1 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Um vestido branco, por Manuel S. Fonseca


Voltámos. Meia-noite e duas Visões. A Eugénia e eu ficámos a olhar para esta capa da Visão. Vimos o que vimos que é o que cada um de nós conta. São duas Visões. Também nos pode contar a sua.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

UM VESTIDO BRANCO

Com esse vestido branco vais de carrinho, é só o que tenho a dizer-te. Vais de carrinho a Portugal e vais de carrinho a Marrocos.
Falo contigo e falo com quem vista um vestido branco. Quero que saibas, quero que saibam que o vestido branco tem uma densidade ontológica própria. O vestido branco é rectangular, mas quando, vestido pela cabeça, tomba deslizante sobre o teu corpo – um corpo – o vestido branco arredonda-se nos quadris: o que era tão recto, tão duramente recto, adoça-se e curva. O vestido branco não é um arquitecto moderno, não é Siza, nem Bauhaus, é mais a contra-curva de Niemeyer. O vestido branco se fosse alguma coisa haveria de ser art déco.
Ontologicamente espesso, o vestido branco prova a insustentável leveza do ser, tecido leve, seda, linho ou algodão. É liso o vestido branco. Mas é tão liso que nele se desenha o brio dos delicados botões do teu peito. Dois e dolentes.
O vestido branco é! – seja lá a existência o que for. Da cintura para baixo, o vestido branco é libérrimo. Pode na cintura amarrá-lo um cinto castanho. A seguir, aproveitando a rampa das nádegas, a cornucópia venusiana, o vestido branco balouça, toca e não toca, acaricia e foge, faz fresquinho como um leque onde tanto calor pode ser feito. É aqui, solto, cavo, que o vestido branco abandona o monismo parmenideano. No vácuo que a solta liberdade do teu vestido anuncia é que nasce o movimento atómico, indeterminado e intrínseco com que Leucipo sonhava. De Portugal a Marrocos, de carrinho, quem é que se atreve a não comungar do velho atomismo indeterminista de Epicuro?
O vestido branco transfigura a paisagem: obnubila a montanha, inunda o leito do rio. O vestido branco é o mais alto cume calcário na linha escarpada do Rif marroquino, é a silhueta que o solar Polanski de “Faca Na Água” filmaria, intermitente, entre oliveiras e sobreiros com a exaltada luz do Alentejo.
Com esse vestido branco vens de carrinho, é só que tenho a dizer-te.