momento. Olha-se em volta e pensa-se, 
esta não é a minha vida, esta não é a minha casa, 
e a estas pessoas que poderei dizer-lhes?, 
em que língua?
À carne da minha carne, 
na diáspora para onde agora sigo, 
conheço-a pelos seus atributos Sacramentais: 
abre as portas fechadas, 
da palavra faz Verbo, 
do símbolo realização, 
e a fé dilata como um corpo quente 
porque o dom maior é o Amor.
Não sei em que dia a vida de uma pessoa 
se transforma na vida de alguém que lhe é estranho, 
mas sei que os rios correm subterrâneos, 
um ano após o outro, contidos no seu leito fechado. 
E emergem como se tivessem acordado as águas
naquele instante. Não há o instante. Nunca houve. 
Só a eternidade. Isso também sei: já estive aqui antes, 
já desmontei uma vida para a arrumar em caixotes 
como quem sabe que levanta uma tenda mais além.

ó terra de nin­guém, nin­guém, ninguém:/ eu te per­tenço, de Jorge de Sena in A Portugal