19 de setembro de 2014

Visão, tenha duas: Uma mulher sem assunto

Back Story, de Lorenzo Mattotti
Esta capa da "New Yorker" deixou quatro olhos abertos, os do Manuel S. Fonseca e os meus. Cada um viu o que viu, de frente ou de trás. Será que se pode também olhar de lado? 

UMA MULHER SEM ASSUNTO

É uma mulher. Vestida com as suas próprias tatuagens, será essa a Back Story, de Lorenzo Mattotti?, e despida com um vestido cor da pele. O cabelo vermelho, um corte de herança punk, eyeliner verde como só em ruivas, e um ensaio de olhos à Bacall, de baixo para cima – está seguríssima como a sua flute. Deve ser uma mulher com assunto. Aliás, deve ser o assunto em si mesmo.

Sou uma mulher sem assunto.

Uma vez, era adolescente, queria ter assunto, agora percebo que deve ter sido isso, e fui furar as orelhas. Às escondidas, claro. Achei que seria fantástico. Uma vida a sonhar com brincos em condições e nada, só de mola. Era lá roupa no estendal, eu?! Já o lóbulo direito despachado quando, zás!, passa-me uma veneta anárquico-revolucionária do pensamento para a pistola, na altura furavam-se com pistola, e quatro, tem a certeza a menina?, sim, quatro, na esquerda. Escolhi brincos tão pequeninos… mal eram um brilho.

Porém, a minha avó era uma mulher com assunto e caçou-me mal me pôs o olho mais verde que qualquer eyeliner em cima, e vá tirar isso que não quero cá tribalismos. Que não tirava. Mas o desplante. Já. Que não. Afinal a avó pode usar brincos em condições e a mãe também. Ao que replicou, porque quando as meninas nasciam, furavam-se logo as orelhas, um despropósito sem escolha - ao que parece uma barbárie que fora preciso abolir. Pois muito bem, queria ser bárbara. Não era apenas dona do meu nariz, era dona das minhas lindas orelhas furadas com o meu dinheiro. E bárbara, retrógrada, mesmo tribal. Pior: Barbie Adolescente e pronto. Ponto parágrafo.

Azarucho: a minha avó tinha uma personalidade, como direi, imperativa no verbo e afirmativa na pontuação. Adeus brincos. A coisa passou e os furinhos fecharam. Durante um tempo ainda se viam quatro micro pontinhos de memória pontiaguda.

Ora, um dia, pouco depois daquela fatalidade a tiro de pistola, à mesa, ao almoço, sentada à direita do meu avô, na expectativa de ser uma mulher com assunto, tinha um só gancho do lado esquerdo a prender o cabelo que assim caía sobre o ombro direito. Confesso: achava a coisa sofisticada, tipo, não sabia bem se film noir, se Katie Scarlett O'Hara, andava dividida entre a estética do crime e a da guerra civil, somada à dos livros, bicicleta e aulas de ballet - não é fácil isso de estética, pede muita arte à história, à sociologia e ao raio da mitologia familiar. Para desespero da ala progressista da casa, para ter a imagem em conformidade, dormia com papelotes pois o meu cabelo sempre foi para o liso. Papelotes de nome. Na altura eram umas esponjinhas macias em cor-de-rosa pastilha elástica da Gorila. Enfim, estava à procura do tal assunto que sempre me iludiu quando o meu avô mas o que é que lhe aconteceu?, alguém lhe deu uma garfada na orelha... extraordinário, uma perfeita garfada na orelha. E vá de piscar o olho e sorrir à minha avó.

Hoje fui de blusão com calças de yoga e havaianas à livraria. Nem me dei ao trabalho de desprender o cabelo de um daqueles elásticos que parecem de fio dos telefones de antes. Até conseguia ouvir a minha avó lá do alto do Olimpo a dar um toque no braço de Zeus, um daqueles toques só dela, fortes, com as costas da mão, a displicência nos nós dos dedos: olhe aquela figura, parece mentira, que falta de civilização!

Mas que hei-de fazer?, ó divinas criaturas, há montes de assunto por todo o lado, nem consigo dar conta de escrever tanto assunto. E só quero dar conta de escrever tanto assunto. A puta da vida está cheia de assunto. Ainda bem que não tenho nenhum.