29 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Geração Hello Kitty, talvez a morte nos salve


Meia-noite na manifestação. E aqui estamos, o Manuel S. Fonseca e eu, cada um a dizer de si. Ou será de nós?

GERAÇÃO HELLO KITTY, TALVEZ A MORTE NOS SALVE
Sou filha da geração que se manifestou. Da que saiu à rua e fez a revolução sexual e a reforma agrária. O Maio de 68 e Abril de 74. Sou filha da geração que fez uma pirueta do caraças e depois do amor livre casou, e depois da nacionalização privatizou.
Por sorte, também sou filha dos meus pais e neta dos meus avós. Por sorte, talvez isso nos salve: isso é cada um de nós ter um universo particular a navegar outra órbita, imprevista porque microscópica: geração de átomos pulverizados. Digo por sorte porque a minha geração, como todo, não tem voz – é natural, a geração dos nossos pais falou muito e muito alto, e toda a gente sabe que o ruído provoca a surdez, e que quem não ouve, não fala. Se geração dos nossos pais falou muito e muito alto, talvez, por sorte, os nossos pais no nosso universo particular tenham falado um pouco menos, e um pouco mais baixo.
Eu chamo à minha geração a Geração Hello Kitty – ao menos a Pequena Sereia deu a sua voz por pagamento a uma feiticeira para que ela substituísse a sua cauda de peixe por um lindo par de pernas com o qual caminhou na direcção do seu sonho de amor. Não somos a Pequena Sereia, nenhum sonho geracional nos move. Nascemos todos de novo em 74, como a Hello Kitty, a menina gatinha branquinha, tão inha, sem boca nem boquinha.
Nós, geração, não temos boca: somos os filhos bem comportados dos nossos pais. Não temos ideais políticos, nem artísticos, sequer um ideal do eu que não seja de empréstimo. Somos o sonho de qualquer político de quinta, o público de um escritor menor, as palmas na peça de merda levada à cena. Somos a abstenção e a omissão num silêncio nada inocente, pulverizados e ferozes, cada um no seu casulo de descontentamento ou abundância, e sempre falta. Quem está ao nosso lado? Ninguém sabe. 
Somos as cabeças do corpo de Hidra. E nem sabemos que esperamos Hércules, como ele não sabia que do veneno da Hidra morreria.
Perdemos o mundo por pouco. Meia dúzia de anos acima ou abaixo e seríamos mais de nós mesmos. Quem seríamos, então?
A verdade é que a geração dos nossos pais refez o perfil do ocidente, do pensamento à economia. E outra vez o refez quando os ideais se falharam na própria concretização. Inventaram a esquizofrenia ocidental. Nós nem isso.
Mas como geração de desconcertados actos colectivos, mil cabeças à espera de Hércules, cavalos cada um a puxar nas quatro direcções do mundo, havemos de rasgar a carne: talvez então a morte nos salve e possamos enfim viver.