16 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: A mulher que ama os livros , por Manuel S. Fonseca


Cos­tu­má­va­mos fazer isto com a “Visão”, mas as ilus­tra­ções da “New Yor­ker” são tão boni­tas que não resis­ti­mos. A mesma capa, duas visões. A da Eugénia de Vasconcellos e a minha. Gos­tem das duas e tenham a vossa.

A MULHER QUE AMA OS LIVROS

Estava a olhar para esta ilustração de macio Outono, que Tom Gauld fez para a New Yorker desta semana, e as primeiras imagens que zuniram, céleres, no rendilhado musseque que é a minha cabeça, foram as imagens das minhas bibliotecas de Luanda. Tinha livros em casa dos meus pais, mas eram pouco mais do que uma simpática estante e houve três bibliotecas – a do Liceu Salvador Correia, primeiro, a da Câmara Municipal junto à Mutamba, a seguir, e mais tarde a Biblioteca Nacional de Angola, no edifício que era a Secretaria do governo-geral para a educação –, que fizeram as minhas delícias sentimentais e abriram, como tenazes, os meus horizontes literários.
Na Biblioteca do Liceu li “O Crime do Padre Amaro”, ligeiramente antes do tempo, os olhos a distraírem-se com a Amélinha e os joelhos à procura dos joelhos de uma colega que tinha pernas bem mais altas do que as minhas. Na Biblioteca da Câmara li “As Vinhas da Ira”, na altura de uma juvenilíssima paixão pelo “A Leste do Paraíso”, que comprei num delirante esforço de poupança avant Vitor Gaspar. Na Biblioteca Nacional de Angola, como já aqui contei, foi onde fiquei a saber que a ditadura acabava de fechar o livro e que havia um livro por abrir, novo em folha, em cima da mesa.
Mas voltando a olhar para a biblioteca de Tom Gauld, percebi que era uma biblioteca diferente, muito diferente das minhas. Miraculosamente suspensa sobre Nova Iorque, pilhas de livros organizados em linhas de uma elegância descontraída, esta é a biblioteca de uma mulher. A mulher tem vestido o mesmo Outono que cai, folha a folha, das árvores e lê. Há, na mulher que lê, uma mística que o homem que lê, hoje, jamais alcançará.
O livro até pode ser uma criação masculina, uma benigna e maravilhosa criação masculina. Foi, diga-se, do tijolo à impressão guttenberguiana, uma criação de conhecimento e poder. Nem sempre, como os correctíssimos e admiráveis sociólogos dirão, a mulher pode aceder ao livro, marca de poder masculino. Mas, de uma forma persistente, subtil, a mulher foi-se chegando e foi-se roçando pelas capas douradas, ou de marfim, que encerravam manuscritos e iluminuras. Alguém que conte essa gloriosa história que eu não tenho tempo: bref, o que interessa é que mulher começou a ler.
A mulher, a meu ver, não começou a ler para conquistar poder, muito embora a leitura lhe tenha concedido mais seguro poder do que o poder que se diz que a cama lhe conferiu. A mulher começou a ler por aventura e por encantamento. E o livro, agradecido, colou-se à mulher, de tal forma que o amor entre a mulher e o livro, de tão intenso, criou novos géneros literários. O desejo erótico saiu da alcova e veio deitar-se, ducal e principesco, carnal e adúltero, na poesia provençal ou nas nossas cantigas de amigo e de amor. Daí ao romance foi uma vírgula.
As mãos da mulher que lê, os olhos da mulher que lê, criaram a literatura. Tanto faz que seja um homem como uma mulher a escrever: escreve-se para que uma mulher leia. Há dias, Ian Mc Ewan foi com o filho oferecer livros dele às pessoas que se refastelavam à hora de almoço nos parques londrinos. Em dez minutos, trinta pessoas tinham aceitado os oferecidos livros. Trinta mulheres (forço um bocadinho, talvez tenham sido 29).  Ian McEwan arriscou um vaticínio: “Se as mulheres deixarem de ler, estamos fritos.”
O que faz a literatura, essa zona utópica de prazer e impoder, são as mulheres que lêem. O homem que lê, com raras excepções, é um homem cansado, que lê utilitariamente. Só a mulher lê o livro pela sua magnífica e sublime inutilidade, a mesma inutilidade e deleite que se empresta e se recebe do amor. A mulher não lê um livro, a mulher lê um corpo. Sempre que vejo a mulher que lê, cheira-me. E cheira a prazer. Poucas coisas há tão aromaticamente indecentes como a mulher que lê.