16 de outubro de 2014

Visão, tenha duas: Em pratos limpos


Cos­tu­má­va­mos fazer isto com a “Visão”, mas as ilus­tra­ções da “New Yor­ker” são tão boni­tas que não resis­ti­mos. A mesma capa, duas visões. A do Manuel S. Fonseca e a minha. Gos­tem das duas e tenham a vossa.
EM PRATOS LIMPOS
De entre todas as pessoas que conheço ao perto e ao longe sempre fui aquela que poderia jurar não aparecer na capa de uma revista. Pela simples razão de que as pessoas como eu não aparecem: desaparecem. No meio dos livros. Explico.
A coisa passava-se assim. Quando era muito pequenina e pré-escolar, tudo era um belíssimo folhetim. A quantidade de prodígios dignos de relato que se sucediam diante dos meus olhos, diariamente, era superior ao número de folhas da nespereira do exacto verde-escuro do vestido de veludo com que gastava o espelho. Ora, se eram dignos de relato, relatava-os. Interpretativamente num sem fim de uma coisa leva a outra. Aquilo tinha um grandessíssimo valor para mim.
Aquilo poderia ser: a Liana pendurava o rádio dela na bola de ferro ao fim da guarda das escadas enquanto, com a enceradeira eléctrica, uma bicheza cheia de escovas em movimento por baixo de uma carapaça, estava a puxar brilho ao chão – este bandido divertia-se: de vez em quando um adulto derrapava sem querer onde eu escorregava de propósito. O ruído da máquina era abafado pela canção que, dependurada da tira de plástico da pequena telefonia, caía a pique dos buraquinhos da coluna afora para entrar Liana adentro via os pêlos das escovas, subindo pelo motor e avançando por ali acima até ao manípulo que as duas mãos dela seguravam; amaranhava então pelos braços até aos ouvidos, fazia um rodopio na cabeça e finalmente saía-lhe pela boca. Altíssima. Forte. Adulterada. Já não era uma canção. Era uma possessão sem exorcismo. E ela uma figura temível: quando se é pequeno, tem de se olhar para cima: as casas estão cheias de titãs, bruxas, e também pessoas crescidas. Pois esta coreografia num cenário de tapetes enrolados e cantoria diabólica de fazer revirar os olhos e se ver o branco, tinha de ser contada, parecia-me, ou como ouvia depois quando era repreendida por ter contado que mania de pôr tudo em pratos limpos e inventar por cima! Na verdade, quase metia medo, mas era bonito o raio do estranho bailado...
E a coisa continuou a passar-se. Mas no papel. Redacções. Bendito o inventor das redacções. Até 12 linhas. Nessa altura só contava os prodígios à tinta na veia da caneta. Raspanetes zero. Até 25 linhas - foi aqui que aprendi a pescar à linha e a cortar no peixe, perdão, na palavra para o texto cumprir a numerologia. E foi também nas 25 linhas que percebi que nunca iria aparecer na capa de uma revista. Aquilo não tinha valor para mim.
Aquilo poderia ser: uns ouviam Police com calças de ganga justíssimas e cigarros às escondidas. Outras Duran Duran e panamás em cima dos olhos já tapados pelos óculos espelhados, e cigarros às claras. Uma cegueira. Duas. Ou melhor, três. Porque. Eu lia. Escrevia. Lia mais. Corrigia mais. E também não via nada.
Nada poderia ser: os ouvintes Police e de Duran Duran eram ovos kinder surpresa. Com o tempo abriram. Saíram de lá de dentro casais Police que tiveram filhos Duran Duran e vice-versa. Montes de profissões de calças de ganga e outras tantas de óculos espelhados. Um por outra desapareceram no meio dos livros.
A coisa passa-se ainda. Voltei, claro, a dar um grandessíssimo valor àquilo.
Aquilo é ler e fazer a anotação de prodígios. Não posso fazer mais nada. Vivo no meio deles, dos lidos e dos vistos. Nem acredito na sorte que tenho. Gasto a língua a pensar, obrigada meu Deus, obrigada, que tenha os olhos e os ouvidos do Lobo Mau e possa ler melhor também para escrever melhor.
Bem podem imaginar o meu espanto de desaparecida entre milhões de letras quando me vi plasmada e aparecida. Nem mais nem menos do que na capa da The New Yorker. Com a vida em pratos limpos para toda a gente ver.
Sei bem o que está a pensar: então, onde está o Cão? Toda a gente sabe que tenho o único Cão com feitio de gato. Só aparece quando quer e desaparece quase sempre. Está atrás dos livros. A dormir que não vai para novo. E o resto dos pratos? Qual resto? É mesmo só isto e aquela chávena de café.