29 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Geração Hello Kitty, talvez a morte nos salve


Meia-noite na manifestação. E aqui estamos, o Manuel S. Fonseca e eu, cada um a dizer de si. Ou será de nós?

GERAÇÃO HELLO KITTY, TALVEZ A MORTE NOS SALVE
Sou filha da geração que se manifestou. Da que saiu à rua e fez a revolução sexual e a reforma agrária. O Maio de 68 e Abril de 74. Sou filha da geração que fez uma pirueta do caraças e depois do amor livre casou, e depois da nacionalização privatizou.
Por sorte, também sou filha dos meus pais e neta dos meus avós. Por sorte, talvez isso nos salve: isso é cada um de nós ter um universo particular a navegar outra órbita, imprevista porque microscópica: geração de átomos pulverizados. Digo por sorte porque a minha geração, como todo, não tem voz – é natural, a geração dos nossos pais falou muito e muito alto, e toda a gente sabe que o ruído provoca a surdez, e que quem não ouve, não fala. Se geração dos nossos pais falou muito e muito alto, talvez, por sorte, os nossos pais no nosso universo particular tenham falado um pouco menos, e um pouco mais baixo.
Eu chamo à minha geração a Geração Hello Kitty – ao menos a Pequena Sereia deu a sua voz por pagamento a uma feiticeira para que ela substituísse a sua cauda de peixe por um lindo par de pernas com o qual caminhou na direcção do seu sonho de amor. Não somos a Pequena Sereia, nenhum sonho geracional nos move. Nascemos todos de novo em 74, como a Hello Kitty, a menina gatinha branquinha, tão inha, sem boca nem boquinha.
Nós, geração, não temos boca: somos os filhos bem comportados dos nossos pais. Não temos ideais políticos, nem artísticos, sequer um ideal do eu que não seja de empréstimo. Somos o sonho de qualquer político de quinta, o público de um escritor menor, as palmas na peça de merda levada à cena. Somos a abstenção e a omissão num silêncio nada inocente, pulverizados e ferozes, cada um no seu casulo de descontentamento ou abundância, e sempre falta. Quem está ao nosso lado? Ninguém sabe. 
Somos as cabeças do corpo de Hidra. E nem sabemos que esperamos Hércules, como ele não sabia que do veneno da Hidra morreria.
Perdemos o mundo por pouco. Meia dúzia de anos acima ou abaixo e seríamos mais de nós mesmos. Quem seríamos, então?
A verdade é que a geração dos nossos pais refez o perfil do ocidente, do pensamento à economia. E outra vez o refez quando os ideais se falharam na própria concretização. Inventaram a esquizofrenia ocidental. Nós nem isso.
Mas como geração de desconcertados actos colectivos, mil cabeças à espera de Hércules, cavalos cada um a puxar nas quatro direcções do mundo, havemos de rasgar a carne: talvez então a morte nos salve e possamos enfim viver.

Visão, tenha duas: Malhavam pela frente e por trás, por Manuel S. Fonseca


Meia-noite na manifestação. E aqui estamos, a Eugénia e eu, cada um a dizer de si. Ou será de nós?

MALHAVAM PELA FRENTE E POR TRÁS
Eu já fui uma silhueta na noite, igualzinha às silhuetas de Fergusson, Missouri, com que Eric Drooker, artista, habitual ilustrador da New Yorker, povoou subtilmente a capa que faz o nosso "Visão, tenha duas" desta semana. Foi em 1973, em Lisboa, cidade aonde voltava para estudar Direito, catorze anos depois de ter sido adoptado por uma África que só existia em Hollywood e nas nossas tontas e amorosas cabeças coloniais portuguesas.
Na marcelista noite de Lisboa, que já era muito menos claustrofóbica e abafada do que politica e choronamente se anda para aí a dizer, eramos dois rapazes e duas raparigas e ainda nenhum era o adulto que todos seríamos se hoje tivéssemos a mesma idade. E minto, era eu, mas por decreto. Para vir para Portugal, o meu pai, emancipara-me. Era uma carta de alforria que existia à época. Sempre sonhara ser independente, e um papel de Conservatória atestava-o. Como diria o americano Delmore Schwartz, que nada tem a ver com esta história, nos sonhos começam as responsabilidades.
Talvez fosse Setembro, levava eu a minha juvenil responsabilidade de adulto encartado a subir o nocturno Chiado. Ia com o meu amigo e as minhas amigas ouvir Zeca Afonso que prometia cantar numa pequenina sala do Centro Nacional de Cultura, mesmo ao lado do Teatro São Luiz, na afamada rua António Maria Cardoso. Eram tudo razões para pôr a cabeça de um emancipado em estado de sítio. E o estado do sítio onde cheguei, a uma frenética António Maria Cardoso de jeans, muitos cabelos compridos, toda a gente com pernas e olhos cheios de bicho-carpinteiro, avisou-me logo que, desse lá por onde desse, íamos ter recolher obrigatório.
Ao tempo, ainda não tinha a vasta experiência militar que havia de colher a atenção do Pentágono, ainda não tinha sequer essa capacidade de proteger o flanco que qualquer alferes aprende com um primeiro sargento. Fui, portanto, de peito cheio e feito, sem saber que à minha direita estava um velho cinema, o já extinto Chiado Terrasse, e à minha esquerda o CNC, que eu não posso jurar que já fosse, como durante umas décadas foi, de Helena Vaz da Silva. Caminhei ao lado dos meus amigos, um pé emancipado, outro juvenil, quando nos disseram que o Zeca não cantaria.
Reparem, não é bem a mesma coisa que dar uma veneta ao profissionalíssimo Tony Carreira e ele não cantar. Zeca era um cantor de vampiros. Importa sublinhar, atendendo à fresquíssima idade média de muitos dos leitores do "Escrever é Triste", que nenhum dos vampiros de Zeca era do "Twilight". Zeca queria cantar - aliás, como a silhueta do "Nosferatu", de Murnau, como as silhuetas das noites de Fergusson, quanto mais escura  fosse a noite, mais ele queria cantar. Na altura, usava-se muito a palavra proibido, termo que entretanto teria caído em desuso, não fosse a salvífica intervenção de algum escol feminista. Zeca foi proibido de cantar.
E volto ao alferes que eu podia ter sido. Percebi que a rua António Maria Cardoso era estreita e sem saídas. Ou era à frente ou era atrás. Nem flanco, nem deriva, muito menos recuo estratégico. Digo isto, porque a pequenina e canora multidão se agitou, soltando os bichos-carpinteiros num bruá que se deve ter ouvido no vizinho São Carlos. E eu, jovem do musseque luandense, que queria pela primeira vez ver a fachada do Teatro São Luiz, apercebi-me que já não chegaria ao desejado número 38. Atlética, façanhuda, mas sobretudo organizadíssima, a polícia de choque vinha num irrepreensível geometrismo, limpando a rua a viseira e cassetete, o que significava cacetada de meia-noite nas filosóficas cabeças e macios costados que estivessem à mão de semear. E se nós eramos um trigo limpo.
Havia, está claro, uma explicação razoável: não só era proibido Zeca Afonso cantar, como era proibido ir ouvi-lo. Num ápice, eu e o meu amigo entendemos que devíamos proteger as nossas melómanas e inocentes amigas: ele, ousado, à frente, elas no meio, este eu protector a fechar a coluna: "leave no man behind", muito menos uma miúda. E fizemos meia-volta em direcção ao Chiado para sairmos por onde tínhamos entrado. E não é que o atrasado mental do capitão que comandava os hirsutos choques de ferro e fogo tinha pensado a mesma coisa?! A limpa entrada da rua António Maria Cardoso era, agora, uma farpadíssima saída. Nós, que nos víamos como uns cândidos filhos da madrugada, tivemos então o pensamento que se tem quando, de tão apertadíssimo, no cu não cabe um feijão: "Mas que filhos da puta!" E eram. É preciso ser-se um filho da puta para se deixar, magnânimo, entrar uma carrada de malta jovem, idealista, sonhadora, para uma rua amena, e depois cair-lhes em cima, sem lhes dar o alívio de uma saída. É um bocadinho injusto e é muito mais chato do que uma camada de chatos.
Portanto, eles malhavam pela frente e por trás. Pequena manada de bisontes mansos, avançámos. Fosse pelo que fosse, a máquina inimiga, no caso do nosso escasso pelotão em fuga, portou-se ainda pior do que poderíamos esperar. Pelo berro que o meu amigo deu, pela súbita contracção que fez do meu vigoroso físico uma magra e baixa figura, os choques - seriam os choques do Maltês ou foi um tenente a servir-nos nessa noite? - falharam as bastonadas. Passámos ilesos. Mas os brutos, olhar cego ao género, não é que acertaram em cheio nos delicados e modiglianescos pescoços das nossas amigas?! Para nossa masculiníssima vergonha foi nelas que eles arriaram-lhes com tudo. Nas noites de vampiros, nenhum pescoço se salva.
Cervicais em ai-ai, omoplatas em ui-ui, saídos teatro de guerra, só encontrámos um paliativo que mitigasse tanta dor: levar as meninas ao cinema, à sessão da meia-noite. Foi no Apolo 70 (sim, também já morto em combate). No ecrã, passeavam as silhuetas que um jansenista francês, Robert Bresson, foi buscar às páginas russas do putinesco Dostoievski. A noite em que não ouvi Zeca Afonso, foi a noite em que vi "As Quatro Noites de um Sonhador".

25 de agosto de 2014

Poema a uma Corda de Nós

CORDA ESCADA LAÇO FIO
As pessoas como eu não têm escolha:
toda a gente que sabe alguma coisa sabe:
a corda que parece subir da Terra para o Céu,
desceu do Céu um nó de cada vez até tocar
no pó daquele que há-de ascender por ela.
A uns é dado viver.
A outros escrever.
Toda a demiurgia traz 
com sua Graça seu castigo.

22 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Daqui para a frente a contagem é outra


Hoje, para mudarmos de águas, a Visão é a New Yorker, uma revista americana.  O Manuel S. Fonseca e eu ficámos a olhar para esta capa de praia. Será que vamos ver os mesmo três pares de pernas que o ilustrador levou a banhos? 

DAQUI PARA A FRENTE A CONTAGEM É OUTRA

São três homens ou o mesmo homem? Decido que são as três idades do homem como Klimt decidiu pintar as Três Idades da Mulher - o despotismo assenta-me bem. Talvez este três em um esteja a banhos nos Hamptons. Ir a banhos nos Hamptons é como ir a banhos no Algarve, é tudo praia mas é tudo diferente: a Quinta do Lago não é Quarteira e a Deserta não é Monte Gordo. Mas hoje a geografia social do banhista nova-iorquino ou portuense ou lisboeta não me interessa uma pevide de melancia. O que me interessa então?

Brincar ao e se.

Eu sou o tipo do meio mas em mulher. Que quer dizer isto? Já vivi mais anos do que aqueles que tenho para viver. E a consciência disto muda uma pessoa, ou pelo menos mudou-me a mim.

Uma noite, no México, estava o céu mais preto que jamais vi, e uma lua cheia, dourada, mesmo em cima da água preta, desenhava a yellow brick road nas ondas. Só me apetecia entrar no mar, not in Kansas anmyore, fazer o caminho, subir e desaparecer na maior lua que os meus olhos um dia viram e ainda não acreditam. Não era tristeza. Estava infeliz.

Pensava que ser feliz era uma coisa circunstancial sem me passar, então, pela cabeça que também eu era circunstancial. Depois lembrei-me de quando era tão feliz, em  pequena, e o mundo estava ainda por dividir entre dentro e fora de mim, do sentimento daquela enorme, imensa alegria que contagiava tudo: uma força avassaladora de vida, até as lágrimas dos desgostos infantis lhe cabiam no riso, e eu estava nela.

Demorou algum tempo. Não muito. Uma ruptura transformou-se numa descontinuidade. Amén. E acho que talvez tenha percebido. Fiz-me editora da minha existência. Imaginei uma sala de montagem, daquelas de antes, e o corta e cola de fotogramas, e o arquivo de tudo o que não serve para usar mas serve para saber mais, decidir melhor o que incluir e excluir. Ter uma visão da vida como um todo. Na verdade, foram as palavras do Ruben A., entraram-me pelos olhos adentro e, eucarísticas, fizeram-se carne da minha carne, não as escrevi, mas são minhas: Dos 40 aos 50 limpa-se a casa, põem-se as telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental e no jardim das delícias, depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra. Também é verdade que ainda não atingi o meu pico – sou uma late bloomer, fazer o quê? Cada um tem o seu tempo. O meu passa devagar.

Não penso que as minhas circunstâncias me determinem mesmo quando não tenho pulso para as determinar - e quem é que quer esse controlo todo sem margem para o maravilhoso desconhecido? Antes de qualquer outra coisa sei que sou um processo que caminha para a origem. Dizem-me que morrerei. Pois sim, é verdade, e nem por isso deixarei de estar viva na minha natureza essencial que é a da própria vida. Sei que por um milagre de Groundhog Day, à vida, tenho-a de fresco e a alegria intocada, com a vantagem de ter um arquivo organizado e cheio de milhares de gestos, palavras, paisagens, gentes que trago na retina e até eu mesma lá estou: quando observada por mim sou mais uma.

Estou na figura do meio. E nas outras duas também. E que bem se está à beira da água.

Visão, tenha duas: as famílias muito ricas, as famílias muito pobres, por Manuel S. Fonseca


Hoje, para mudarmos de águas, a Visão é a New Yorker, uma revista americana.  A Eugénia de Vasconcellos e eu ficámos a olhar para esta capa de praia. Será que vamos ver os mesmo três pares de pernas que o ilustrador levou a banhos? 
TRÊS GERAÇÕES
Nesta capa da “New Yorker” estou a ver três gerações a olhar para o mar. Para começar, devo dizer que nunca li a “New Yorker” na praia. É uma revista de avião. Por vezes, uma revista de hotel. É conceptual demais para tanto mar, para esse mar para o qual, nesta capa, olham perplexas três gerações.
Avô, pai e neto.  Só as famílias muito ricas e as famílias muito pobres é que conseguem juntar no mesmo dia, numa tarde de Verão, três gerações a olhar para o mar. Estes três são, de certeza, de uma família muito rica. Basta olhar para as floridas bermudas que vestem. Harry S. Leman I, II e III, em Long Island, olham para o outro lado do Atlântico, esse outro lado do qual, há quase três séculos, os antepassados deles vieram, fugidos ou escorraçado, as veias a pulsar de terror e esperança.
A vida sorriu-lhes, diria a Eugénia de Vasconcellos, minha rival à desgarrada nesta nossa luta semanal de ter visões com capas de revistas. Trisavós e bisavós, em Boston, em coffee ou tea parties, os Leman muito terão feito por isso. Terão também eles sorrido à vida. Com mérito, com suor, um vago rasto de sangue. E adivinho que os antepassados não tenham só morto bisontes. Não os censuro. Afinal, têm uma tradição. Estão ali, três gerações, os mesmos lábios de fina ambição, uns fotográficos traços genéticos, a mesma chata planície a fazer de peito, uma heráldica miopia.
Têm uma tradição: a velha mansão do século XX, esse château americano, mansão de murmurs and shouts, as festas que são the talk of the town, os jantares românticos em memoráveis tables for two. Hábitos. Passaram hábitos de geração em geração. Mesmo nesta praia, lado a lado, quase podemos ver os string attached – há uma corda umbilical a amarrar o avô ao pai, o pai ao filho, o neto ao avô.
Invejo-os. Eu cá, nem tradição, nem geração. Para fugir à pobreza, como os tetravôs destes S. Lemans fugiram a perseguições, os meus pais, os S. Fonsecas, partiram para a aventurosa África. Deixaram os pais deles, os meus avós. Eu tive umas bermudas iguais às dos S. Lemans, é verdade. Iam até meio da minha curta, mas invejavelmente linda, perna. Só que os S. Fonsecas não tiveram os pés enfiados ao mesmo tempo num mesmo e único Atlântico como os S. Lemans enfiam os seus. Os S. Fonsecas nunca acertaram nos continentes e nem o mais imaginativo ilustrador os poderia alinhar, certinhos, tradicionais e geracionais, na mesma praia. Se um tinha os pés frios no Atlântico europeu, logo outro os tinha quentes no Atlântico africano.
E mesmo eu, S. Fonseca II, quando ainda era praticamente da geração do S. Leman da esquerda, Harry S. Leman III, abandonei, infidelíssimo, a terra, a mansão, o meu chá para dois, os terríveis gritos, o suor e o rasto de sangue nascidos de se persistir em dar velho mundo a um mundo que queria, obstinado e ingrato, ser novissimamente negro.
Não tenho esta praia, o mar sem calemas desta capa, o imutável e perene par de bermudas. Sem ter experimentado a marítima corda que vai de avô a neto, não consigo arrancar ao peito nervoso este olhar ausente e confiante para a linha de horizonte, esse deixar-me estar às cinco da tarde porque sempre as cinco da tarde hão-de ser as mesmas cinco da tarde, a praia a praia, os Leman os Leman. Trago no sangue uma água heraclitiana. O sangue de um ninguém que em nenhuma água se banha.

16 de agosto de 2014

Hiya gorgeous!

Diz-se a vida sorriu-lhe. A vida não lhe sorriu. Um mundo divido em afortunados e desgraçados. Talvez seja verdade. Talvez não. Não sei. Mas sei: quando a vida não nos sorri, podemos sorrir-lhe nós.

15 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Quem nos roubou o prazer?


Meia-Noite na capa Visão. O Manuel S. Fonseca e eu vá de gastar os pixels ao tio Rubens. Mas já sabe, lailailai e tal está no olhar de quem vê. E o querido leitor que lailailai viu?



“Visão, tenha duas”


Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
QUEM NOS ROUBOU O PRAZER?
Quem/ nos roubou/ o prazer/ de existir?// Porque/ nos roubamos/ o prazer/ de existir? perguntou aqui há uma dezena de anos Adília Lopes.
Lembrei-me logo de Adília Lopes quando vi Rubens aqui plasmado, montado e opulento, cheio até às coxas do cavalo, transbordante no seio.
Engordei 43 kg
de 86 para cá
agora
gorda como estou
já caibo
num quadro de Rubens
(segundo o Osório Mateus
no meu caso
era mais fácil
entrar para o quadro
de um pintor
que para o quadro
de uma empresa).
O prazer anda na cama com a estética de um lado e com a ética do outro. É um triângulo amoroso clássico: ao meio, bem aconchegado entre as duas faces tão diferentes da bela mesma moeda deita-se o homem e abraça as duas - sim, sem dramas, onde diz homem pode ler mulher ou o que lhe der na telha de géneros fluídos, quero lá saber.
Mas antes. Faz amanhã uma semana que estive de esplanada com a minha mãe. A prestar atenção. As crianças engordaram muito. Os adolescentes. Mesmo os pés transbordam das sandálias e as mãos são papudas. E por outro lado, mas pelo buraco da agulha, o oposto disto: miúdas escanzeladas. Os corpos extremam-se em excesso e falta de peso, sendo que o excesso é penalizado e a falta recompensada.
Se à gordura atribuímos o valor da decadência, da doença e da morte, tal não se passa com a magreza. Notou como o magro, o Estica, o par do Bucha, desapareceu do anedotário? A Olívia Palito é, desde os anos sessenta, setenta, e na sua puberdade envelhecida com suplementos de silicone nas mamas e lábios, um dos anjos de Victoria´s Secret. Não me entenda mal, eu gosto do estereótipo destas meninas-mulheres de fantasia, tão bem despidinhas, umas bonequinhas. Para brincar. As medidas de uma mulher são outras. Ora, vá lá ver o site para encomendar umas gracinhas para confirmar que para a tia Vitória isto não é segredo nenhum.
O referente da juventude e da magreza aproxima o corpo feminino do corpo masculino. Já reparou como os pré-adolescentes se assemelham? As meninas mal têm maminhas e ancas, os meninos ainda não alargaram. Este é o corpo das passerelles. Então, pergunto, que desejo sexual é nosso? Na idade adulta, este corpo, e o desejo de o possuir para si mesmo, ou de se apossar dele, não será narcísico? Se além de si mesmo, só contempla Eco, o eco de si mesmo, cristalizado, ainda mal pubescente... Incapaz de sair de si, não é um corpo de prazer. É um corpo de sacrifício à fantasia - e é aqui que começa o pesadelo: fonte da juventude, ausência doença e promessa de imortalidade.
A opulenta menina de pequena maminha, hoje com menos do que uma copa C, e um metro e setenta para cinquenta quilos de peso, não serviria a Rubens de modelo, ela que segura os louros enquanto sopra ao ouvido do rei memento mori para conter o eu insuflado como um balão pela glória do nascimento e das obras.
Há quanto tempo ninguém nos sussurra ao ouvido lembra-te de que morrerás?
O prazer deslocou-se para o corpo ao espelho ou para corpo na montra real e virtual - como nas fantasias de ser e ter?
E a alegria do corpo, o prazer lírico do corpo, o prazer lúbrico do corpo enquanto a morte, que pode esperar, ronda? Porque nos roubamos o prazer?

Visão, tenha duas: Portugal podia ter sido mais do que Portugal, por Manuel S. Fonseca


Meia-Noite na capa Visão. A Eugénia e eu vá de gastar os pixels ao tio Rubens. Mas já sabe, lailailai e tal está no olhar de quem vê. E o querido leitor que lailailai viu?



“Visão, tenha duas”


Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


PORTUGAL PODIA TER SIDO MAIS DO QUE PORTUGAL
Não foi neste cavalo, roubado pela capa da revista Visão a Rubens, que Filipe II chegou a Lisboa. Se a cavalo chegou, terá sido a Almada. De Almada para Lisboa, veio numa nau real, num dia em que os cacilheiros teriam feito greve, se já houvesse cacinheiros e já houvesse greves.
Lisboa cheirou bem ao nariz de Filipe. Comparado com o cheiro da Madrid abafada, fétida, merdosa enfim, varrida pelos ventos atlânticos, Lisboa, cheirava a rosas, nesse dia 25 de Julho de 1581, o dia em que o vencedor de Lepanto pisou o Terreiro do Paço, pisando, por muito que não quisesse, o povo de Portugal.
Madrid era, há vinte anos, a capital de um reino em que o Sol nunca se punha, o reino de Filipe, filho da portuguesa Isabel, a filha mais velha do rei D. Manuel I. Era uma cidade das brenhas comparada com o porto de Sevilha, era um repelente chavascal comparada com Lisboa, o maior porto da Europa, a cidade que, por essa altura, Miguel Cervantes, o autor de “Dom Quixote”, cantou no seu “Libro Tercero de los Trabajos de Persiles Y Sigismundo”, dela dizendo: “A cidade é a maior da Europa e a de melhores maneiras; nela se descarregam as riquezas do Oriente e daqui se espalham para todo o universo… A formosura das mulheres espanta e apaixona. A galhardia dos homens pasma, como eles dizem. Esta é, enfim, a terra que aos Céus presta santo e generosíssimo tributo.”
É nesta Lisboa rainha – qualificativo que palmei a Damião de Góis – que o rei espanhol fica cativo.  A recepção fidalga terá ajudado. Aclamado pelas Cortes, em Tomar, é pomposamente recebido em Lisboa, a capital de Portugal que talvez quisesse ser capital do imenso reino que acabara de a engolir. Mestre Affonso Guerreiro, cujo nascimento é incerto, mas cuja morte foi certamente nesse mesmo ano, ainda escreveu, e foi a última coisa que fez, o livro que titulou “Das Festas que se fizeram na cidade de Lisboa, na entrada del Rey D. Philippe primeiro de Portugal”. Num dos arcos que triunfalmente saudavam o rei, lia-se: “Seja o Sol o limite dos teus reynos, a ti dou eu ventagem, Jupiter a mi se incline.”
Filipe II de Espanha podia ter feito de Lisboa capital do mundo. A cidade dominava os mares. Nela convergiam Ocidente e Oriente e a embocadura do Tejo parece querer sugar a África, as Américas, a remota Ásia.
Querendo ser português, Filipe não chegou a ser tão português assim. Em Lisboa, multiculturalista avant la lettre, respeitou tradiçõesportuguesas, para os cargos sensíveis só nomeava portugueses e, se ainda hoje se pensasse como ele pensava, nunca se teria aprovado o Novo Acordo Ortográfico – Filipe impôs que a língua portuguesa fosse a única língua dos documentos oficiais. Falava-a, aliás, aprendida da boca da mãe e de Dona Luísa de Mascarenhas, dama de companhia dela. Quis mesmo que os seus filhos aprendessem a língua de Camões. Em Lisboa, foi o mais português que conseguiu ser: vestia-se como um português, comia como um português, fazia os horários dos portugueses, o que, penso eu, significa que terá dispensado a sua siesta.
Mas, apesar das insistentes pressões do seu pai, o sacro imperador Carlos V, Filipe não fez de Lisboa a capital do imenso Reino, com o que teria consolidado a União Ibérica e, numa antecipação às ideias de Obama, criado a plataforma ideal para o comércio americano, para não se arriscar a perder o Império.
Filipe, neto de Manuel e filho de Isabel, não foi português bastante para fazer de Lisboa capital: Portugal voltaria por isso a ser Portugal e Espanha há-de sempre continuar a sonhar ser a grande Espanha que deixou de ser.
Filipe deu a Lisboa o Paço da Ribeira, a igreja de São Vicente de Fora e pôs no fim do rio a torre do Bugio. Cuidou dos mortos resgatando o pálido cadáver de Dom Sebastião, o James Dean português.
Um dia de 1588 juntou na boca do Tejo 130 navios espanhóis e portugueses, a Grande y Felicissima Armada, que deveria ser invencível, esmagar e pôr de joelhos a inglesa Isabel, filha de Henrique VIII e de Anna Bolena, que ao que parece o amava tão apaixonadamente que por ele suspirou em versos que tais: “Gentle prince of Spain. come, o'come again...”
Deixando-a a 11 de Fevereiro de 1583, Filipe não fez de Lisboa capital, começo de um mundo novo, império de impérios; fez de Lisboa a mortalha donde saíram as velas da morte, as 130 velas que destruídas, afundadas pelo bárbaro corsário, afundariam os sonhos ibéricos em chorado flamenco e ganido fado.
Filipe amava tanto Portugal que ficou com a madeira de uma nau lusa em ruínas, a Cinco Chagas, e dessa madeira fez o seu caixão. Amava Portugal, era é um amor de morte. Amor e morte. Pintou-o Rubens, devia-o ter filmado Don Luis Buñuel.

10 de agosto de 2014

Primata? Moi?! Vai chamar macaco a outro...

O meu sobrinho é escanzelado. O outro meu sobrinho já esteve internado para... comer. São o horror do percentil do peso, só têm altura. Mas gosto que aprendam coisas de alimentação. O mais novo bebe sumo vermelho comigo e faz tchim-tchim - sumo vermelho é sumo de beterraba com laranja, hortelã, lailailai: o milagre da hemoglobina. E do Doutor Raton já falei aqui.
Surripiado aqui. Ó.
O RATO DOUTOR DIZ: VIVA O MACACO DE IMITAÇÃO
Bem sei, bem sei, 
temos a arte e as catedrais, 
os livros, as bicicletas
e outras belezas que tais, 
mas as pessoas são primatas e por muito que 
tenham levantado uma civilização 
qualquer dia, de pesadas, 
não se levantam do chão - 
e há tantas doenças que podes evitar
se te souberes alimentar...
Come como a tua raça macaca:
90% de frutos e vegetais e 
10% de proteínas animais, 
doces só em ocasiões especiais: 
aniversários, páscoas, natais. 
Em termos de alimentação, 
VIVA o Macaco de Imitação!

8 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Eu quero que você venha comigo


Meia-noite, um avião e duas Visões. O Manuel S. Fonseca e eu ficá­mos a olhar para esta capa da Visão. Vimos o que vimos no avião que cada um de nós tomou. São duas Visões. E a sua?


“Visão, tenha duas”




Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.



EU QUERO QUE VOCÊ VENHA COMIGO
A minha mãe passou uma fase brasileira em Portugal. Foi uma coisa atípica como o disco do Joe Dassin, um verão indiano em vinil, quero dizer, um verão brasileiro já depois do Brasil de facto e já sem Baía alguma apesar do Caetano e da sua mana, do branco, das missangas e pedrarias: a coisa passou-se a toque daqueles dois irmãos, e de Caetano e Chico Juntos e ao Vivo, e da Construção de Chico Buarque, então pré-romancista, bom compositor, bom letrista, portanto, poeta a soldo.

Confesso, o Brasil baiano não me é uma terra estranha, nem na linha da paisagem urbana, nem no fogão nem na literatura, nem na batucada, nem nos recessos do pensamento. O resto do Brasil, sim, só em segunda mão o conheço e amo: Guimarães Rosa, Adélia Prado, Drummond, Vinicius, Pixinguinha, Machado, e toda uma grande roda de amigos em samba de páginas de livros ou pelos ouvidos, mortos e vivos - agora foi-se Ubaldo, que pena, mas é assim. Tenho esta característica terrível: tudo me fica no ouvido. Se tudo quanto li fosse em audio-livro faria uma figuraça, todavia para tudo quanto li, ó, a memória é uma ameaça. Enfim, o resto do Brasil foi em classe turística: olhei e não vi. Adiante.

Gostava tanto de escrever sobre a TAP e tal, dizer que uma porta-bandeira, perdão, companhia de bandeira é fundamental, luso-brasileira com Fernando Pinto de mestre-sala, e logo esta, a minha preferida ainda que, poeta sem soldo, descapitalizada, tivesse de deixar de sambar, céus!, voar nela. Gostava. Não pode ser.


Mal vi o avião de nariz empinado no ar, deu-me um verão indiano em vinil brasileiro e ai que vontade de voar juntos e ao vivo, de construção de amor contigo desta vez como se fosse a única, vontade de eu quero tocar fogo neste apartamento, de tem que saber que eu quero é correr mundo, mesmo se você não entende nada do que eu digo, eu quero é ir-me embora, eu quero é dar o fora. E quero que você venha comigo

Visão, tenha duas: Ter asas e voar, por Manuel S. Fonseca


Meia-noite, um avião e duas Visões. A Eugé­nia e eu ficá­mos a olhar para esta capa da Visão. Vimos o que vimos no avião que cada um de nós tomou. São duas Visões. E a sua?


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

TER ASAS E VOAR
Há um avião a levantar voo da capa da Visão, o que me dá para pensar oito coisas singelas:
  1. Queria ter asas e voar, mas não é Ícaro nem Jardel quem quer.
  2. Quando eu era um monandengue, de calções pobres e sonhos de luxo, e isso foi em Angola, tinha dias em que ia para a varanda do aeroporto de Luanda ver os aviões levantar vôo. O barulho atordoava e a gasolina cheirava a vitória.
  3. Já vestia um fatinho Armani, o pescoço apertado por uma gravata e a cabeça atafulhada de excel e logística, quando na SIC apoiámos um documentário em que dois monandengues moçambicanos, desiguaizinhos ao meu mim de Luanda, passavam os dias no aeroporto de Maputo a ver os aviões levantar e aterrar. E um deles explicava como é que era voar de avião: “Quando o avião sobe no ar, as pessoas desmaiam lá dentro, então. Viajam já desmaiadas e acordam quando o avião aterra.”
  4. A primeira vez que viajei de avião – ou desmaiei, então – foi num Friendship, de Luanda ao Lubango. Desmaiei, sim: íamos no meio das nuvens de algodão doce, a terra era um chocolate cá em baixo, rios de chocolate líquido, uma fenda chamada Tundavala aberta pela colher de um menino na quentíssima mousse angolana.
  5. A janela de um Boeing, onde eu por acaso ia, chorou uma lágrima a ver o nascer do sol sobre o Sahara. O dedo do avião limpou a gota que caía, com vergonha que o céu visse.
  6. Estava lá em baixo o Pólo Norte, a doer de branco, a tiritar de frio e, em aquecimento global, ia ali mesmo ao lado a Melanie Griffith, loura, num sossego e sono que um Bloody Mary embalava.
  7. Na noite tropical de Luanda, um bruto capacete de humidade em cima, descendo a escada do avião, emergiam as vedetas: primeiro o senhor Otto Glória, depois o senhor Coluna, o senhor José Augusto e, logo, os miúdos Eusébio e Simões. E eu na pista, a ter agora a certeza de que, se há estrelas no céu, podem sempre descer à terra.
  8. Foi um estalo. O estalo do mundo a partir-se. Lembro-me desse dia, desse começo de tarde, quando um Mig, sou capaz de jurar que mesmo por cima da Vila Alice, rompeu a barreira do som. Um estalo supersónico e, uau, os ouvidos rotos de infinito. Foi o estampido do ar e toda a gente a gritar em terra: “a vitória é certa.”

3 de agosto de 2014

Manta Rota? E nem a cosem?

O nosso Primeiro está a banhos na Manta Rota. Ora, uma manta que está rota, rasgada, vá, esburacada, não cumpre a sua função de manta e deixa o país ao léu. O que eu queria saber é que declaração teria prestado o nosso Governador se o nosso Primeiro estivesse a banhos no, sei lá... Velo de Ouro?

Ps: banco bom, banco mau, não sei, não sei não... já a Tia Melanie Klein falou que se desunhou sobre isto. Era um CEO do caneco, ela. 

A Verdade é Triste

A verdade é triste. A do BES ou a de uma traição amorosa. Se não julgarmos, não é triste nem contente, passa por nós e nós por ela enquanto a conhecemos e ela nos conhece, e porque sabemos mais, decidimos melhor, todavia isto exige muito cortex pré-frontal e todas as respirações de yoga. Seja lá como for, e por doce que seja o engano, a verdade, mesmo triste, emotiva e irrespirável, é a verdade.

1 de agosto de 2014

Visão, tenha duas: Um vestido branco


Voltámos. Meia-noite e duas Visões. O Manuel Fonseca e eu ficámos a olhar para esta capa da Visão. Vimos o que vimos que é o que cada um de nós conta. São duas Visões. Também nos pode contar a sua.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

UM VESTIDO BRANCO
Se um vestido branco salva… tem uma poética romântica e erótica que faz um clic qualquer na cabeça dos homens que só pensam em despi-lo.
Como sofro de uma grande falta de romantismo chamo-lhe o efeito pureza-roupa interior. A primeira parte do efeito deve-se à secante rainha Vitória que desgraçou os vestidos de noiva para todo o sempre ao metê-los no Omo que ainda não parou de os lavar mais branco. A segunda é porque estes vestidinhos têm uma leveza de antiga roupa de baixo, e a sugestão de escândalo com oh meu amor pelo meio: partes iguais de uma coisa e o seu contrário, bem integradas, a inocência e o lailailai, o cocktail ideal para a mulher completa.
Diante do vestido branco, o homem não tem hipótese: ou está no altar ou está onde a mulher o quer.
Diante do vestido branco o homem é o coelhinho branco e está na cartola da ilusionista. Um vestidinho branco é poder. Dissimulado. Portanto, cuidado com o xeque-mate da rainha, o mais simples e sempre eficaz.
O vestidinho branco leva-se para a praia e usa-se no campo, seja com colares de pedras e búzios, ou o cabelo com flores, e já o vestidinho parece um despidinho de ilha dos amores.
Se é um vestido de noite longo faz um estrago de luz entre tanto vestido preto, nude, colorido. Par para o branco só o encarnado e não é garantido que consiga ganhar-lhe. Mas se qualquer macaco sem rabo sabe usar de dia um vestidinho branco, em vestido de noite tem que se lhe diga e, ou a minha amiga tem porte de Miss Jolie, ou não é para si, nem para mim – não vem mal ao mundo, há outros vestidos perfeitos com a claridade da lua que assentam em cada curva melhor do que a alta costura: quando se veste a camisa branca dele ou se enrola no lençol.

Visão, tenha duas: Um vestido branco, por Manuel S. Fonseca


Voltámos. Meia-noite e duas Visões. A Eugénia e eu ficámos a olhar para esta capa da Visão. Vimos o que vimos que é o que cada um de nós conta. São duas Visões. Também nos pode contar a sua.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

UM VESTIDO BRANCO

Com esse vestido branco vais de carrinho, é só o que tenho a dizer-te. Vais de carrinho a Portugal e vais de carrinho a Marrocos.
Falo contigo e falo com quem vista um vestido branco. Quero que saibas, quero que saibam que o vestido branco tem uma densidade ontológica própria. O vestido branco é rectangular, mas quando, vestido pela cabeça, tomba deslizante sobre o teu corpo – um corpo – o vestido branco arredonda-se nos quadris: o que era tão recto, tão duramente recto, adoça-se e curva. O vestido branco não é um arquitecto moderno, não é Siza, nem Bauhaus, é mais a contra-curva de Niemeyer. O vestido branco se fosse alguma coisa haveria de ser art déco.
Ontologicamente espesso, o vestido branco prova a insustentável leveza do ser, tecido leve, seda, linho ou algodão. É liso o vestido branco. Mas é tão liso que nele se desenha o brio dos delicados botões do teu peito. Dois e dolentes.
O vestido branco é! – seja lá a existência o que for. Da cintura para baixo, o vestido branco é libérrimo. Pode na cintura amarrá-lo um cinto castanho. A seguir, aproveitando a rampa das nádegas, a cornucópia venusiana, o vestido branco balouça, toca e não toca, acaricia e foge, faz fresquinho como um leque onde tanto calor pode ser feito. É aqui, solto, cavo, que o vestido branco abandona o monismo parmenideano. No vácuo que a solta liberdade do teu vestido anuncia é que nasce o movimento atómico, indeterminado e intrínseco com que Leucipo sonhava. De Portugal a Marrocos, de carrinho, quem é que se atreve a não comungar do velho atomismo indeterminista de Epicuro?
O vestido branco transfigura a paisagem: obnubila a montanha, inunda o leito do rio. O vestido branco é o mais alto cume calcário na linha escarpada do Rif marroquino, é a silhueta que o solar Polanski de “Faca Na Água” filmaria, intermitente, entre oliveiras e sobreiros com a exaltada luz do Alentejo.
Com esse vestido branco vens de carrinho, é só que tenho a dizer-te.