27 de junho de 2014

Visão, tenha duas: a redonda solidão, por Manuel S. Fonseca

visao hoje

Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, na ilha deserta,
A Eugénia e eu, a olhar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ela escre­veu o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Expe­ri­men­tem ler.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

A REDONDA SOLIDÃO
Tanto azul de céu e mar e uma nesga de praia que é só a ponta de uma ilha. Essa, essa ilha, que os títulos nos dizem ser portuguesa e pertinho do continente, faz a capa de hoje da “Visão”. Na capa nem parece, mas qualquer ilha é um círculo de solidão, redonda solidão cercada de mar por todos os lados. Quando ouvimos a palavra ilha sacamos logo do coldre uma pistola que antes de disparar ainda pergunta “o que é que eu levava para uma ilha deserta?” Como se as toneladas de areia e solidão de uma ilha, as palmeiras que o vento finta, pudessem ser humanizadas pela bagagem do náufrago metafísico, bagagem de livros ou filmes, uma música favorita ou um ocioso tabuleiro de xadrez.
A ilha exerce uma suave pressão sobre a cabeça de um homem: quando ele dá conta já não dá conta e só deseja ser um Robinson Crusoé. O que é que eu leria se fosse Robinson Crusoé? Quereria ainda ler as páginas de culpa e redenção de Lord Jim? Leria contos de outras ilhas e de outros mares, contos dos mares do sul de Somerset Maugham? Ou entretinha-me em terra, dedo a dedo e perverso, com uma Lolita de Nabokov? E se eu não era – oh! se era – Robinson para, numa sexta-feira, ler de um poeta a Morte sem Mestre!
E os filmes da minha ilha deserta? Eu havia de ver, ilha sobre ilha projectada, a Saga de Anatahan. Revia, outra ilha, fluvial, no Mississipi plantada, a ilha do Mud, a correr pela orla de uma infância que mentiria a minha. Ou não via ilha nenhuma e enfiava-me ou fervia (ou fervia e enfiava-me) no apartamento de Marilyn, géiser da ilha de Manhattan em que ela morava no Seven Years Itch. Mas como é que se projectam filmes numa ilha deserta? Projecta-os de cor, frame a frame, a nossa cabeça, porque uma ilha aperta-nos tanto o crânio que a nossa cabeça escurece e se faz cinema.
Confesso: já tive a minha ilha deserta. A mais deserta das minhas filhas foi a do Mussulo, à frente de Luanda, quando lá voltei, em 86. O filme era o de uma guerra civil de silêncio e agonia. No Mussulo, onde, mulher e filhas, me levou o meu avilo Jorge,  havia ecos do Ressurreição de Diá Kimuezo e nem uma nota de Coney Island Baby de Tom Waits. O lauto lusitano almoço pediu sesta e dormi na imóvel água tépida entre o Mussulo e a costa. Acordaram-me os peixes a fazer-me cócegas nos pés. Depois, fui sozinho, linha recta até ao lado do oceano. A sufocante ilha deserta, um cheiro intenso e bom, de peixe seco e mandioca assada. Um cheiro quente, espesso, de um humano estóico por não saber o que epicurismo seja, dizia-me o que sempre soube, que em nenhuma ilha se está sozinho. Sentei-me com o homem sozinho, um velho pescador. Com a infinita gentileza de um cota, meu mais velho, dizia-me, xé minino. E falámos. Tá mau, nem madeira, nem alcatrão, só tinha cola, rede e umas raspas com que tapava rachas da canoa de ir à pesca. Não se queixava nem pedia. Dizia só, xé minino, com uma serenidade de Quintus Horatius Flaccus. Como o romano, também este angolano, nobre e independente, fora filho de escravo liberto. Estava ali sentado, como Horácio em Tibur, uma canoa a sua poesia, a sua casa de campo uma ilha. Uma ilha aperta-se-nos à cabeça como as desesperadas mãos do nosso amor e, sem darmos conta, já somos Robinson Crusoé.