17 de julho de 2014

De olhos fechados


DE OLHOS FECHADOS

Então, era a mais nova. Sempre a mais nova. Mil primos de Verão que depois se escapuliam pelas estações adentro para só voltarem com o calor mais quente do sol. Sentia muito a falta deles. Havia um grande movimento na casa e depois tudo tão quieto. A diferença de idades naquela idade fazia diferença. Cinco anos não são nada, mas quando nos faltam são muito. Faltavam-me os cinco anos também.

Elas namoravam, usavam saltos e até bâton. Eles, crescidos como elas, iam a sítios com amigos e volto já. Em bando como os pássaros. E houve a questão do pendente.

Estava lá no meio deles como se não estivesse, cheia de olhos e de ouvidos. Tinha-me penteado muito bem e posto um travessão a prender só um lado do cabelo, e vestido o meu vestido de mais crescida, queria que se notasse: tinha crescido e não andava espanhola pela casa, ataviada com tudo o que brilhasse e estivesse à mão de semear.

O meu avô chamava-me Ninotchka por causa da estética Socialista Soviética dos meus treze anos antes da descoberta da América - era mimo, era bom ser a Cyd Charisse do meu avô ainda que ele parecesse incompreender a forma como me vestia.


Eu estava lá no meio dos outros. Invisível, claro. Ela, uma amiga que a minha prima trouxera a reboque de férias, ao centro, cintilava de atenção. Era o pendente. Uau! Cor de chumbo, seria chumbo?, prata oxidada?, meio coração partido com uma asa de anjo e na parte de trás, pasme-se, os nomes também partidos de separados um do outro: ela usava o nome dele inscrito no coração, ele, contou, usava a outra metade, com o nome dela. O namoro deixado para lá do oceano com promessas de amor eterno, reencontro, casamento e foram felizes para sempre. E isto tudo graças a modernidades que a mãe dela permitira mas que, a meu ver, não me tocariam jamais que a minha avó não ia de modas. Quero dizer: havia um tal de um programa intercambial de estudantes, AFS, creio que era isto. Ela fora. Um ano inteirinho fora ser estrangeira e, que sorte, que sorte de Cinderela, zás, encontrara o príncipe encantado em estrangeiro também pois aterrara no liceu dele, agora já estava no primeiro ano da faculdade em português e sozinha. A despedida ao que parece fora pungente e culminara naquele pendente promessa que ela ali contava com o peso do desgosto de chumbo ao pescoço.  

As casas são como as pessoas, quando se corta a cabeça não ficam de pé. A da minha infância não ficou. Mas também não sei se alguma fica. Os primos foram. Os amigos que traziam também e a amiga do pendente. E mesmo eu devo ter partido.

Às vezes, é assim, as famílias não se multiplicam, dividem-se, desconhecem-se na progressão das gerações.

Penso que apesar de tudo, nisto, ainda tenho treze anos e continuo a disfarçá-los - agora é fácil, posso usar saltos, bâton, e dizer vou ali e volto já. Tanto que gostava de ser sofisticada e cínica, mas sinto este pendente que não tenho, partido ao meio. O diabo é que os rapazes são menos dados a exibir estas coisas amorosas, devem escondê-las dentro da camisa, e eu, ainda que saiba de olhos fechados, não seria capaz de dizer: olhe que esse coração é meu, ouviu?