22 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: as famílias muito ricas, as famílias muito pobres, por Manuel S. Fonseca


Hoje, para mudarmos de águas, a Visão é a New Yorker, uma revista americana.  A Eugénia de Vasconcellos e eu ficámos a olhar para esta capa de praia. Será que vamos ver os mesmo três pares de pernas que o ilustrador levou a banhos? 
TRÊS GERAÇÕES
Nesta capa da “New Yorker” estou a ver três gerações a olhar para o mar. Para começar, devo dizer que nunca li a “New Yorker” na praia. É uma revista de avião. Por vezes, uma revista de hotel. É conceptual demais para tanto mar, para esse mar para o qual, nesta capa, olham perplexas três gerações.
Avô, pai e neto.  Só as famílias muito ricas e as famílias muito pobres é que conseguem juntar no mesmo dia, numa tarde de Verão, três gerações a olhar para o mar. Estes três são, de certeza, de uma família muito rica. Basta olhar para as floridas bermudas que vestem. Harry S. Leman I, II e III, em Long Island, olham para o outro lado do Atlântico, esse outro lado do qual, há quase três séculos, os antepassados deles vieram, fugidos ou escorraçado, as veias a pulsar de terror e esperança.
A vida sorriu-lhes, diria a Eugénia de Vasconcellos, minha rival à desgarrada nesta nossa luta semanal de ter visões com capas de revistas. Trisavós e bisavós, em Boston, em coffee ou tea parties, os Leman muito terão feito por isso. Terão também eles sorrido à vida. Com mérito, com suor, um vago rasto de sangue. E adivinho que os antepassados não tenham só morto bisontes. Não os censuro. Afinal, têm uma tradição. Estão ali, três gerações, os mesmos lábios de fina ambição, uns fotográficos traços genéticos, a mesma chata planície a fazer de peito, uma heráldica miopia.
Têm uma tradição: a velha mansão do século XX, esse château americano, mansão de murmurs and shouts, as festas que são the talk of the town, os jantares românticos em memoráveis tables for two. Hábitos. Passaram hábitos de geração em geração. Mesmo nesta praia, lado a lado, quase podemos ver os string attached – há uma corda umbilical a amarrar o avô ao pai, o pai ao filho, o neto ao avô.
Invejo-os. Eu cá, nem tradição, nem geração. Para fugir à pobreza, como os tetravôs destes S. Lemans fugiram a perseguições, os meus pais, os S. Fonsecas, partiram para a aventurosa África. Deixaram os pais deles, os meus avós. Eu tive umas bermudas iguais às dos S. Lemans, é verdade. Iam até meio da minha curta, mas invejavelmente linda, perna. Só que os S. Fonsecas não tiveram os pés enfiados ao mesmo tempo num mesmo e único Atlântico como os S. Lemans enfiam os seus. Os S. Fonsecas nunca acertaram nos continentes e nem o mais imaginativo ilustrador os poderia alinhar, certinhos, tradicionais e geracionais, na mesma praia. Se um tinha os pés frios no Atlântico europeu, logo outro os tinha quentes no Atlântico africano.
E mesmo eu, S. Fonseca II, quando ainda era praticamente da geração do S. Leman da esquerda, Harry S. Leman III, abandonei, infidelíssimo, a terra, a mansão, o meu chá para dois, os terríveis gritos, o suor e o rasto de sangue nascidos de se persistir em dar velho mundo a um mundo que queria, obstinado e ingrato, ser novissimamente negro.
Não tenho esta praia, o mar sem calemas desta capa, o imutável e perene par de bermudas. Sem ter experimentado a marítima corda que vai de avô a neto, não consigo arrancar ao peito nervoso este olhar ausente e confiante para a linha de horizonte, esse deixar-me estar às cinco da tarde porque sempre as cinco da tarde hão-de ser as mesmas cinco da tarde, a praia a praia, os Leman os Leman. Trago no sangue uma água heraclitiana. O sangue de um ninguém que em nenhuma água se banha.