28 de dezembro de 2014

Cantas-me ao ouvido

CANTAS-ME AO OUVIDO
E nada disso me interessa.
Houve o tempo
em que me media pela altura do teu ombro,
e do teu, meus amados ídolos frágeis, 
e atrás da porta marcava
a ausência de novos centímetros a cada ano.
E chorava.
Ignorância e inocência eram o meu nome.
O esforço inútil vigiava-me o sono e eu,
noite após noite acordada 
de incompreensão da mecânica
do lugar das pessoas no mundo, 
da seiva dos merecimentos,
a buscar solução para o que não há,
não pode haver, nem deve, se desequilibra
a posição do Anjo nas hostes celestes 
e a correspondente cosmologia da vida na Terra.
Na faculdade, 
a minha amiga dizia, antes de fechar a luz e dormir,
quando acabar este livro, empresto-te,
tens de o ler, é bom.
Quando ela se levantava, devolvia-lho lido,
tens razão, respondia à manhã 
levantada com ela, é bom.
E os meus dias continuavam a ter 
vinte e quatro horas inteiras
até à náusea da puríssima exaustão
almoçada com a ineficácia do Migraleve.
Não é que teus conseguimentos,
centímetro a centímetro, não valham,
valem, e os teus, e os teus, meus ídolos de outro tempo.
Mas quem não acrescenta ao conhecimento
rouba-o, e tu que me fizeste chorar, sabe:
não nasci dos teus pés,
não me pisarás,
nem da tua cabeça,
não serás astro sobre mim.
Jamais poderia voltar
ao Portugal dos Pequeninos,
compreendo a mecânica: olá, olá à 
¡Holla! atrás das portas:
a política alimentícia do lugar à mesa
sempre gerou a fome 
e a ditadura dos lugares.
E nada disso me interessa.
Durmo a noite e não sei do Migraleve.
Só os sóis iluminam e os seus rastos de sombra
cavam a escuridão fria do espaço: 
se uma erva cresce é porque a Voz
lhe canta ao ouvido, cresce, cresce.

There is no blade of grass that does not have a constellation – Mazal over it, ha-makeh bo, telling it to grow. Midrash, Zohar