30 de julho de 2014

Amo-te mesmo quando te odeio

AMO-TE MESMO QUANDO TE ODEIO
Trabalho sozinha. Bem, sozinha não será rigoroso: há o Cão. Quem trabalha sozinho, em casa, em isolamento, com ou sem cão/gato, ou marido/namorado/híbrido, ou mulher/namorada/híbrido, ou mesmo mãe/pai, sabe:
1. Há dias desesperantes em que pensamos: Céus!, socorro, sou um daqueles anti-sociais psico-coiso-lailailai que um dia acorda terrorista bombista ou serial killer ou lá o que é. Não se preocupe, não é. Só precisa de apanhar ar. Isto trocado em miúdos quer dizer:
1.1 Convém estabelecer uma rotina diária de convívio. Oui!, ouviu bem seu indomesticado paradoxal, a rotina diária de convívio é a magia que o vai obrigar a sair de casa. Pode ser um passeio a pé, um café de vinte minutos com um amigo, ir ao ginásio, enfim, o que quer que seja que o ponha na rua e em companhia, ou pelo menos a ver mundo e gente.
2. Há dias desesperantes: trabalhar em casa e sozinho para muitas pessoas é sinónimo de dolce far niente, portanto, o telefone toca a desmando, pedem-lhe mil favores e interrompem-no por dá cá aquela palha. Fazer o quê? Fácil.
2.1 A melhor palavra do mundo é sim. Mas quando se trabalha, é preciso dizer não. Não. Não. Sim?
3. Há dias desesperantes em que caímos do cavalo. Que quer isto dizer? Quando estamos imersos a trabalhar, trabalhamos, é certo, e o tempo passa, também é certo, e ficamos seguramente cansados, mas porra, é tão bom que nem se dá por ela. E, de repente, zás!, caímos do cavalo, nem trote quanto mais galope, estamos estatelados no chão e sequer conseguimos chegar perto da bicheza. Não é o nosso cavalinho, é o Diabo à solta... E agora, e agora?! Traduzido em miúdos e em palvras que fizeram escola: o drama, a tragédia, o horror… vamos ver.
3.1 Entre a sua competência e o seu objectivo deve haver correspondência, equilíbrio. Há? Se os perdeu, pode recuperá-los, por exemplo, através da investigação ou de qualquer outra estratégia de retoma, inclusive descansar. Qual é a sua? A minha são duas: é mudar de tarefa, embrenhar-me nela, e meditar. Sim, porque de vez em quando entro na fase da balda. Baldo-me à meditação e estatelo-me no chão. Mas, enfim, lá esqueço o cavalo completamente e quando dou por mim estou montada nele outra vez– mas enquanto estou na fase do drama, ó drama!
3.1.2 Isto, porém, não seria possível se não estivesse informada a respeito de moi-même e da mecânica deste relógio - um narcisismozinho básico  Sabe quais são os seus pontos fortes? Devia. Sabe quais são as suas fraquezas? Muito importante contar com elas, juro, mas juro, que vão aparecer sem convite. Tem objectivos claros e definidos? Quero dizer, tem um ideia clara de quem é, do que faz e, portanto, de quem será? Eu tenho muita sorte. Explico. Já passei dos quarenta, então tenho todo o tempo do mundo para ser quem sou e não perder tempo a ser outra pessoa qualquer, inclusive alguém a quem admire tremendamente. Na verdade, seria uma péssima outra pessoa. E por muito que aprecie o reconhecimento, a validação, a aprovação das pessoas que respeito, amo e admiro, se tiver de viver sem isso para ser quem penso dever ser, vivo. E se tiver de passar mal também. Olhe, mal ou bem são circunstâncias, não são a condição fundamental. Depois, tenho ainda a enorme vantagem de saber exactamente aquilo que quero e acreditar racional e irracionalmente em mim. Juntando tudo, dá um bom cocktail: não sou a mais rápida, mas sou resistente, sou receptiva/humilde, isto é, estou disponível para aprender e corrigir e refazer. 
3.2 Enquanto estou estatelada aproveito para serviços de, vá, consultoria. Há para aí uma, pronto, duas, eventualmente três?, não, é exagero, pessoas em quem confio. Peço-lhes feed back do meu trabalho. Facadas! Só desgostos e facadas! Mentira…
3.2.1 Depois do feed back ajusto. Corrijo. Refaço. Ou mantenho isto e aquilo com absoluta convicção. E reestabeleço os objectivos, todavia faço-os sempre mais pequeninos, assim como quem está a convalescer, ai, ai, e só bebe um caldinho.
4. Há dias desesperantes em que nos sentimos a última das criaturas. Toda a gente faz melhor do que nós. E o pior é que há verdade nisto. Filhos da puta dos grandes mestres mortos e vivos! Sim, eles mesmos, os que nos inspiram a aspirar, são os que bem nos lixam, irra! Eu, atiro-me logo a eles: ai são melhores do que eu? Pois eu também posso ser melhor do que eu e vai ser com a vossa ajuda. Às vezes, muitas vezes, até me esqueço de tirar os livros espalhados na cama. Acordo com o estrondo de um a cair no chão.
5. Há dias desesperantes. Tudo correu mal no trabalho anterior, no dia anterior, no mês anterior. Podia ser pior? Sim, claro, se o tubarão do tio Spielberg nos viesse petiscar. O que apetece é desistir ou fazer férias. NÃO! Se tivesse um patrão podia faltar quando entrasse em modo Calimero? Vá trabalhar! Se não render, ao menos tentou. O trabalho tem de ser um ritual, olhe, como a higiene diária. Não interessa a disposição, sabe porquê? A disposição é flutuante e influencia-se. E se não o fizer vai auto-flagelar-se mais tarde. Para quê aumentar a quantidade chatices quando as pode reduzir? Eu tenho um mantra pessoalíssimo para quando falho: de tanto errar mais cedo que tarde acerto. E procuro uma coisa no youtube que me faça rir. E lá vou errar ou acertar.
6. Há dias desesperantes para quem escreve um romance. Nesses dias não se pode escrever um romance. Concentro-me em escrever um parágrafo. Umzinho só – nem que tenha de o mandar para o lixo mil vezes, e tenho a reciclagem cheia de parágrafos. Não faz mal, não me importo de ser paragrafista para ser romancista. Não há-de ser muito diferente para um compositor, ou pintor. Ou será?
7. Há dias desesperantes. Dias em que odiamos aquilo que fazemos. Mas o importante é que o trabalho seja como o amado: amo-te mesmo quando te odeio.

28 de julho de 2014

Manual de Funcionamento Masculino: on/off


ROBÓTICA PARA PRINCIPIANTES
Ser ouvidos com olhos e sem boca como a Hello Kitty é Triste.
A miúda da mesa ao lado – nem por isso tão miúda, aí uns trinta cinco, gira, bem cuidada -, explicava à amiga o que mais lhe custava. E o que mais lhe custava era não perceber. Se eles eram felizes, ele carinhoso com ela, apaixonado, davam-se bem na cama, e se estavam sempre juntos excepto no trabalho... Havia, claro, aquelas pequeninas diferenças de eu vou aqui tu vais ali, coisas razoáveis, independentes, coisas de pessoa com os próprios amigos e gostos, com vida própria… não percebia porquê, não percebia como.
Se tivesse boca, poderia voltar-me para ela e dizer-lhe:
- Olhe, ele não era carinhoso e apaixonado por ser consigo. Era carinhoso e apaixonado ponto. Os homens não mudam de personalidade quando mudam de mulher - ainda que muitas mulheres mudem muito quando mudam de homem, quero dizer, quando seleccionam o potencial ou efectivo marido. Se um homem oferece flores, oferece sempre flores. Se é assim ou assado, é sempre assim e assado, da cama à mesa, não há diferenças se muda de cama ou de mesa. E já agora, não tente perceber, só vai perder tempo de vida, escolha melhor da próxima vez. Ele teve uma paixão súbita por si? Vai desapaixonar-se subitamente quando o raio cair súbito noutro lugar. Começou a andar consigo enquanto ainda mantinha a relação anterior? Vai terminar consigo da mesma forma. Ponha os olhos no comportamento passado, é o melhor preditor de comportamento futuro. E quanto ao mais, veja o que ele diz, e ouça o que ele faz. Preste atenção: pense com o coração e ame com a cabeça. Não é que os homens sejam uns filhos da puta, não são. São é muito diferentes das mulheres. Têm outro manual de funcionamento e é esse que tem de conhecer. É muito simples, só tem uma página porque os homens só têm um botão: on/off. E se não for a minha amiga a ligar e a desligar, azarucho, eles entram em modo automático. O resto? O resto é timing.

22 de julho de 2014

Pensamento Positivo, perdão, Pensamento Negativo

SEJA NEGATIVO, SE FAZ FAVOR
Agora, mais do que nunca, e com recurso a estudos que jamais existiram, fala-se, escreve-se, age-se sob a tutela do Pensamento Positivo. Deixe-me resumir: puta que os pariu.
Poucas coisas são tão nefastas para a vida, e para a saúde, como esta varinha de condão. Não se é aquilo que se deseja. É-se aquilo em que se acredita porque a crença é a génese da acção – não tem que enganar. Exemplo. A minha amiga pode visualizar-se de olhos azuis apesar dos seus olhos serem castanhos o quanto quiser, eles só vão mudar de cor se usar lentes de contacto coloridas. Isto é: se esperar que eles mudem de cor, vai ficar à espera, positivamente, mas à espera, e ser enterrada de olhos castanhos. Se aceitar que os seus olhos são castanhos, mas acreditar que ficaria melhor servida de olhos azuis, irá comprar lentes coloridas.
Ou o meu amigo quer fazer uma dieta. Ficar em forma. Planeia fazer desporto. Enfiar-se no ginásio às sete e meia diariamente faça sol ou chuva, cumprir rigorosamente a lista de alimentos permitidos e proibidos. Vê-se fantástico, apolíneo, de objectivo atingido. Não funciona. Está a esquecer de programar o erro. E ele virá e vai apanhá-lo desprevenido e depois… perdido por cem perdido por mil. 

Seja negativo. Não é nada de novo. Também é grego e clássico como a beleza de Apolo. Pense em tudo quanto pode correr mal. Sim, quem diz a dieta, diz o livro que está a escrever, a tese de doutoramento, o novo projecto da sua empresa. Concentrar a atenção no desfecho é desfocar o processo e isso é, poderá ser, paralisante, e não oferece estratégias para o dia-a-dia. Imagine. Tudo falhou. Agora veja porquê. Quando fizer este exercício pre-mortem vai, sem esforço, identificar as suas fragilidades sejam elas, os copos do meu amigo com os seus amigos que se acumulam na linha da cintura, o bolo de chocolate nas minhas ancas, ou a falta de planeamento. Se sobreviveu a este falhanço virtual, sobreviverá a um falhanço de facto. E o que colherá disto? Menos stress, mais potencial de sucesso. E por acréscimo perceber que os objectivos devem fazer parte do processo e não do destino sem mais – lembre-se, um chalado qualquer comeu um avião inteiro, uma ínfima quantidade de metal em cada vez. E ainda há aquilo que gosto de chamar o efeito Alva Edison: saiba que vai fracassar, treine para o fracasso: faça sucessivamente a mesma coisa até ser imbatível nesse raio dessa coisa, quero dizer, falhar bem até acertar. Mal comparado é como no treino de levantamento de pesos, se levar o músculo ao limite de si-mesmo, ele perde a força muito completamente, e é assim que cria mais força.
Outra das coisas que nos ensinam de pequeninos é que o esforço compensa. Meus queridos, compensará ou não. A incerteza é que é criativa, é por causa dela que perseguimos algo. Porque o certo é que quem se esforça, mais cedo que tarde, cansa-se. Não se pode viver em esforço sem, em simultâneo, ter no esforço uma fonte de prazer. A família dá trabalho?, dá, e um monte chatices, preocupações, despesas, mas e a felicidade que traz por junto? O tal doutoramento é desesperante?, talvez, mas se a sua paixão estiver nele é uma satisfação. Não tem muito o que saber. Se estiver a nadar para se salvar quase de certeza se afoga, nessas circunstâncias o que é preciso é boiar. Se estiver a nadar pelo prazer de nadar, aproveita as ondas, a corrente e a frescura envolvente do mar enquanto chega à costa. Mas como se faz isso quando se está com a corda na garganta? Repito, a boiar. 
Com método. Feche os olhos. Respire. Confirme que está a respirar. Concentre a atenção na respiração. Pense que hoje já acordou. Já teve trabalho ou o procurou caso não o tenha. O seu corpo funciona sem a sua intervenção, o coração bate, o fígado filtra,  sinapses dão-se num lindo fogo de artifício. O saldo já é positivo. Foque a atenção na sua melhor e mais feliz competência, se for cozinhar, cozinhe, se for escrever, escreva. Até ao cansaço. Enquanto faz isto não tem problemas pois não?, o futuro ainda não chegou e o passado já passou, então faça. Só se pode fazer aquilo que se pode fazer.
E a treta da auto-estima? Ai eu estimo-me, gosto muito de mim e se eu não gostar de mim quem gostará? Pois... essa má conversa de Leite Matinal não serve a ninguém ou só serve ao maluquedo narcisista que pensa que o mundo é eco. Se fez uma grandessíssima filha da putice e gosta muito de si, vá-se tratar, garanto-lhe, precisa. A auto-estima é um sistema de auto-avaliação com tudo o que tem de objectivo, subjectivo e circunstancial. Um dia pode ser de grande rendimento profissional, de amor feliz, amou-se bem, foi-se bem amado e a pessoa sente-se um lixo, não sabe se há-de morrer se há-de matar porque as hormonas estão a fazer piruetas pré-menstruais. Fazer o quê? Reciclar a auto-estima. Fica com a aceitação incondicional de si, dos seus erros, dos seus fracassos, dos seus sucessos, alegrias, tristezas, sonhos, da sua condição física, das suas competências sociais e profissionais. São suas de qualquer maneira, quer as queira quer não. Se não oferecer resistência, ao bem, ao mal e ao antes pelo contrário, se disser tudo isto sou eu, pode muito simplesmente ser isso e abrir caminho para ser também outro, porque sabe quem é, pode dispensar o que não quer ser.
E da eterna conversa motivacional a propósito da profissão, não está farto? Eu estou. Faz-me lembrar a publicidade do Danoninho: falta-te um bocadinho assim. E palmadinhas nas costas e força, vai, tu consegues, olhos na baliza e golo. Merda! Ponham a merda da motivação no bolso e tragam a humildade cá para fora. Ai estou desmotivado, não consigo, falta-me a inspiração. Irrelevante. Olhe, eu, montes de vezes, não consigo escrever, sinto o pensamento oco e desligado até de mim. Azarucho. Ponho o rabo na cadeira e escrevo na mesma. Vai para o lixo? Pois vai. Ou não. Mas é um compromisso. Os compromissos são para honrar. Quem me ensinou isto foi Picasso. Quando não lhe apetecia pintar, pintava na mesma. 
Sabe, o que conta, na verdade, não é o quanto se poderá ganhar com algo, é, acredite se quiser, o quanto estamos dispostos e somos capazes de perder. A partir daqui é fácil escolher o que é para nós, e o que não é, seja um nós individual ou colectivo. E convém recordar, ainda que toda gente use a pose da estátua do Marquês de Pombal, por dentro, têm as mesmas angústias que nós, e a cabeleira é um postiço.
E para terminar, lixe-se na treta da felicidade e na treta do cinismo. Duas tretas que o deixam na mão dos outros, não na sua. Encha-se de ah! e oh! Faça-se um exclamativo deslumbramento como os miúdos e os índios: vai ver como o mundo lhe parece tenro e oh! tão bom de habitar.

17 de julho de 2014

In the mood for Mina

Já plasmei tanto a minha rica Mina por este blog que hoje deixo a Irene Grandi homenageá-la até no videoclip.

Eu queria, queria mas não consigo. Sou uma Minadependente, perdão, uma menina independente.



De olhos fechados


DE OLHOS FECHADOS

Então, era a mais nova. Sempre a mais nova. Mil primos de Verão que depois se escapuliam pelas estações adentro para só voltarem com o calor mais quente do sol. Sentia muito a falta deles. Havia um grande movimento na casa e depois tudo tão quieto. A diferença de idades naquela idade fazia diferença. Cinco anos não são nada, mas quando nos faltam são muito. Faltavam-me os cinco anos também.

Elas namoravam, usavam saltos e até bâton. Eles, crescidos como elas, iam a sítios com amigos e volto já. Em bando como os pássaros. E houve a questão do pendente.

Estava lá no meio deles como se não estivesse, cheia de olhos e de ouvidos. Tinha-me penteado muito bem e posto um travessão a prender só um lado do cabelo, e vestido o meu vestido de mais crescida, queria que se notasse: tinha crescido e não andava espanhola pela casa, ataviada com tudo o que brilhasse e estivesse à mão de semear.

O meu avô chamava-me Ninotchka por causa da estética Socialista Soviética dos meus treze anos antes da descoberta da América - era mimo, era bom ser a Cyd Charisse do meu avô ainda que ele parecesse incompreender a forma como me vestia.


Eu estava lá no meio dos outros. Invisível, claro. Ela, uma amiga que a minha prima trouxera a reboque de férias, ao centro, cintilava de atenção. Era o pendente. Uau! Cor de chumbo, seria chumbo?, prata oxidada?, meio coração partido com uma asa de anjo e na parte de trás, pasme-se, os nomes também partidos de separados um do outro: ela usava o nome dele inscrito no coração, ele, contou, usava a outra metade, com o nome dela. O namoro deixado para lá do oceano com promessas de amor eterno, reencontro, casamento e foram felizes para sempre. E isto tudo graças a modernidades que a mãe dela permitira mas que, a meu ver, não me tocariam jamais que a minha avó não ia de modas. Quero dizer: havia um tal de um programa intercambial de estudantes, AFS, creio que era isto. Ela fora. Um ano inteirinho fora ser estrangeira e, que sorte, que sorte de Cinderela, zás, encontrara o príncipe encantado em estrangeiro também pois aterrara no liceu dele, agora já estava no primeiro ano da faculdade em português e sozinha. A despedida ao que parece fora pungente e culminara naquele pendente promessa que ela ali contava com o peso do desgosto de chumbo ao pescoço.  

As casas são como as pessoas, quando se corta a cabeça não ficam de pé. A da minha infância não ficou. Mas também não sei se alguma fica. Os primos foram. Os amigos que traziam também e a amiga do pendente. E mesmo eu devo ter partido.

Às vezes, é assim, as famílias não se multiplicam, dividem-se, desconhecem-se na progressão das gerações.

Penso que apesar de tudo, nisto, ainda tenho treze anos e continuo a disfarçá-los - agora é fácil, posso usar saltos, bâton, e dizer vou ali e volto já. Tanto que gostava de ser sofisticada e cínica, mas sinto este pendente que não tenho, partido ao meio. O diabo é que os rapazes são menos dados a exibir estas coisas amorosas, devem escondê-las dentro da camisa, e eu, ainda que saiba de olhos fechados, não seria capaz de dizer: olhe que esse coração é meu, ouviu? 

14 de julho de 2014

E uma saladinha de Verão? Qual o quê!, hoje lombo amanhã feijão...

Ó DO PORQUINHO, SEUS CARNÍVOROS!
Não lhe apetece uma coisinha leve?, uma salada de Verão, quero dizer, lombo de porco com farinheira, pois então…
Tem um lombo de porquinho preto?, não?, então, lixe-se nisso, use o que tiver, a carne em promoção também serve. Farinheiras caseiras também não tem? Ó diabo!, isso é pior, com enchidos não se brinca, mas se não tem um amigo de um amigo que lhe venda coisas lá da terra e se não dá umas voltas por aí para comprar no produtor local, olhe, escolha de uma marca na qual confie. Perfeito só Deus e chega para nos dar cabo da molécula há que séculos.
Não é exactamente um segredo bem guardado que como pouquíssima carne. Guardo-me. E também raramente toco em comida que venha em frascos, caixas, enfim, daquela com rótulo e mil e uma substâncias que não sei o que são e não quero saber – vade retro! E isto quer dizer que a maionese, o ketchup, as compotas e, o que interessa para o caso, a massa de pimentão são caseiros. Sempre? Não. Uma larga maioria das vezes chega-me. Não gosto de fundamentalismos nem na cozinha.
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A massa de pimentão faz muita falta para montes de coisas e não dá trabalho. Eu já fiz mas já não faço a receita clássica de coze e passa, e gaze, e vira e mexe, tempera, uma trabalheira que não compensa pois reduz muito. Mas era boa que se fartava, era a receita da avó do meu ex-marido, e o bem que ela cozinhava... Esta é a receita da sogra da minha irmã e, não acredite, experimente, é excelente. E mais: rende. Tem pimentos lá da terra? Ai não? Então vá à praça, ao mercado, à mercearia, pronto ao hiper-mercado e escolha assim, não tem que enganar: pimentos vermelhos, homogéneos, durinhos e, muito importante, leves. Lave. Tire o pé. Corte em metades livres de veios e sementes e disponha num recipiente resistente. Cubra com flor de sal. Pronto, daquele sal grosso. E outra vez uma cama de tiras de pimentos e outra de sal e assim sucessivamente. E por cima algo pesado que comprima. E deixa ficar. Dois meses e meio, três. Vai libertar uma fartura de água. Depois lava os pimentos nessa água salgada ou em água nova mas com sal, isso fica ao seu critério. Se não usar sal, apodrece e cria bolor. Depois de lavados, zás, robot com eles - robot é o doutor processador. Não passe na varinha mágica senão fica com uma bodegada líquida. Ponha em frascos de vidro esterelizados – basta fervê-los aí meia hora para ficarem em condições. Encha até ao cimo, mesmo no limite e tape, não queremos que entre ar ali, e de cada vez que usar, depois de voltar a tapar, vira o frasco de cabeça para baixo para agarrar o vácuo e volta-o para cima e depois enrosca - não precisa do fio de azeite para proteger como na outra receita. Frigorífico com eles. Pode oferecer às suas amigas. Elas vão gostar. E pasme-se, não é salgado, é muitíssimo saboroso, quase não se acredita que é só o que é, parece temperado com alho, azeite e mais qualquer coisa.
Tem o lombo aberto sobre a tábua de carne? Muito bem. Esmigalhe uma fartura de alhinhos sem casca no esmigalhador de alhos - não sei como se chama ao raio do esmigalhador. Barre a carne com a massa de pimentão, acrescida dos alhos frescos, de pimenta preta moída na hora e de malagueta – a gosto, claro. Retire a farinheira do seu invólucro de pele. Disponha sobre a carne, bem espalhada, mas deixe os extremos da carne sem nada – vai enrolá-la como a uma torta, não pode escorrer. Ate o lombinho para não desmanchar. E barre agora a parte de fora com a massa de pimentão, azeite, quase nada, a pimenta e sal. Sal só do lado de fora e pouco. Já está? Muito bem. Tem um grelhador? Aqueça bem o malvado com um fio de azeite e uma noz de banha - sim, banha, é uma vez, não são vezes. Esfregue um alho e alecrim na gordura e retire logo, é só para aromatizar. Pegue no lombo e core-o rapidamente. Um lado, outro. Não se queime que o bandido espirra. Está douradinho e com os vincos do grelhador mais escurinhos? Então está muito bem.
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Forno com ele num tabuleiro de ménage só com um fio de azeite e vinho branco, um ou dois ramos de alecrim. Cubra com uma prata para assar muito tenramente. Não se mace porque a parte externa da carninha já está selada, quer dizer que tem a textura e cor certas. De vez em quando levante a prata, regue com os próprios sucos da carne e gordura que se liberta da farinheira, o vinho, e vire se for preciso. Ah, se não esfregar o alecrim com azeite, as folhinhas ficam pretas, queimadas.
Retire a carne. Uma vez cortada deve estar linda como uma torta recheada. Corte em viés senão desmancha. Acompanhe com umas belas batatinhas assadas, estaladiças por fora e macias por dentro, e esparregado  - fica bem a nota mais alta de acidez de um bom vinagre balsâmico na verdura com esta comida tão pesada. Se não gostar de esparregado, ou quiser acrescentar um travo mais ácido num molho para servir à parte, faça uma redução de vinho do Porto com sumo de laranja em partes iguais e um pau de canela. É ácido como o caraças, mas fica bem na carne. Não dá trabalho: junta tudo: meia garrafa de Porto, sumo de laranja, o pau de canela e uma colher de chá bem cheia de açúcar moreno. E é só deixá-lo sumir-se sem deixar pegar. Quando der por si a dizer, parece mentira, isto não é quase nada, está feito.
Et voilá.
Ps 1: se deixar a carne em vinho e alecrim no frigorífico, coberta com película aderente, de hoje para amanhã, é capaz de não se arrepender.
Ps 2: depois plasmo aqui um gaspacho. Ainda esta semana o faço. À andaluza. Que não quero nada a boiar além do gelo.

12 de julho de 2014

Bonjour Mundo!

lailailai
a ce jeu je ne joue pas
je n´aime pas
lailailailai

 

I kid u not

A solução é perceber que não há um problema. A partir daí tudo é mais simples.

11 de julho de 2014

Feliz

Hoje, há um ano, fui muito feliz. Ainda sou. Merci.


Visão, tenha duas: Perguntas e respostas e o que não se sabe nem saberá jamais


Meia-noite e um minuto e cá estamos, de férias ao natural, o Manuel S. Fonseca e eu, a acampar, Tristes, na capa da Visão. Ele montou a tenda onde lhe apeteceu. Eu também. Uma mulher e um homem acampam na mesma capa. Será que acampam em lugares diferentes? Tragam uma tenda também. A ver se fazemos um acampamento.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS: PERGUNTAS E RESPOSTAS E O QUE NÃO SE SABE NEM SABERÁ JAMAIS
Também acampei. Uma vez. Umazinha só e mesmo assim consegui queimar as esperanças que a minha irmã tinha de acampar um dia quando fosse crescida.
A minha avó era feroz ainda que nela só se visse a civilização. Não era a sua palavra preferida. Posso? Não. Mas nem disse o quê… Nem vale a pena dizer, não é porque a sua amiga vai que pode ir, não sou avó da sua amiga, sou sua avó. O não não era uma negação, era uma condição apriorística a qualquer requerimento feito. O porquê nem se punha, era invariavelmente porque sim, porque eu disse. E agora levanto o acampamento para uma nota, vá, psico-filosófica.
Já reparou que as justificações que pedimos são inúteis em tudo o que da vida é importante? Porque morreu? Porque acaba ou começa o amor? Porque se nasce para isto e não para aquilo, e neste país ou noutro? Não há resposta fora de nós. Suponho que deva isto à minha avó, isto é não precisar de explicações para circunstâncias e actos, vê-los como a explicação de si-mesmos, da intenção ao significado. Creio que o disse anteriormente, mas repito porque as repetições, além de um lugar feliz, também são uma das regras fundamentais da natureza: não há vida fora do Verbo, não há ser fora do fazer. O que não se sabe, o que não se saberá jamais é a amplitude de uma acção, teoria do caos e da ordem. Enfim, neta da minha avó, sou explicativa e sim é a minha palavra preferida. De volta à tenda.
Depois do meu primeiro amor, tive o meu primeiro namorado a sério, com quem inclusive me casei e de quem exclusive me divorciei. E ele vamos acampar no Verão. E eu nem ai nem ui no Planeta do Não. Ora, um dia, íamos na rua, ele e eu quando, zás, damos de caras com a minha avó na esplanada do café. Apresentações feitas, conversa, e lailailai para cá, e lailailai para lá, e caem todos os santos de todos os altares: da próxima vez que vier, fica lá em casa. Lá em casa? Fiquei perplexa, mesmo chocada: uma experiência de LSD, porém sem tomar ácido algum. Fui, portanto, acampar, sem sequer ter de pedir porque ele, lá em casa, umas semanas depois, estávamos a pensar ir acampar no Verão.
Acampar foi uma grande seca: de manhã fazia um calor das arábias e à noite os campistas vizinhos que nem fazia gosto em conhecer, tocavam viola, djembe, cantavam e bebiam até cair à volta de uma fogueira, fumavam as Marias e enrolavam-se com as Joanas, ou vice-versa. Mais valia que também tocasse viola e djembe e tivesse começado rapidamente a fumar e a beber porque sóbria, santa paciência! E um desatino de pó com comichão nos olhos, nos ouvidos, na garganta, e fila para os chuveiros e para lavar loiça. Mas entrar no mar noite dentro, tudo tão preto, fresco, água e céu de estrelas cristalinas… E houve aquele mar de corpos fosforescentes, ou melhor, o contorno dos movimentos era uma linha luminosa: explicaram-me aquela alquimia marinha com algas mas o que me ficou na retina, até hoje, foi a coreografia da luz.
Ora, eu tive durante anos uma mania. Todos os verões lia Os Maias. Todos os invernos também – aquilo das repetições, lembra-se? Duas vezes por ano. Não era só com os Maias, era um bloco de livros e filmes e música e pintura e dança, exaustivamente repetido a ritmo certo, todavia diferente entre si. Coisas para saber de cor. Lá em casa toda a gente estava a par disto. Era a minha chaladice. Mas a partir de um certo ponto ninguém me fez mais reparos, afinal, também a loiça é invariavelmente lavada logo após cada refeição, e os dentinhos, e camas fazem-se diariamente para se desfazerem nocturnamente, tiram-se férias nas mesmas datas, abre-se e fecha-se o ano escolar com regularidades de relógio suiço, e vai-se para aqui ou para ali quase sempre pelo mesmo caminho e etc.
Era noite. Estava sozinha. Namorado não sei onde. Queria ler. Os Maias - estava na estação deles. Nunca percebi engenharias, o pensamento não me cresce nessa direcção, na verdade, nem pensa tais assuntos, de todo, se dependêssemos de mim viveríamos em grutas ou ao ar livre, não haveria pontes nem estradas e quase de certeza ter-nos-íamos extinguido de fome e doenças. Sou uma impraticável. Talvez por isso ame tanto esse outro lado da vida, desde a arquitectura à física nunca esquecendo o prodígio civilizacional da água canalizada. Concluindo.
Era noite. Estava sozinha. Namorado não sei onde. Queria ler. Os Maias - estava na estação deles. Tirei os ovos da sua embalagem de plástico. Cortei a parte superior correspondente a cada ovo. Em cada uma, pus uma vela. Seis velas. Um pequenino e lindo candelabro de mesa-de-cabeceira, isto é, livros de cabeceira, quero dizer, ao lado do saco de cama onde me enfiei.
Nunca tinha adormecido a ler. Nem voltei a adormecer a ler. Acordei com os gritos de fora e dentro de uma chama. Não consegui ir a lado algum porque uma parte do saco de cama derreteu na minha perna direita. O meu namorado entrou no fogo e tirou-me de lá. Sobraram ferros retorcidos e nem sei quantos tratamentos cruéis no hospital para ficarmos como se nada tivesse sido.
Agora que penso nisto, vejo que, também nós, ele e eu, acabámos como começámos, sem marcas, como se nada tivesse sido. E no entanto salvou-me a vida.

Visão, tenha duas: armar a tenda, por Manuel S. Fonseca

Meia-noite e um minuto e cá estamos, de férias ao natural, a Eugénia e eu, a acampar, Tristes, na capa da Visão. Ela montou a tenda onde lhe apeteceu. Eu também. Uma mulher e um homem acampam na mesma capa. Será que acampam em lugares diferentes? Tragam uma tenda também. A ver se fazemos um acampamento.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS: ARMAR A TENDA

A tenda é uma extensão do corpo juvenil. Há qualquer coisa de patético nos velhos hippies de 50 e 60 anos que viajam de calhambeque e vão montar a tenda em Porto Covo. A tenda pede estrogénio, progesterona e testosterona a roçar valores que apontem para o céu, nem que seja para sustentar de pé uma estrutura que, é bom de ver, tem as suas vulnerabilidades.
A tenda, quando se monta, quer-se lisinha, tão lisinha como a pele dos que nela mergulham os sonhos abstrusos de conquistar o mundo ou de mudar o mundo. São, aliás, coisas bem diferentes, ainda que em muitas tendas se juntem, em apertadinha unidade, pessoas que depois se hão-de violentamente rejeitar ao descobrirem que um quer muito mudar o mundo que o outro quer em absoluto conquistar.
Se bem me lembro, despedi-me da tenda tinha para aí a idade da menina da capa da Visão que encosta os seus 25 anos, o decote discreto e a boa perna à paisagem bucólica. Tinha dormido nelas, nessas tendas sonhadoras, no Mussulo, na Floresta da Ilha, do outro lado da baía de Luanda, numa praia perto do Morro dos Veados, no algarvio Vau. Eram tendas com o conforto que o corpo juvenil encontra em tudo o que não seja dormir em casa: quem é que quer o telhado da casa paterna, quando tudo o que nos separa da fecunda humidade da terra e das leves nuvens do céu é um chão em polietileno e um duplo tecto em poliéster revestido a PU?
Já não me lembro se, nesses anos longínquos, as minhas tendas também vinham com varetas de aço galvanizado ou com costuras absolutamente estanques garantidas pelas bandas termocoladas. Acho que não, que vinham até sem instruções. E, se as traziam, logo as ignorávamos. Levantava-as, às nossas tendas, um túnel de vento. Se chovia, uma obstinada gota de água vinha cair ao centro do habitáculo obrigando um tipo a dormir em arco e chegámos a montar a tenda em cima de uma cobra que a difícil digestão mergulhara em sono profundo. Those were the days
A tenda tinha um ou dois livros. Um Kerouac, ou o Ferlinghetti de "Amor deita-te comigo / Deita-te comigo / Sob o cipreste / Na relva macia / Onde o vento se deita / Onde o vento morre..." E pobre da tenda que não tivesse uma guitarra eriçada contra o General Westmoreland. Depois, secos na garganta uivos e protestos, no céu a pobre Lua desorientada, as wee wee hours emprestavam à guitarra uma Michelle ma belle, jorravam lágrimas de tanta cerveja e hercúlea angústia juvenil. Ouviam-se os primeiros pássaros da manhã.
Está ali a tenda, um raio de sol candengue mede a latifundiária maré vazia, a fresca areia molhada calça-nos a terna e tenra carne dos pés. Está ali a tenda e à sua frente a manhã seguinte, ramo de trémula e pura luz. A tenda fica lá atrás, caminhamos devagar e sabemos que somos as asas da ilusão: ninguém acreditou tanto que poderia ter na palma da mão o coração do mundo. Foram muitos erros, ignorância, ilusão. Pouco ou nada importam, perdidos que estão no cósmico ferro-velho da história humana.
Mas a crença, meu Deus! O que não daria para voltar a ter na palma de mão o fresco grão dessa homérica, oceânica e eufórica crença. Levanta-se alta a luz do dia, pela fímbria do mar nos vamos; lá ao longe, quase só um pequenino e amarrotado pontinho, uma adormecida tenda.

10 de julho de 2014

Somos sete biliões, e não somos nada

Photo de Randy Olson para a NG

Sete biliões de pessoas, homens, mulheres, crianças, caminham a Terra. Cada vida é a mais importante para quem a vive, ou a dos filhos, ou a dos pais, ou as de quem ama. Cada vida com a sua necessidade, o seu desejo, o seu sonho. Seja a sobrevivência, o amor, a obra, ou tudo. Sete biliões arrumam sem qualquer esforço o lugar que ocupamos no mundo.

9 de julho de 2014

Discriminação - quando os homens choram

O futebol é mais bonito quando os homens choram por causa do futebol.

8 de julho de 2014

Rosa

Io vado sotto le nubi, tra ciliegi 
così leggeri che già sono quasi assenti. 
Che cosa non è quasi assente tranne me, 
da così poco morta, fiamma libera?
Cristina Campo in Elegia di Portland Road

 ROSA – fiamma libera
Mundo das dez mil coisas, uma só quero, nela tudo.
E a ti dou o que mais amo porque estou naquilo que amo.

Quando era pequena escrevia em sílabas métricas
e procurava verdades fonéticas na casca das palavras:
era tempo e rima - pensava estar mais próxima da música,
da arquitectura do alfabeto, da matemática das esferas.
Não sabia nada da pulsação das letras, 
do ritmo cardíaco do Verbo,
do Vento que corre no verso e nada dispersa
pois fecha o poema para abrir o ouvido,
serpente a morder a própria cauda:
toma, dou-te hoje o caminho de regresso a casa,
a casa é a origem das dez mil coisas,
uma só és tu.

7 de julho de 2014

Geometria

Agora que penso nisto, um quadrado amoroso só é geometricamente equilibrado quando feito de dois triângulos equiláteros.

4 de julho de 2014

Visão, tenha duas: Não me toques que me desafinas



Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, numa alta farra, o Manuel S. Fonseca e eu, a dançar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ele dançou o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem dançam para a mesma capa. Será que dançam coi­sas dife­ren­tes? Dancem também.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

NÃO ME TOQUES QUE ME DESAFINAS
Tudo dança. É o regresso à adolescência dos slows. Tudo quer ser grande, independente e sozinho, mas mal se apanha fora do ninho, o que quer é fazê-lo, e enchê-lo – mesmo quando, serial lover, é com uma pessoa de cada vez. Bichos, de facto, solitários há poucos, é uma bicheza rara a gente sem par: qualquer feio, qualquer má, quer, gosta e consegue casar.
É, só pode ser, o regresso à adolescência dos slows. Cresce-se e, afinal, quer tudo andar agarrado na mesma, a fingir que faz cardio, nada de dar o braço a torcer, não gosto de ser sozinho, quero é ninho: ele diz que produz endorfinas, ela ai que oxitocina tão boa, e que é higiénia desportivo-dançante com efeito tonificante na anatomia. Pois sim… é alegria expectante. Salsa. Danças de salão. O diabo a quatro. Sossega leão! À adolescência ninguém volta porque de lá ninguém sai: mas também não se sai da infância nem dos vintes nem dos quarentas: tem-se tudo, a cada instante. É assim.
A kizomba, confesso, não me aquece nem me arrefece, mas morna, morna já dancei e até dançaria, tem um embalo de banho-maria que não descamba em sangria: tudo como deve ser e uma santa nostalgia só Deus sabe de quê.
É triste dançar sozinho quando é dança de dançar agarradinho. Há sempre a salvação da dança de ginásio, zumba ou go-go, ou das aulas regulares e dos workshops de um, dois, um, dois, três, cha-cha-cha entre perfeitos desconhecidos mesmo à mão para conhecer, e apertada nos meus braços, e a ensaiar bem os passos, não vais sair a correr. Pois não? E mais: se os dois gostam de dançar já tem por onde começar a… conversar. É meio caminho andado. É um código postal: fulano ou fulana de tal dança kizomba ou qualquer outra bomba da coordenação afecto-motora. A coisa promete. Se promete, cumpra.
A verdade é uma só e é pequenina: tudo quer pertencer a algo e, muito mais importante, a alguém. É da natureza humana não dormir sozinha na cama.

Visão, tenha duas: Bate uma alma na outra, por Manuel S. Fonseca


Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, numa alta farra, a Eugé­nia e eu, a dançar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ela dançou o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem dançam para a mesma capa. Será que dançam coi­sas dife­ren­tes? Dancem também.

“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
BATE UMA ALMA NA OUTRA

Kizomba? Há muito melhor do que o kizomba. Mas como é que se explica isto a uma moça que não seja lá da banda? Não é com a foto da capa da Visão, de certeza.
Começa já, minha, que eu, se é para dançar, danço merengue. Mal, é certo, mas com alma, se alma é o que estás a pensar.
Onde o kizomba é motor de combustão a quatro tempos, o merengue tem feitiço. Não vou dizer que passei a vida, as noites da vida, na rebita. A maior parte das minhas “farras” foram de slow, soul music e rock. Coisa desmaiada, de branco sentimental. Mas caluanda que sou, também ia à Ilha e fui ao Marítimo. E com esta coisa de estar a ficar velho, só tenho a dizer que rebita, merengue e masemba pedem aristocracia de pernas, braços e tronco. Chegas ali e danças, minha. E, dançando, um corpo e outro corpo formam, juntos, uma dicanza, um reco-reco, o melhor reco-reco que era o do cota Fontinhas. Os corpos, não é bem roçarem-se, raspam um no outro. A fricção põe na alma um som vibrante, erecto.
Raspar, às vezes, é escasso. O entendimento pleno de dois corpos pede a fusão que só o choque proporciona. A masemba é esse choque, um choque de almas, desde que alma seja para ti, minha, o que de alma eu estou a pensar. Está ali a dama em requebros e o cavalheiro – posso ser eu, sim – enlaça a dama pela cintura e atrai da dama o fim do tronco, contra o que no tronco do cavalheiro é o fim e é o princípio. É a semba, a umbigada, se tiveres, claro, uma generosa concepção de umbigo. Diria, cândido, que bate a minha alma na tua.
E vou lá eu, agora, dançar kizomba?!