24 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Os meus palhaços, por Manuel S. Fonseca


A Eugénia de Vasconcellos e eu vamos todas as semanas a Nova Iorque. Desta vez fomos ao Congresso. Discursámos: my way, her way. Discurse agora, também.

OS MEUS PALHAÇOS
Uns palhaços, todos! É tão fácil, hoje, despejar os políticos pelo cano do esgoto. Palhaços, arlequins, jokers, encantadores de serpentes. Mark Ulkriksen, o autor desta ilustração que faz a capa da New Yorker, foi buscar tudo isso e um par de botas. Confesso, não consigo calçar esse par de botas.
E se tiver de confessar, confesso também: quis ser tudo na vida. Experimentem ouvir-me cantar. Pode ser a experiência das vossas vidas. Um trauma indelével. E mesmo assim cheguei a sonhar que, depois de vir a Portugal fazer a universidade – digressão que imaginei como um regabofe boémio – voltaria à minha cálida colónia como cantor de banda rock. E isto era eu, que tenho um ouvido de Van Gogh para a música, uma voz que faz as formigas desatarem a fugir de um açucareiro – isto era eu a querer ser cantor. Quis ser o Lord Jim, o dr. Jivago (e comprei uma camisa igual), quis ser estrela de futebol (os meus penalties, os meus pontapés de bicicleta!). A minha professora primária queria até que eu fosse o Papa, um Jorge Bergoglio avant la lettre.
Quis ser tudo isso, só há uma coisa que nunca quis ser. Mesmo nos meus tempos de punhinho no ar, um pé no primeiro degrau de catolicismo progressista, e logo a seguir a espalhar-me pela breve escadaria do maoismo cambodjo-parisiense, se quis as incendiadas manifs de Luanda e Lobito, o poder popular, a famosa e digna dipanda, nunca quis ser “um político”.
Quis escrever, quis a rádio, o cinema, a televisão, quis ser essa coisa tão imaginariamente prosaica que é ser-se executivo, por achar que só assim se “faziam coisas” – a ilusão que ainda hoje tenho de que fazer coisas é das poucas "coragens" da vida. Mas não quis e não quero ser político.
E todavia lembro-me. Aos 10 anos, estava numa aula do 1º F, a minha primeira turma do Liceu Salvador Correia, quando soube que tinham assassinado John F. Kennedy com uma bala na cabeça. Uma pequenina e inocente comoção tocou os 20 e tal miúdos que nós eramos. JFK já era um homem terrivelmente adulto aos nossos olhos meninos. Mas havia nele uma magia que o impedia de ser o velho que, para nós, necessariamente seria qualquer pessoa com a idade dele. JFK tinha uma ambígua juventude: vinha-lhe do físico, que o fazia parecer um júnior do Benfica de Luanda; vinha da francesa elegante, quase yé-yé, quase Sylvie Vartan, que era a namorada dele. E vinha, sobretudo, das ideias que eram o único chapéu dele, num tempo que odiava chapéus. Nas ideias de JFK havia laivos do “Sgt. Pepper’s” que ainda estava para vir vir. Ou do “I can’t get no satisfaction” que JFK nunca ouviu cantar.
Ao contrário do que, queixinhas e duvidosamente, cantaram os Pink Floyd, precisamos de educação e de professores que não deixem os kids alone, precisamos de ciência e de tecnologia, precisamos de crenças e valores, mas para termos mesmo um mundo novo – um mundo aleixo, um mundo novo a sério – precisamos de políticos, precisamos do sangue, suor e lágrimas dos Churchill, precisamos dos sonhos dos Luther King, precisamos, de vez em quando, que um tipo de fatinho, quase um puto, católico e adúltero, se ponha em bicos de pés e grite por cima de qualquer muro, “Ich bin ein Berliner”.
Hoje, não há ninguém que os compre. Palhaços, são todos uns palhaços. Pode ser que sim, que muitos indignados, tantos amigos meus, uma cambada de alegre e vistoso feicebuque, tenham as suas razões para se queixar e ressentir. Mas por tudo o que vi e passei, a única coisa que vou continuar a jurar a mim mesmo é que sem palhaços não há democracia. Por mais exangue que a peregrina democracia pareça estar, por mais enrugada que esteja a sua triste e lamentável face.