8 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Ter asas e voar, por Manuel S. Fonseca


Meia-noite, um avião e duas Visões. A Eugé­nia e eu ficá­mos a olhar para esta capa da Visão. Vimos o que vimos no avião que cada um de nós tomou. São duas Visões. E a sua?


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

TER ASAS E VOAR
Há um avião a levantar voo da capa da Visão, o que me dá para pensar oito coisas singelas:
  1. Queria ter asas e voar, mas não é Ícaro nem Jardel quem quer.
  2. Quando eu era um monandengue, de calções pobres e sonhos de luxo, e isso foi em Angola, tinha dias em que ia para a varanda do aeroporto de Luanda ver os aviões levantar vôo. O barulho atordoava e a gasolina cheirava a vitória.
  3. Já vestia um fatinho Armani, o pescoço apertado por uma gravata e a cabeça atafulhada de excel e logística, quando na SIC apoiámos um documentário em que dois monandengues moçambicanos, desiguaizinhos ao meu mim de Luanda, passavam os dias no aeroporto de Maputo a ver os aviões levantar e aterrar. E um deles explicava como é que era voar de avião: “Quando o avião sobe no ar, as pessoas desmaiam lá dentro, então. Viajam já desmaiadas e acordam quando o avião aterra.”
  4. A primeira vez que viajei de avião – ou desmaiei, então – foi num Friendship, de Luanda ao Lubango. Desmaiei, sim: íamos no meio das nuvens de algodão doce, a terra era um chocolate cá em baixo, rios de chocolate líquido, uma fenda chamada Tundavala aberta pela colher de um menino na quentíssima mousse angolana.
  5. A janela de um Boeing, onde eu por acaso ia, chorou uma lágrima a ver o nascer do sol sobre o Sahara. O dedo do avião limpou a gota que caía, com vergonha que o céu visse.
  6. Estava lá em baixo o Pólo Norte, a doer de branco, a tiritar de frio e, em aquecimento global, ia ali mesmo ao lado a Melanie Griffith, loura, num sossego e sono que um Bloody Mary embalava.
  7. Na noite tropical de Luanda, um bruto capacete de humidade em cima, descendo a escada do avião, emergiam as vedetas: primeiro o senhor Otto Glória, depois o senhor Coluna, o senhor José Augusto e, logo, os miúdos Eusébio e Simões. E eu na pista, a ter agora a certeza de que, se há estrelas no céu, podem sempre descer à terra.
  8. Foi um estalo. O estalo do mundo a partir-se. Lembro-me desse dia, desse começo de tarde, quando um Mig, sou capaz de jurar que mesmo por cima da Vila Alice, rompeu a barreira do som. Um estalo supersónico e, uau, os ouvidos rotos de infinito. Foi o estampido do ar e toda a gente a gritar em terra: “a vitória é certa.”