O 1º Livro do meu Dragão. Dobrado, colado, desenhado e ditado por ele, nas férias da Páscoa de 2014.
ESTE C QUER VOAR
A minha irmã enviou-me um email. No assunto: É mesmo teu sobrinho! Tremi logo. A coisa foi assim: o meu sobrinho mais velho estava a preparar-se para o teste de spelling. Duas das palavras que escreveu cinco vezes cada uma foram: close, closing. A minha irmã: - Oc está muito acima da linha e precisa de estar em cima da linha. - Mas mãe estecquer voar porque vai ser fechado...
No outro dia, quando me estava a enfiar por dentro de uma composição do tio Bach que eu cá sei e uso quando não consigo trabalhar para desimpedir a cabeça do débris, uma coisa de levar tudo à frente e deixar o pensamento fresquinho, o meu sobrinho olha para mim e diz-me: - Essa música do nosso Báque põe-me alegria dentro da cabeça e dá-me vontade de dançar. E dançámos aquele pouco mais de um minuto à maluca. - Prometes que não escreves poemas, só best-sellers? - Vou ser piloto! - Que alívio...
Tenho estado aqui a pensar: na verdade, preciso de um doutor
em andorinhas.
A varanda do meu quarto, rasgada no telhado, tinha um ninho
de andorinhas no beiral, claro. Mas não me ligavam nenhuma e isso parecia-me uma andorinhice
natural: onde vivia, então, era muito verde e cheio de pássaros em
correctíssima biodiversidade: pegas azuis, poupas que em bebés tinham poupinha,
o maluco do pica-pau verde bem se ouvia mas lá ver-se não via, garças,
pernilongos, e sei lá que fartura de patos e variedade de gaivotas. E a
cotovia. E mais. Agora, aqui, entre a casa de onde venho e a casa para onde vou,
portanto, nesta casa intermezzo, não há verde em volta nem mar ao fundo.
A andorinha voltou esta noite. Veio mais cedo, eram duas e
dezoito quando o espanto me passou e consegui ver as horas no telemóvel. E não se
ficou pela varanda. Não. Veio logo para a sala onde estou a trabalhar, quero
dizer, a fitar a folha branca, quero dizer, a ser fintada pelo branco da folha.
E vá de voar do tecto ao chão e eu ai que não me acorde o cão,
se lhe dá o instinto caçador, Deus, Nosso Senhor, entre o cão e a andorinha que
desgraça a minha! Não acordou.
Fiquei ali pasmada, sentada no sofá, a folha que se lixe,
posso lá perder isto de me entrar o National Geographic pela noite adentro?
Voou quanto quis e lhe apeteceu. Escancarei as janelas todas pois não faço
prisioneiros que não venham de livre vontade, e ela zás, foi mais para dentro, lá para dentro. Depois voltou.
Quando se fartou de aparecer, desapareceu-me. Será que vive na chaminé da lareira? Já
espreitei com os olhos e os ouvidos: só ouço preto e não vejo um ai.
Não gritou, nem me assustou. Veio sem medo. E eu gostei. Mas
veio sozinha. Isso não é vida de andorinha, pois não? E se se perdeu das outras
asas do seu bando pelo caminho para outras paragens? E for residente onde está
o resto da sua gente?
Sem que tivesse visto como, tinha uma andorinha a voar uma inquietude de gritos, tão aflitos, já passava das três da manhã, foi ali mesmo, na varanda ainda agora em frente dos meus olhos. E eu tão aflita como ela, sem saber o que fazer para a assustar menos e me assustar menos - tenho uma superstição feita de pássaros - quando fosse abrir a janela, tanto quanto possível, para lhe oferecer saída.
Porque tenho uma superstição feita de pássaros: acredito como quem sabe que trazem mensagens de um mundo ao meu lado sem que o veja: quem me fala, com quem falo?
Nunca até hoje assisti a uma andorinha que voasse casa adentro às três da manhã.
Abri as janelas que pude, o mais que pude, e mal o fiz, ela saiu.
De noite, todos sabem, não é preciso ser Plutarco, nem ter pisado o chão de Philae, Ísis transforma-se em andorinha e voa e grita por seu amado, seu irmão, seu marido: Osíris.
Se de dia Ísis usa a chave dos mistérios na mão, e o nó dos imortais, o toucado de abutre e suas longas asas, o trono sobre a cabeça ou entre os cornos, o disco, e com ambos faz a lira luminosa, se de dia usa o seio exposto porque de dia Ísis é a mãe do mundo e a rainha do mundo, dona das portas da morte e do segredo de vida, de noite é uma andorinha pequenina e o escuro não é só vasto, é longo e lento na travessia.
Talvez Ísis tenha vindo saber se eu lhe abriria o caminho para o sol lá do fundo do susto que apanhei quando a aflição dela foi a minha.
ESTAREI A FALAR CHINÊS? NÃO, PARECE QUE NÃO ESTOU...
O mandarim foi incluído como terceira língua no currículo escolar do colégio onde estudam os meus dois sobrinhos. A primeira língua é o inglês, a segunda o português.
Os colegas são portugueses, russos, brasileiros, angolanos, chineses, holandeses, ingleses... enfim, o recreio é uma Babel onde, vá-se lá saber como, se percebem lindamente.
Sexta-feira, antes do jantar, estavam os dois no banho. A minha irmã terá dito que era hora de saírem. Terá insistido. E eles perdidos de festa, nada.
A minha irmã:
- São horas de sair do banho! Estarei a falar chinês?
O meu sobrinho mais velho:
- Não mãe, a mãe está a falar português, em chinês tomar banho diz-se xízao, mas sair do banho ainda não aprendi.
Esta capa da "New Yorker" deixou quatro olhos abertos, os do Manuel S. Fonseca e os meus. Cada um viu o que viu, de frente ou de trás. Será que se pode também olhar de lado?
UMA MULHER SEM ASSUNTO
É uma mulher. Vestida com as suas próprias tatuagens, será essa
a Back
Story, de Lorenzo Mattotti?, e despida com um vestido cor da pele. O
cabelo vermelho, um corte de herança punk, eyeliner verde como só em ruivas, e
um ensaio de olhos à Bacall, de baixo para cima – está seguríssima como a sua
flute. Deve ser uma mulher com assunto. Aliás, deve ser o assunto em si mesmo.
Sou uma mulher sem assunto.
Uma vez, era adolescente, queria ter assunto, agora percebo
que deve ter sido isso, e fui furar as orelhas. Às escondidas, claro. Achei que
seria fantástico. Uma vida a sonhar com brincos em condições e nada, só de mola.
Era lá roupa no estendal, eu?! Já o lóbulo direito despachado quando, zás!, passa-me
uma veneta anárquico-revolucionária do pensamento para a pistola, na altura
furavam-se com pistola, e quatro, tem a certeza a menina?, sim, quatro, na
esquerda. Escolhi brincos tão pequeninos… mal eram um brilho.
Porém, a minha avó era uma mulher com assunto e caçou-me mal me pôs o olho mais verde que qualquer eyeliner em cima, e vá tirar isso que não quero cá tribalismos. Que não tirava.
Mas o desplante. Já. Que não. Afinal a avó pode usar brincos em condições e a
mãe também. Ao que replicou, porque quando as meninas nasciam, furavam-se
logo as orelhas, um despropósito sem escolha - ao que parece uma barbárie que
fora preciso abolir. Pois muito bem, queria ser bárbara. Não era apenas dona do
meu nariz, era dona das minhas lindas orelhas furadas com o meu dinheiro. E
bárbara, retrógrada, mesmo tribal. Pior: Barbie Adolescente e pronto. Ponto
parágrafo.
Azarucho: a minha avó tinha uma personalidade, como direi,
imperativa no verbo e afirmativa na pontuação. Adeus brincos. A coisa passou e
os furinhos fecharam. Durante um tempo ainda se viam quatro micro pontinhos de
memória pontiaguda.
Ora, um dia, pouco depois daquela fatalidade a tiro de
pistola, à mesa, ao almoço, sentada à direita do meu avô, na expectativa de ser
uma mulher com assunto, tinha um só gancho do lado esquerdo a prender o cabelo que assim caía sobre o ombro direito. Confesso: achava a coisa sofisticada, tipo,
não sabia bem se film noir, se Katie Scarlett O'Hara, andava dividida entre a estética do crime e a da guerra civil, somada à dos livros, bicicleta e aulas de
ballet - não é fácil isso de estética, pede muita arte à história, à sociologia e ao raio da mitologia familiar. Para desespero da ala progressista da casa, para ter a imagem em
conformidade, dormia com papelotes pois o meu cabelo sempre foi para o liso. Papelotes
de nome. Na altura eram umas esponjinhas macias em cor-de-rosa pastilha
elástica da Gorila. Enfim, estava à procura do tal assunto que sempre me iludiu quando
o meu avô mas o que é que lhe aconteceu?, alguém lhe deu uma garfada na orelha... extraordinário, uma perfeita garfada na orelha. E vá de piscar o olho e sorrir à minha avó.
Hoje fui de blusão com calças de yoga e havaianas à livraria. Nem me dei ao trabalho de desprender o
cabelo de um daqueles elásticos que parecem de fio dos telefones de antes. Até conseguia ouvir a minha avó lá do alto do Olimpo a dar um toque no braço de Zeus, um daqueles toques só dela, fortes, com as costas da mão, a displicência nos nós dos dedos: olhe aquela figura, parece mentira, que falta de
civilização!
Mas que hei-de fazer?, ó divinas criaturas, há montes de assunto
por todo o lado, nem consigo dar conta de escrever tanto assunto. E só quero dar conta
de escrever tanto assunto. A puta da vida está cheia de assunto. Ainda bem que não tenho nenhum.
Esta capa da "New Yorker" deixou quatro olhos abertos, os da Eugénia de Vasconcellos e os meus. Cada um viu o que viu, de frente ou de trás. Será que se pode também olhar de lado?
Pela frente ou por trás?
Sei muito bem o que é um decote. Sei muito bem que altíssimo sobressalto um apertado e redondo par de pombas pode provocar no febril corpo de um homem. Mas nada se compara ao vestido de finas alças sobre os ombros, estuário aberto que se vem fechar sobre as cinco fundidas vértebras do sacro – é incomparável a geografia de umas costas nuas.
Sei muito bem que há um venusiano planalto à frente. Mas atrás! Esses espaços abertos, duas rasas planícies com um rio ao meio. Planícies de neve, planícies que o sol torrou. Qualquer turista vai pela frente, torres Eiffel de Madonna, funda gruta de Lascaux. Mas as costas nuas! As costas nuas pedem a didáctica inclinação de um Ovídio, a delicadeza e persistência do lento aprendiz de uma “Ars Amatoria”.
Cinco versos cervicais levam-nos da cabeça que nos ama à linha dos ombros. Cinco versos, cinco discos, pingentes de ouro e prata a pedir o escorregadio beijo dos lábios, os dedos em cacho, como quem vindima em En-Gaddi.
Depois, na ampla e vagabunda beleza torácica e lombar, deixa-me ser o pastor que apascenta os teus rebanhos. Por estas estepes correm os cabritos, a gazela alegre, a corça dos campos, os simétricos olhos de um tigre. Atravessa-as o mais móvel dos túneis – são tão direitas as costas e tão móvel essa lírica trança gelatinosa e óssea que reverbera a cada toque da polpa de uns dedos, ao sopro de uns lábios, a uns encaracolados cabelos que nela se rocem.
E, no entanto, nem tudo se move. São firmes e fundidas as 5 vértebras do sacro, firmes e fundidas as 4 vértebras do cóccix. Estão ali imóveis, colunas que sustentam um jardim. Sem elas, sem essas vértebras resilientes, nunca o poeta poderia ter dito: “Eu entro no meu jardim, eu como o mel, o favo.”
Cauda equina de tão nervosas raízes, já o vestido te esconde, para que melhor te adivinhemos. E por mais que o manto tape, nele se desenham os maciços perfumados, a escura e africana fenda da Tundavala.
O amado, que desceu em beijos cervicais, que correu torácico, que se perdeu no bálsamo lombar, que flutou no imóvel rigor sacrococcígeo, suplica agora à amada: “Pela frente ou por trás?” E ela, voz de Inverno, rosa de Saron: “Ó meu amor, pela frente ou por trás, por mim tanto faz.”
Introduza o nome do alimento e veja a informação nutricional. Depois, olhe, albarde o burro à vontade do dono. Exemplo:
bróculos - crus, mas também encontra cozidos, salteados o diabo a quatro, e mesmo um Big Mac da McDONALD'S. Está lá tudo. É um www. do caneco. Estas uvinhas que estou a comer as we speak , ai que coisa feia!, são isto, mais coisa menos coisa.
A capa da New Yorker, os dois olhos do Manuel S. Fonseca, os meus dois olhos. Uma capa, quatro olhos, duas visões. E qual é a sua?
VISÃO, TENHA DUAS: O RATO STEINBERG
Podem dizer e escrever muito e tanto e bem sobre Saul Steinberg. E decerto aprenderei com quem o fizer - e com quem anteriormente o fez. Mas isso não retira uma vírgula ao preconceito, ao pré-conceito que tenho deste trabalho dele em particular e que para nosso benefício faz a capa de The New Yorker desta semana.
Em 1967 nasci entre tamanhos gritos que no jardim perto perguntavam quem grita assim, porquê. As horas foram demasiadas: as de dois terríveis dias para um bebé de antes do tempo – tinha a chegada prevista para o fim de Dezembro, princípio de Janeiro, e adiantei-me.
Com a experiência de nascer para a vida trouxe agarrada a ideia de morte que, pouco a pouco, mas feliz e significativamente, se afastava das salas de parto, da mãe, do filho. Acabou em bem para as duas, nenhum risco, apenas a sombra com que o medo escurece as paredes. Porém estou convencida de que, talvez por isso ou porque sim, vida e morte, essas duas forças presentes em toda e qualquer existência, essas duas serpentes pulsantes, em mim, bem se combateram e muito, até se descobrirem equilibradas em poder e se unirem em torno da árvore da vida, afinal, sobre o Caduceu de Hermes disse Homero na sua Ilíada: agarra a vara com a qual ele enfeitiça à sua vontade os olhos dos mortais, ou os desperta para a vida. Só assim a arte, pintura ou música ou poesia é possível.
Saul Steinberg, cujo centenário do nascimento se celebra, sabia disto ou, pelo menos, o seu desenho, as suas ilustrações, colagens, esculturas, sabiam-no. E isto é: a consciência e a luta pela dominância de uma das polaridades, ter pulso e tentar integrá-las e falhar, ou suceder. Este trabalho de 1967 sabe dizê-lo melhor.
Porquê?
Este rato híbrido de Mickey Mouse e terror diante do cavalete-espelho é um originalíssimo auto-retrato de maturidade. Ainda que digam que os seus auto-retratos são gatos do seu próprio gato, é rato também, é este Mickey Mouse persecutório. Explico.
Quantas vezes conseguimos ver no nosso rosto, o rosto que cindimos de nós e depositámos nos outros, aquele que não podemos nem suportar, e nos assusta até? E quantas vezes somos os agentes responsáveis pelo caos que nos cerca no mundo que prometemos recriar em melhor cosmologia e o fazemos pior do que era à nossa chegada? Quantas vezes deixamos que no corpo de amor a morte nos colha como só ela pode e como só o amor permite? Por fundo a folha de música por escrever. Não são necessárias as notas na pauta: penso que este auto-retrato é dança macabra de um.
La Danse Macabre é, formalmente, a representação de uma dança. De forma simplificada: esqueletos das quatro partidas do espectro social e moral dançam sobre as próprias campas, no cemitério. Mas, e mesmo em diferentes culturas, nesta dança, a imagem traz metaforicamente, ritualmente, gesto, e texto por vezes, para a desordem social, o pecado e o sexo e a morte articulados entre si como os próprios ossos dançantes para que os possamos ver e ler.
Danse Macabre, Michael Wolgemut, 1493
Trazida do fim da Idade Média, qual Bela Adormecida, esta dança não terá acordado do seu sono para os olhos do grande público com a Silly Simphony, The Skeleton Danse, da Disney, de 1929? E não se terá feito parte do nosso quotidiano, e tão visível que nem se repara, quando Saul Steinberg, assim, ao espelho, com cabeça de Mickey perverso, na linha de perigo, nos devolveu o rosto de uma época, o nosso rosto no tempo, e o rosto que temos e os olhos não podem ver?
A capa da New Yorker, os dois olhos da Eugénia, os meus dois olhos. Uma capa, quatro olhos, duas visões. E qual é a sua?
O RAIO DO RATO, O PATO, A RATA E NÃO SEI SE NÃO HAVIA UMA PATA
Ao pé do Saul Steinberg eu sou um docinho. Mas não sendo eu, como o Saul Steinberg é, capaz de ser cruel com o Rato Mickey, a verdade é que o raio do rato, o pato, a rata e não sei se havia uma pata, não fazem parte dessa fase mística que é a minha infância. Buck Jones, Major Alvega, Tarzan e Fantasma nos livrinhos de bd, a que se juntavam, no cinema, os ardilosos trabalhos e fugas do Tom e Jerry e do Coyotte e Papa–Léguas e eis como na infância se pode desenhar uma vida adulta sem préstimo, nem proveito. O meu desértico imaginário, um certo gosto pelo paradoxo, o salto de liana em liana, o nostálgico bip-bip que amigos mais queridos me reprovam, vêm da ausência, da tremenda ausência de um imaginário disneyano. Bambi? Qual Bambi, qual…
Bom, mas não é de mim, dessa incansável e infiável conversa de mim sobre mim, que vos venho aqui falar. Nem sou eu que venho na capa da New Yorker – ainda que qualquer foto minha pudesse ser tão depressiva como as negras e abonadas orelhas de rato deste Mickey com que Steinberg a ilustrou.
Steinberg de quem, aqui, podem saber tudo, era um judeu romeno que se viu metido na gaiola de Mussolini e se pisgou para Lisboa em 1940, para ser devolvido à procedência por – azar de Mickey que a Donald nunca teria sucedido – ter o visto errado. O cônsul português de Milão não era Aristides Sousa Mendes e Steinberg, apelido pouco recomendável em tempos patrióticos, viu-se preso na ratoeira. Fosse como fosse, Steinberg teve a sua Casablanca e o seu Humphrey Borgart, acabando por, bip bip, fugir da Europa e desaguar em Nova Iorque e na redacção da revista New Yorker. Esta capa para a qual estamos a olhar é uma das quase 100 capas que, em 50 anos, fez para a revista.
Se querem que vos diga, não acho nada irónico este Rato Pintor. O mundo disneyano, para um artista europeu – por mais que o artista europeu se torne até americano como o judeu romeno Steinberg se tornou – é tão incompreensível e ameaçador que exige defesas. Stravinsky, se bem se lembram, foi apanhado à má fila e plasmaram-no no “Fantasia”, de tal maneira que mais nenhum acorde seu se ouviu num filme de Hollywood.
À defesa, Steinberg foi sarcástico e vingativo. Trouxe o Rato Mickey de Disney para uma Europa esmagada por referências. Embora com as pernas trocadas, este Rato da New Yorker podia muito ser um Rato do Prado. Fui ver Las Meninas e, olhando bem lá para o fundo, para a direita do quadro, descobri que, de vez em quando, o auto-retratado Velásquez troca de lugar com este Rato de Corte – era assim a Corte de Filipe IV, um cão em primeiro plano, um Rato lá ao fundo.
É claro que se este Rato viajasse até à Côte d’Azur, até St. Paul de Vence, e se por acaso, nos anos 50, deixassem, ao jantar, entrar um Rato no Colombe d’Or, este Rato toureiro bem se podia sentar à mesa de Pablo Picasso.
Sentado à mesa de Picasso, não bastaria a este Rato o sarcasmo com que se defende da ligeira arte e dos dolars de Disney. E, na ríspida linha de dentes deste Rato que pinta na capa da New Yorker como Velásquez pintava na corte de Filipe IV, desenha-se uma linha de fodida angústia, a linha de fodida angústia que separa o ilustrador do pintor. Conversa de Rato, pincel na mão e orelhas ao alto: será que um ilustrador pode, mesmo com mil sketches desenhados para o New Yorker, ser considerado um artista? E é o que esta insidiosa capa, fantasma de Velásquez, nos pergunta. De certa forma, responde-nos também.
Faço pão. Tenho uma máquina. Mas quero andar sempre a fazer pão? Não. Portanto, também o compro. Quero deste. Porquê? 0% de açúcar e de colesterol, baixo em sódio, orgânico e de cereais integrais, tudo inteirinho, portanto, proteína e fibra e lailai. Mas há uma loja/padaria/super-hipermercado em Portugal que se digne a vendê-lo? Não.
Estou aqui estou a fazer n em um: loja-ginásio-workshop: fitness, cozinha, nutrição, yoga, meditação, e vá, um bocadinho larinho de dança. E livros. Investidores: is there anybody out there? Ó homens de pouca fé! Então, ao menos, encomendem o raio do pão e ponham-no à venda na loja/padaria/super-hipermercado.
Profeta Ezequiel!, ajuda-me que deves saber melhor do que eu: ninguém é profeta na sua terra. Irra que nervos!