29 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Malhavam pela frente e por trás, por Manuel S. Fonseca


Meia-noite na manifestação. E aqui estamos, a Eugénia e eu, cada um a dizer de si. Ou será de nós?

MALHAVAM PELA FRENTE E POR TRÁS
Eu já fui uma silhueta na noite, igualzinha às silhuetas de Fergusson, Missouri, com que Eric Drooker, artista, habitual ilustrador da New Yorker, povoou subtilmente a capa que faz o nosso "Visão, tenha duas" desta semana. Foi em 1973, em Lisboa, cidade aonde voltava para estudar Direito, catorze anos depois de ter sido adoptado por uma África que só existia em Hollywood e nas nossas tontas e amorosas cabeças coloniais portuguesas.
Na marcelista noite de Lisboa, que já era muito menos claustrofóbica e abafada do que politica e choronamente se anda para aí a dizer, eramos dois rapazes e duas raparigas e ainda nenhum era o adulto que todos seríamos se hoje tivéssemos a mesma idade. E minto, era eu, mas por decreto. Para vir para Portugal, o meu pai, emancipara-me. Era uma carta de alforria que existia à época. Sempre sonhara ser independente, e um papel de Conservatória atestava-o. Como diria o americano Delmore Schwartz, que nada tem a ver com esta história, nos sonhos começam as responsabilidades.
Talvez fosse Setembro, levava eu a minha juvenil responsabilidade de adulto encartado a subir o nocturno Chiado. Ia com o meu amigo e as minhas amigas ouvir Zeca Afonso que prometia cantar numa pequenina sala do Centro Nacional de Cultura, mesmo ao lado do Teatro São Luiz, na afamada rua António Maria Cardoso. Eram tudo razões para pôr a cabeça de um emancipado em estado de sítio. E o estado do sítio onde cheguei, a uma frenética António Maria Cardoso de jeans, muitos cabelos compridos, toda a gente com pernas e olhos cheios de bicho-carpinteiro, avisou-me logo que, desse lá por onde desse, íamos ter recolher obrigatório.
Ao tempo, ainda não tinha a vasta experiência militar que havia de colher a atenção do Pentágono, ainda não tinha sequer essa capacidade de proteger o flanco que qualquer alferes aprende com um primeiro sargento. Fui, portanto, de peito cheio e feito, sem saber que à minha direita estava um velho cinema, o já extinto Chiado Terrasse, e à minha esquerda o CNC, que eu não posso jurar que já fosse, como durante umas décadas foi, de Helena Vaz da Silva. Caminhei ao lado dos meus amigos, um pé emancipado, outro juvenil, quando nos disseram que o Zeca não cantaria.
Reparem, não é bem a mesma coisa que dar uma veneta ao profissionalíssimo Tony Carreira e ele não cantar. Zeca era um cantor de vampiros. Importa sublinhar, atendendo à fresquíssima idade média de muitos dos leitores do "Escrever é Triste", que nenhum dos vampiros de Zeca era do "Twilight". Zeca queria cantar - aliás, como a silhueta do "Nosferatu", de Murnau, como as silhuetas das noites de Fergusson, quanto mais escura  fosse a noite, mais ele queria cantar. Na altura, usava-se muito a palavra proibido, termo que entretanto teria caído em desuso, não fosse a salvífica intervenção de algum escol feminista. Zeca foi proibido de cantar.
E volto ao alferes que eu podia ter sido. Percebi que a rua António Maria Cardoso era estreita e sem saídas. Ou era à frente ou era atrás. Nem flanco, nem deriva, muito menos recuo estratégico. Digo isto, porque a pequenina e canora multidão se agitou, soltando os bichos-carpinteiros num bruá que se deve ter ouvido no vizinho São Carlos. E eu, jovem do musseque luandense, que queria pela primeira vez ver a fachada do Teatro São Luiz, apercebi-me que já não chegaria ao desejado número 38. Atlética, façanhuda, mas sobretudo organizadíssima, a polícia de choque vinha num irrepreensível geometrismo, limpando a rua a viseira e cassetete, o que significava cacetada de meia-noite nas filosóficas cabeças e macios costados que estivessem à mão de semear. E se nós eramos um trigo limpo.
Havia, está claro, uma explicação razoável: não só era proibido Zeca Afonso cantar, como era proibido ir ouvi-lo. Num ápice, eu e o meu amigo entendemos que devíamos proteger as nossas melómanas e inocentes amigas: ele, ousado, à frente, elas no meio, este eu protector a fechar a coluna: "leave no man behind", muito menos uma miúda. E fizemos meia-volta em direcção ao Chiado para sairmos por onde tínhamos entrado. E não é que o atrasado mental do capitão que comandava os hirsutos choques de ferro e fogo tinha pensado a mesma coisa?! A limpa entrada da rua António Maria Cardoso era, agora, uma farpadíssima saída. Nós, que nos víamos como uns cândidos filhos da madrugada, tivemos então o pensamento que se tem quando, de tão apertadíssimo, no cu não cabe um feijão: "Mas que filhos da puta!" E eram. É preciso ser-se um filho da puta para se deixar, magnânimo, entrar uma carrada de malta jovem, idealista, sonhadora, para uma rua amena, e depois cair-lhes em cima, sem lhes dar o alívio de uma saída. É um bocadinho injusto e é muito mais chato do que uma camada de chatos.
Portanto, eles malhavam pela frente e por trás. Pequena manada de bisontes mansos, avançámos. Fosse pelo que fosse, a máquina inimiga, no caso do nosso escasso pelotão em fuga, portou-se ainda pior do que poderíamos esperar. Pelo berro que o meu amigo deu, pela súbita contracção que fez do meu vigoroso físico uma magra e baixa figura, os choques - seriam os choques do Maltês ou foi um tenente a servir-nos nessa noite? - falharam as bastonadas. Passámos ilesos. Mas os brutos, olhar cego ao género, não é que acertaram em cheio nos delicados e modiglianescos pescoços das nossas amigas?! Para nossa masculiníssima vergonha foi nelas que eles arriaram-lhes com tudo. Nas noites de vampiros, nenhum pescoço se salva.
Cervicais em ai-ai, omoplatas em ui-ui, saídos teatro de guerra, só encontrámos um paliativo que mitigasse tanta dor: levar as meninas ao cinema, à sessão da meia-noite. Foi no Apolo 70 (sim, também já morto em combate). No ecrã, passeavam as silhuetas que um jansenista francês, Robert Bresson, foi buscar às páginas russas do putinesco Dostoievski. A noite em que não ouvi Zeca Afonso, foi a noite em que vi "As Quatro Noites de um Sonhador".