15 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Portugal podia ter sido mais do que Portugal, por Manuel S. Fonseca


Meia-Noite na capa Visão. A Eugénia e eu vá de gastar os pixels ao tio Rubens. Mas já sabe, lailailai e tal está no olhar de quem vê. E o querido leitor que lailailai viu?



“Visão, tenha duas”


Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


PORTUGAL PODIA TER SIDO MAIS DO QUE PORTUGAL
Não foi neste cavalo, roubado pela capa da revista Visão a Rubens, que Filipe II chegou a Lisboa. Se a cavalo chegou, terá sido a Almada. De Almada para Lisboa, veio numa nau real, num dia em que os cacilheiros teriam feito greve, se já houvesse cacinheiros e já houvesse greves.
Lisboa cheirou bem ao nariz de Filipe. Comparado com o cheiro da Madrid abafada, fétida, merdosa enfim, varrida pelos ventos atlânticos, Lisboa, cheirava a rosas, nesse dia 25 de Julho de 1581, o dia em que o vencedor de Lepanto pisou o Terreiro do Paço, pisando, por muito que não quisesse, o povo de Portugal.
Madrid era, há vinte anos, a capital de um reino em que o Sol nunca se punha, o reino de Filipe, filho da portuguesa Isabel, a filha mais velha do rei D. Manuel I. Era uma cidade das brenhas comparada com o porto de Sevilha, era um repelente chavascal comparada com Lisboa, o maior porto da Europa, a cidade que, por essa altura, Miguel Cervantes, o autor de “Dom Quixote”, cantou no seu “Libro Tercero de los Trabajos de Persiles Y Sigismundo”, dela dizendo: “A cidade é a maior da Europa e a de melhores maneiras; nela se descarregam as riquezas do Oriente e daqui se espalham para todo o universo… A formosura das mulheres espanta e apaixona. A galhardia dos homens pasma, como eles dizem. Esta é, enfim, a terra que aos Céus presta santo e generosíssimo tributo.”
É nesta Lisboa rainha – qualificativo que palmei a Damião de Góis – que o rei espanhol fica cativo.  A recepção fidalga terá ajudado. Aclamado pelas Cortes, em Tomar, é pomposamente recebido em Lisboa, a capital de Portugal que talvez quisesse ser capital do imenso reino que acabara de a engolir. Mestre Affonso Guerreiro, cujo nascimento é incerto, mas cuja morte foi certamente nesse mesmo ano, ainda escreveu, e foi a última coisa que fez, o livro que titulou “Das Festas que se fizeram na cidade de Lisboa, na entrada del Rey D. Philippe primeiro de Portugal”. Num dos arcos que triunfalmente saudavam o rei, lia-se: “Seja o Sol o limite dos teus reynos, a ti dou eu ventagem, Jupiter a mi se incline.”
Filipe II de Espanha podia ter feito de Lisboa capital do mundo. A cidade dominava os mares. Nela convergiam Ocidente e Oriente e a embocadura do Tejo parece querer sugar a África, as Américas, a remota Ásia.
Querendo ser português, Filipe não chegou a ser tão português assim. Em Lisboa, multiculturalista avant la lettre, respeitou tradiçõesportuguesas, para os cargos sensíveis só nomeava portugueses e, se ainda hoje se pensasse como ele pensava, nunca se teria aprovado o Novo Acordo Ortográfico – Filipe impôs que a língua portuguesa fosse a única língua dos documentos oficiais. Falava-a, aliás, aprendida da boca da mãe e de Dona Luísa de Mascarenhas, dama de companhia dela. Quis mesmo que os seus filhos aprendessem a língua de Camões. Em Lisboa, foi o mais português que conseguiu ser: vestia-se como um português, comia como um português, fazia os horários dos portugueses, o que, penso eu, significa que terá dispensado a sua siesta.
Mas, apesar das insistentes pressões do seu pai, o sacro imperador Carlos V, Filipe não fez de Lisboa a capital do imenso Reino, com o que teria consolidado a União Ibérica e, numa antecipação às ideias de Obama, criado a plataforma ideal para o comércio americano, para não se arriscar a perder o Império.
Filipe, neto de Manuel e filho de Isabel, não foi português bastante para fazer de Lisboa capital: Portugal voltaria por isso a ser Portugal e Espanha há-de sempre continuar a sonhar ser a grande Espanha que deixou de ser.
Filipe deu a Lisboa o Paço da Ribeira, a igreja de São Vicente de Fora e pôs no fim do rio a torre do Bugio. Cuidou dos mortos resgatando o pálido cadáver de Dom Sebastião, o James Dean português.
Um dia de 1588 juntou na boca do Tejo 130 navios espanhóis e portugueses, a Grande y Felicissima Armada, que deveria ser invencível, esmagar e pôr de joelhos a inglesa Isabel, filha de Henrique VIII e de Anna Bolena, que ao que parece o amava tão apaixonadamente que por ele suspirou em versos que tais: “Gentle prince of Spain. come, o'come again...”
Deixando-a a 11 de Fevereiro de 1583, Filipe não fez de Lisboa capital, começo de um mundo novo, império de impérios; fez de Lisboa a mortalha donde saíram as velas da morte, as 130 velas que destruídas, afundadas pelo bárbaro corsário, afundariam os sonhos ibéricos em chorado flamenco e ganido fado.
Filipe amava tanto Portugal que ficou com a madeira de uma nau lusa em ruínas, a Cinco Chagas, e dessa madeira fez o seu caixão. Amava Portugal, era é um amor de morte. Amor e morte. Pintou-o Rubens, devia-o ter filmado Don Luis Buñuel.