30 de julho de 2014

Amo-te mesmo quando te odeio

AMO-TE MESMO QUANDO TE ODEIO
Trabalho sozinha. Bem, sozinha não será rigoroso: há o Cão. Quem trabalha sozinho, em casa, em isolamento, com ou sem cão/gato, ou marido/namorado/híbrido, ou mulher/namorada/híbrido, ou mesmo mãe/pai, sabe:
1. Há dias desesperantes em que pensamos: Céus!, socorro, sou um daqueles anti-sociais psico-coiso-lailailai que um dia acorda terrorista bombista ou serial killer ou lá o que é. Não se preocupe, não é. Só precisa de apanhar ar. Isto trocado em miúdos quer dizer:
1.1 Convém estabelecer uma rotina diária de convívio. Oui!, ouviu bem seu indomesticado paradoxal, a rotina diária de convívio é a magia que o vai obrigar a sair de casa. Pode ser um passeio a pé, um café de vinte minutos com um amigo, ir ao ginásio, enfim, o que quer que seja que o ponha na rua e em companhia, ou pelo menos a ver mundo e gente.
2. Há dias desesperantes: trabalhar em casa e sozinho para muitas pessoas é sinónimo de dolce far niente, portanto, o telefone toca a desmando, pedem-lhe mil favores e interrompem-no por dá cá aquela palha. Fazer o quê? Fácil.
2.1 A melhor palavra do mundo é sim. Mas quando se trabalha, é preciso dizer não. Não. Não. Sim?
3. Há dias desesperantes em que caímos do cavalo. Que quer isto dizer? Quando estamos imersos a trabalhar, trabalhamos, é certo, e o tempo passa, também é certo, e ficamos seguramente cansados, mas porra, é tão bom que nem se dá por ela. E, de repente, zás!, caímos do cavalo, nem trote quanto mais galope, estamos estatelados no chão e sequer conseguimos chegar perto da bicheza. Não é o nosso cavalinho, é o Diabo à solta... E agora, e agora?! Traduzido em miúdos e em palvras que fizeram escola: o drama, a tragédia, o horror… vamos ver.
3.1 Entre a sua competência e o seu objectivo deve haver correspondência, equilíbrio. Há? Se os perdeu, pode recuperá-los, por exemplo, através da investigação ou de qualquer outra estratégia de retoma, inclusive descansar. Qual é a sua? A minha são duas: é mudar de tarefa, embrenhar-me nela, e meditar. Sim, porque de vez em quando entro na fase da balda. Baldo-me à meditação e estatelo-me no chão. Mas, enfim, lá esqueço o cavalo completamente e quando dou por mim estou montada nele outra vez– mas enquanto estou na fase do drama, ó drama!
3.1.2 Isto, porém, não seria possível se não estivesse informada a respeito de moi-même e da mecânica deste relógio - um narcisismozinho básico  Sabe quais são os seus pontos fortes? Devia. Sabe quais são as suas fraquezas? Muito importante contar com elas, juro, mas juro, que vão aparecer sem convite. Tem objectivos claros e definidos? Quero dizer, tem um ideia clara de quem é, do que faz e, portanto, de quem será? Eu tenho muita sorte. Explico. Já passei dos quarenta, então tenho todo o tempo do mundo para ser quem sou e não perder tempo a ser outra pessoa qualquer, inclusive alguém a quem admire tremendamente. Na verdade, seria uma péssima outra pessoa. E por muito que aprecie o reconhecimento, a validação, a aprovação das pessoas que respeito, amo e admiro, se tiver de viver sem isso para ser quem penso dever ser, vivo. E se tiver de passar mal também. Olhe, mal ou bem são circunstâncias, não são a condição fundamental. Depois, tenho ainda a enorme vantagem de saber exactamente aquilo que quero e acreditar racional e irracionalmente em mim. Juntando tudo, dá um bom cocktail: não sou a mais rápida, mas sou resistente, sou receptiva/humilde, isto é, estou disponível para aprender e corrigir e refazer. 
3.2 Enquanto estou estatelada aproveito para serviços de, vá, consultoria. Há para aí uma, pronto, duas, eventualmente três?, não, é exagero, pessoas em quem confio. Peço-lhes feed back do meu trabalho. Facadas! Só desgostos e facadas! Mentira…
3.2.1 Depois do feed back ajusto. Corrijo. Refaço. Ou mantenho isto e aquilo com absoluta convicção. E reestabeleço os objectivos, todavia faço-os sempre mais pequeninos, assim como quem está a convalescer, ai, ai, e só bebe um caldinho.
4. Há dias desesperantes em que nos sentimos a última das criaturas. Toda a gente faz melhor do que nós. E o pior é que há verdade nisto. Filhos da puta dos grandes mestres mortos e vivos! Sim, eles mesmos, os que nos inspiram a aspirar, são os que bem nos lixam, irra! Eu, atiro-me logo a eles: ai são melhores do que eu? Pois eu também posso ser melhor do que eu e vai ser com a vossa ajuda. Às vezes, muitas vezes, até me esqueço de tirar os livros espalhados na cama. Acordo com o estrondo de um a cair no chão.
5. Há dias desesperantes. Tudo correu mal no trabalho anterior, no dia anterior, no mês anterior. Podia ser pior? Sim, claro, se o tubarão do tio Spielberg nos viesse petiscar. O que apetece é desistir ou fazer férias. NÃO! Se tivesse um patrão podia faltar quando entrasse em modo Calimero? Vá trabalhar! Se não render, ao menos tentou. O trabalho tem de ser um ritual, olhe, como a higiene diária. Não interessa a disposição, sabe porquê? A disposição é flutuante e influencia-se. E se não o fizer vai auto-flagelar-se mais tarde. Para quê aumentar a quantidade chatices quando as pode reduzir? Eu tenho um mantra pessoalíssimo para quando falho: de tanto errar mais cedo que tarde acerto. E procuro uma coisa no youtube que me faça rir. E lá vou errar ou acertar.
6. Há dias desesperantes para quem escreve um romance. Nesses dias não se pode escrever um romance. Concentro-me em escrever um parágrafo. Umzinho só – nem que tenha de o mandar para o lixo mil vezes, e tenho a reciclagem cheia de parágrafos. Não faz mal, não me importo de ser paragrafista para ser romancista. Não há-de ser muito diferente para um compositor, ou pintor. Ou será?
7. Há dias desesperantes. Dias em que odiamos aquilo que fazemos. Mas o importante é que o trabalho seja como o amado: amo-te mesmo quando te odeio.