A capa da New Yorker leva-nos a jantar a Nova Iorque. Janta a Eugénia de Vasconcellos e janto eu. Como é que janta cada um de nós? E como é que jantaria o paciente e esfomeado leitor?
UM JANTAR EM NOVA IORQUE
Hoje ia jantar a Nova Iorque. É Outono e em Manhattan quaisquer 12 graus centígrados sabem a 16 ou 17. Podíamos ser três ou quatro, para a conversa ir de carrinho. A esplanada do Aquagrill, na Spring, é uma delícia, e se nos desse um arrepio, mudávamos de mesa, lá para dentro. As ostras saem de gelo e mar e se mandássemos vir champagne, o promíscuo champagne não se importaria nada com um petit ménage de língua e ostra. Isto na sala, porque depois e porque hoje se marisca, para caminha, o estômago pede vieiras, as grilled scallops, a bivalve carne sólida, superfície acetinada, que se entregam, insinuantes, a uma boa abertura de lábios e dentada firme. É por isso que todo o coração que sai do Aquagrill é um coração apaixonado.
São agora nove da noite e teria almoçado antes, por volta das treze, no infernal Golden Unicorn, enfiado num prédio assustador de uma esquina de Chinatown. É o paraíso cantonês do dimsum. Dumplings de cobre, crepes de veludo, a insaciada boca (perdoem-me o abuso lexical) a goludicear-se na espessura de tanto frito – nada é tão frito como o absolutamente frito da cozinha destes chineses. As salas do Golden Unicorn são decadentes salas de baile protegidas por uns imensos e ronronantes dragões de amarelíssimo ouro. Têm olhos semicerrados e satisfeitos, uma preguiçosa língua em fogo, uma barriga lacada a barbecue e fresquíssimos frescos do mercado. Fazem-se novas amizades no Golden Unicorn.
Antes do Aquagrill, pelas sete e meia da tarde de Manhattan, havia de passar pela Broadway. Volta-se ali, à W 44 St, encostada a bailarinas, bailarinos e actores, como quem volta à escola primária. Ou como quem volta a abraçar o Pedro Bandeira Freire, tão lendário frequentador quão lendário é este Sardi’s, fundado em 1921 e onde se bebe o mais vibrante dry-martini, um dry-martini que irrompe como um tigre e nos faz de todo o aparelho digestivo a mais ampla e luminosa auto-estrada. Bebe-se ao balcão do velho bar, o mais despretensioso e dinossáurico bar de Nova Iorque. Cheira tanto à casa dos nossos avós que só se levam ao Sardi’s os mais antigos e incondicionais amigos.












