22 de julho de 2014

Pensamento Positivo, perdão, Pensamento Negativo

SEJA NEGATIVO, SE FAZ FAVOR
Agora, mais do que nunca, e com recurso a estudos que jamais existiram, fala-se, escreve-se, age-se sob a tutela do Pensamento Positivo. Deixe-me resumir: puta que os pariu.
Poucas coisas são tão nefastas para a vida, e para a saúde, como esta varinha de condão. Não se é aquilo que se deseja. É-se aquilo em que se acredita porque a crença é a génese da acção – não tem que enganar. Exemplo. A minha amiga pode visualizar-se de olhos azuis apesar dos seus olhos serem castanhos o quanto quiser, eles só vão mudar de cor se usar lentes de contacto coloridas. Isto é: se esperar que eles mudem de cor, vai ficar à espera, positivamente, mas à espera, e ser enterrada de olhos castanhos. Se aceitar que os seus olhos são castanhos, mas acreditar que ficaria melhor servida de olhos azuis, irá comprar lentes coloridas.
Ou o meu amigo quer fazer uma dieta. Ficar em forma. Planeia fazer desporto. Enfiar-se no ginásio às sete e meia diariamente faça sol ou chuva, cumprir rigorosamente a lista de alimentos permitidos e proibidos. Vê-se fantástico, apolíneo, de objectivo atingido. Não funciona. Está a esquecer de programar o erro. E ele virá e vai apanhá-lo desprevenido e depois… perdido por cem perdido por mil. 

Seja negativo. Não é nada de novo. Também é grego e clássico como a beleza de Apolo. Pense em tudo quanto pode correr mal. Sim, quem diz a dieta, diz o livro que está a escrever, a tese de doutoramento, o novo projecto da sua empresa. Concentrar a atenção no desfecho é desfocar o processo e isso é, poderá ser, paralisante, e não oferece estratégias para o dia-a-dia. Imagine. Tudo falhou. Agora veja porquê. Quando fizer este exercício pre-mortem vai, sem esforço, identificar as suas fragilidades sejam elas, os copos do meu amigo com os seus amigos que se acumulam na linha da cintura, o bolo de chocolate nas minhas ancas, ou a falta de planeamento. Se sobreviveu a este falhanço virtual, sobreviverá a um falhanço de facto. E o que colherá disto? Menos stress, mais potencial de sucesso. E por acréscimo perceber que os objectivos devem fazer parte do processo e não do destino sem mais – lembre-se, um chalado qualquer comeu um avião inteiro, uma ínfima quantidade de metal em cada vez. E ainda há aquilo que gosto de chamar o efeito Alva Edison: saiba que vai fracassar, treine para o fracasso: faça sucessivamente a mesma coisa até ser imbatível nesse raio dessa coisa, quero dizer, falhar bem até acertar. Mal comparado é como no treino de levantamento de pesos, se levar o músculo ao limite de si-mesmo, ele perde a força muito completamente, e é assim que cria mais força.
Outra das coisas que nos ensinam de pequeninos é que o esforço compensa. Meus queridos, compensará ou não. A incerteza é que é criativa, é por causa dela que perseguimos algo. Porque o certo é que quem se esforça, mais cedo que tarde, cansa-se. Não se pode viver em esforço sem, em simultâneo, ter no esforço uma fonte de prazer. A família dá trabalho?, dá, e um monte chatices, preocupações, despesas, mas e a felicidade que traz por junto? O tal doutoramento é desesperante?, talvez, mas se a sua paixão estiver nele é uma satisfação. Não tem muito o que saber. Se estiver a nadar para se salvar quase de certeza se afoga, nessas circunstâncias o que é preciso é boiar. Se estiver a nadar pelo prazer de nadar, aproveita as ondas, a corrente e a frescura envolvente do mar enquanto chega à costa. Mas como se faz isso quando se está com a corda na garganta? Repito, a boiar. 
Com método. Feche os olhos. Respire. Confirme que está a respirar. Concentre a atenção na respiração. Pense que hoje já acordou. Já teve trabalho ou o procurou caso não o tenha. O seu corpo funciona sem a sua intervenção, o coração bate, o fígado filtra,  sinapses dão-se num lindo fogo de artifício. O saldo já é positivo. Foque a atenção na sua melhor e mais feliz competência, se for cozinhar, cozinhe, se for escrever, escreva. Até ao cansaço. Enquanto faz isto não tem problemas pois não?, o futuro ainda não chegou e o passado já passou, então faça. Só se pode fazer aquilo que se pode fazer.
E a treta da auto-estima? Ai eu estimo-me, gosto muito de mim e se eu não gostar de mim quem gostará? Pois... essa má conversa de Leite Matinal não serve a ninguém ou só serve ao maluquedo narcisista que pensa que o mundo é eco. Se fez uma grandessíssima filha da putice e gosta muito de si, vá-se tratar, garanto-lhe, precisa. A auto-estima é um sistema de auto-avaliação com tudo o que tem de objectivo, subjectivo e circunstancial. Um dia pode ser de grande rendimento profissional, de amor feliz, amou-se bem, foi-se bem amado e a pessoa sente-se um lixo, não sabe se há-de morrer se há-de matar porque as hormonas estão a fazer piruetas pré-menstruais. Fazer o quê? Reciclar a auto-estima. Fica com a aceitação incondicional de si, dos seus erros, dos seus fracassos, dos seus sucessos, alegrias, tristezas, sonhos, da sua condição física, das suas competências sociais e profissionais. São suas de qualquer maneira, quer as queira quer não. Se não oferecer resistência, ao bem, ao mal e ao antes pelo contrário, se disser tudo isto sou eu, pode muito simplesmente ser isso e abrir caminho para ser também outro, porque sabe quem é, pode dispensar o que não quer ser.
E da eterna conversa motivacional a propósito da profissão, não está farto? Eu estou. Faz-me lembrar a publicidade do Danoninho: falta-te um bocadinho assim. E palmadinhas nas costas e força, vai, tu consegues, olhos na baliza e golo. Merda! Ponham a merda da motivação no bolso e tragam a humildade cá para fora. Ai estou desmotivado, não consigo, falta-me a inspiração. Irrelevante. Olhe, eu, montes de vezes, não consigo escrever, sinto o pensamento oco e desligado até de mim. Azarucho. Ponho o rabo na cadeira e escrevo na mesma. Vai para o lixo? Pois vai. Ou não. Mas é um compromisso. Os compromissos são para honrar. Quem me ensinou isto foi Picasso. Quando não lhe apetecia pintar, pintava na mesma. 
Sabe, o que conta, na verdade, não é o quanto se poderá ganhar com algo, é, acredite se quiser, o quanto estamos dispostos e somos capazes de perder. A partir daqui é fácil escolher o que é para nós, e o que não é, seja um nós individual ou colectivo. E convém recordar, ainda que toda gente use a pose da estátua do Marquês de Pombal, por dentro, têm as mesmas angústias que nós, e a cabeleira é um postiço.
E para terminar, lixe-se na treta da felicidade e na treta do cinismo. Duas tretas que o deixam na mão dos outros, não na sua. Encha-se de ah! e oh! Faça-se um exclamativo deslumbramento como os miúdos e os índios: vai ver como o mundo lhe parece tenro e oh! tão bom de habitar.