12 de setembro de 2014

Visão, tenha duas: O raio do rato, o pato, a rata e não sei se havia uma pata, por Manuel S. Fonseca


A capa da New Yorker, os dois olhos da Eugénia, os meus dois olhos. Uma capa, quatro olhos, duas visões. E qual é a sua? 
O RAIO DO RATO, O PATO, A RATA E NÃO SEI SE NÃO HAVIA UMA PATA
Ao pé do Saul Steinberg eu sou um docinho. Mas não sendo eu, como o Saul Steinberg é, capaz de ser cruel com o Rato Mickey, a verdade é que o raio do rato, o pato, a rata e não sei se havia uma pata, não fazem parte dessa fase mística que é a minha infância. Buck Jones, Major Alvega, Tarzan e Fantasma nos livrinhos de bd, a que se juntavam, no cinema, os ardilosos trabalhos e fugas do Tom e Jerry e do Coyotte e Papa–Léguas e eis como na infância se pode desenhar uma vida adulta sem préstimo, nem proveito. O meu desértico imaginário, um certo gosto pelo paradoxo, o salto de liana em liana, o nostálgico bip-bip que amigos mais queridos me reprovam, vêm da ausência, da tremenda ausência de um imaginário disneyano. Bambi? Qual Bambi, qual…
Bom, mas não é de mim, dessa incansável e infiável conversa de mim sobre mim, que vos venho aqui falar. Nem sou eu que venho na capa da New Yorker – ainda que qualquer foto minha pudesse ser tão depressiva como as negras e abonadas orelhas de rato deste Mickey com que Steinberg a ilustrou.
Steinberg de quem, aqui, podem saber tudo, era um judeu romeno que se viu metido na gaiola de Mussolini e se pisgou para Lisboa em 1940, para ser devolvido à procedência por – azar de Mickey que a Donald nunca teria sucedido – ter o visto errado. O cônsul português de Milão não era Aristides Sousa Mendes e Steinberg, apelido pouco recomendável em tempos patrióticos, viu-se preso na ratoeira. Fosse como fosse, Steinberg teve a sua Casablanca e o seu Humphrey Borgart, acabando por, bip bip, fugir da Europa e desaguar em Nova Iorque e na redacção da revista New Yorker. Esta capa para a qual estamos a olhar é uma das quase 100 capas que, em 50 anos, fez para a revista.
Se querem que vos diga, não acho nada irónico este Rato Pintor. O mundo disneyano, para um artista europeu – por mais que o artista europeu se torne até americano como o judeu romeno Steinberg se tornou – é tão incompreensível e ameaçador que exige defesas. Stravinsky, se bem se lembram, foi apanhado à má fila e plasmaram-no no “Fantasia”, de tal maneira que mais nenhum acorde seu se ouviu num filme de Hollywood.
À defesa, Steinberg foi sarcástico e vingativo. Trouxe o Rato Mickey de Disney para uma Europa esmagada por referências. Embora com as pernas trocadas, este Rato da New Yorker podia muito ser um Rato do Prado. Fui ver Las Meninas e, olhando bem lá para o fundo, para a direita do quadro, descobri que, de vez em quando, o auto-retratado Velásquez troca de lugar com este Rato de Corte – era assim a Corte de Filipe IV, um cão em primeiro plano, um Rato lá ao fundo.
É claro que se este Rato viajasse até à Côte d’Azur, até St. Paul de Vence, e se por acaso, nos anos 50, deixassem, ao jantar, entrar um Rato no Colombe d’Or, este Rato toureiro bem se podia sentar à mesa de Pablo Picasso.
Sentado à mesa de Picasso, não bastaria a este Rato o sarcasmo com que se defende da ligeira arte e dos dolars de Disney. E, na ríspida linha de dentes deste Rato que pinta na capa da New Yorker como Velásquez pintava na corte de Filipe IV, desenha-se uma linha de fodida angústia, a linha de fodida angústia que separa o ilustrador do pintor. Conversa de Rato, pincel na mão e orelhas ao alto: será que um ilustrador pode, mesmo com mil sketches desenhados para o New Yorker, ser considerado um artista? E é o que esta insidiosa capa, fantasma de Velásquez, nos pergunta. De certa forma, responde-nos também.