24 de setembro de 2014

Uma andorinha na madrugada

UMA ANDORINHA NA MADRUGADA

Tenho estado aqui a pensar: na verdade, preciso de um doutor em andorinhas.

A varanda do meu quarto, rasgada no telhado, tinha um ninho de andorinhas no beiral, claro. Mas não me ligavam nenhuma e isso parecia-me uma andorinhice natural: onde vivia, então, era muito verde e cheio de pássaros em correctíssima biodiversidade: pegas azuis, poupas que em bebés tinham poupinha, o maluco do pica-pau verde bem se ouvia mas lá ver-se não via, garças, pernilongos, e sei lá que fartura de patos e variedade de gaivotas. E a cotovia. E mais. Agora, aqui, entre a casa de onde venho e a casa para onde vou, portanto, nesta casa intermezzo, não há verde em volta nem mar ao fundo.

A andorinha voltou esta noite. Veio mais cedo, eram duas e dezoito quando o espanto me passou e consegui ver as horas no telemóvel. E não se ficou pela varanda. Não. Veio logo para a sala onde estou a trabalhar, quero dizer, a fitar a folha branca, quero dizer, a ser fintada pelo branco da folha.

E vá de voar do tecto ao chão e eu ai que não me acorde o cão, se lhe dá o instinto caçador, Deus, Nosso Senhor, entre o cão e a andorinha que desgraça a minha! Não acordou.

Fiquei ali pasmada, sentada no sofá, a folha que se lixe, posso lá perder isto de me entrar o National Geographic pela noite adentro? Voou quanto quis e lhe apeteceu. Escancarei as janelas todas pois não faço prisioneiros que não venham de livre vontade, e ela zás, foi mais para dentro, lá para dentro. Depois voltou. Quando se fartou de aparecer, desapareceu-me. Será que vive na chaminé da lareira? Já espreitei com os olhos e os ouvidos: só ouço preto e não vejo um ai.

Não gritou, nem me assustou. Veio sem medo. E eu gostei. Mas veio sozinha. Isso não é vida de andorinha, pois não? E se se perdeu das outras asas do seu bando pelo caminho para outras paragens? E for residente onde está o resto da sua gente?