30 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: A minha rica salada de agrião

Vejo a capa. É sobre cerveja – de qualidade a despeito da informalidade. Mas não bebo cerveja. Pior, não percebo nada de cerveja. Então, sobra-me o resto.
Hip Hops Peter de Sève
A capa da New Yor­ker leva-nos a jan­tar a Nova Ior­que. Janta o Manuel S. Fonseca e janto eu. Como é que janta cada um de nós? E como é que jan­ta­ria o paci­ente e esfo­me­ado leitor?

A MINHA RICA SALADA DE AGRIÃO
Gosto muito de comer. Tenho o prazer da mesa. Não queria ter: preferia ser zen ou sofrer de fastio, mas gosto muito de comer, de cozinhar, de ir à praça, espreitar as bancas de peixe, dos legumes, da fruta, dos queijos, dos enchidos, do pão, bisbilhotar as especiarias e ervas frescas e secas, enfim, tudo, e de me enfiar em mercados locais marcados pelas estações do ano. É uma alegria para os sentidos, na hora e também por antecipação do trato que vou dar ao que compro e do bem que vai saber depois. Não cozinho mal.
Porém não cozinho de modas, não como de modas, olhe, não vou de modas.
Há coisas que me horrorizam, claro. Com que direito se desgraça um patinho, praticamente o Duffy Duck, enfardando a bicheza à bruta goela abaixo para nos deliciarmos com o belo pâtézinho com compota de framboesa e uma rica colheita tardia? Foie gras é fígado gordo. Fígado gordo, selvagens! O triste do pato tem o colesterol pelo telhado e nós nem um Crestor de solidariedade. Horroriza-me e como-o de gosto porque enquanto como não penso na animalidade em si ou o animal seria moi. Marcha o foie gras e o próprio do patinho marcha também, confitado, caramelizado, ou à Pequim: quá-quá sua má.
Tanto, ó tanto, que queria ser, vá, civilizada, mas sou bárbara a ponto de já ter feito com estas mãozinhas que outras bichezas hão-de comer, o belo do supra e super citado foie gras. É para que saibam do que sou capaz. Eu e o crocodilo que chora a presa, tudo farinha do mesmo saco. Só me dou desgostos.
Lá em casa também não se ia de modas. A minha avó tinha mão de ferro: refrigerantes nicles. Comida de pacote, umas simples batatinhas fritas Pala-Pala, nicles. Bolos, bolachinhas, biscoitos, só caseiros e ao fim de semana. A menos que fosse compota. Sopa todos os dias. Salada todos os dias. Na altura em que se ouvia dizer ai o peixe azul faz mal, a minha avó, esta gente não pensa. Era isso e o protector solar nos anos em andava tudo armado de bronzeador no coltre dos bikinis. Esta gente não pensa, basta ver a quantidade de rugas e manchas na pele de quem trabalha ao sol, se há envelhecimento precoce por fora tem de haver dano por dentro. Óleo? Vai tu, só azeite. Batata doce, sim, branca pouco, feijão está bem. Carne? Não se podia, ao que parece, confiar nas racções. Ainda não pode. Cereais ao pequeno almoço e de base? Isso é comida de engorda. Esta pirâmide alimentar é uma idiotice. E era. Os resultados dessa aventura dos anos setenta estão bem à vista.
Portanto, adorava as festas de aniversário das minhas amigas: regalava-me em Boca Doce é bom é bom é, diz o avô e diz o bebé, em cor-de-rosa do sofá da saleta lá de casa, Tang, impuríssimas laranjeiras em pó, sandes de pão de forma daquele mole que se cola ao céu da boca, pudim do chinês muito leve e bamboleante, Tulicreme. Ai queijo de bola, que delícia. E mousse de chocolate de pacote. Alsa. Batatas fritas. O resto nem me interessava. Perguntava de tudo: e este belo pudim? Levava as preciosas informações recolhidas e a Ingratidão respondia ignorando-me: esta miúda só gosta do que não presta.
Depois de crescida vinguei-me. Era aniversário das minhas amigas quando queria e me apetecia. Comia porcarias, Donettes e batatas fritas de pacote salgadas e avinagradas. Deve-me ter dado uma veneta, auto-limitada graças a Deus, pois se fumei de gosto uma fartura maços de cigarros, eu que só gosto do cheiro dos charutos e das cigarrilhas... não podia estar de pleno juízo. Todavia, a verdade, é que não tinha saúde para aquilo. Nem feitio. Era uma impossibilidade.
A minha mãe diz que sou a princesa da ervilha – aquela que sentiu a ervilha debaixo de sete colchões e por isso passou mal a noite. É feio ser-se assim. Sou. Com a comida também. Se é congelado, sei. Se não é fresco também. Se é uma daquelas merdas para impressionar o indígena tipo gema de ovo de codorniz coroada de espuma de pêras rocha com jalapeños, come tu.
O facto é que os meus defeitos excedem largamente as minhas qualidades. E para quem gosta de comer isso é uma sorte do caneco. É preciso ser exigente e fazer uma alimentação saudável, em regra, para termos o bom prazer das excepções. Ou como diz a minha irmã quando quer que eu afine: vou fazer uma salada de agrião colhido em noite de quarto crescente, às três e meia em ponto, com azeitonas à provençal que eu mesma temperei, e queijo feta das ovelhas do tio Hippolytos, e no Natal logo como filhós em calda.