13 de junho de 2014

Visão, tenha duas: os meus sete mandamentos diários



Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


OS MEUS SETE MANDAMENTOS DIÁRIOS
1. Deitada antes de levantar recitar de cor a síntese de um poema de Paul Flemming com dois Provérbios Bíblicos:
Do fruto da minha boca se fartará meu ventre, da novidade dos meus lábios se fartará, pois a morte e a vida estão no poder da língua e aquele que a ama comerá do seu fruto e eu amo-a: dou sem nada perder, não cedo à morte, de tudo quanto me for devido e negado, muito mais me será dado. O que me aflige, o que me encanta foi-me destinado. Faço o que tenho a fazer, venham lamentos ou louvores, sortes ou azares. Tudo está em mim, o meu nome é Vida, não há no vasto mundo sobre o que não decida.
2. Este é o dia que Vida fez. E estas cinco bênçãos estão na minha mão – partilho-as todas mas a ninguém digo quais são. E obrigada pelo Cão.
3. Em jejum uma chávena de água quente com limão. Um sumo verde a caminho da sala e o tapete debaixo do braço para yoga e meditação – a minha irmã diz que bebo relva, respondo-lhe, pois sim, sou Jane na selva, só me falta o Tarzan. Depois, café. Um. Dois. Expressos bem tirados. Três. Ou de cafeteira e o cheiro… ah! meu mundo bom. Comer todos os dias uma coisa vermelha e outra deliciosa: uma romã, framboesas, caril de camarão, ou sushi, um gelado ou húmus no pão. Ter a alegria da água, a do duche, a do mar, a da chuva, até a da piscina - com água toda a alegria rima.
4. Escrever um verso ou um poema. Um capítulo. Um texto. Ou uma linha qualquer que ela seja. Mesmo se para a rasgar.
5. Ouvir música. Ver dança. Saloios do Tennessse, talvez ballet, talvez Bach, talvez não, jazz ou blues a fingir que a mão na mão. E ler. Nem que seja um só poema, um ensaio, a caixa dos tampões. Ver o céu, o mar, o verde – um filme, ou uma cena feliz, Donald O´Connor em Make ´Em Laught, Gigi em The Night They Invented Champagne, um histórico Sinatra com Dean Martin, um espisódio de Friends. E repetir A Guerra dos Tronos. E dançar uma música que me faça rir de mim e da música. E andar de bicicleta. Ir ao ginásio. Ou fazer o NYCB Workout. Ou tudo. Depende da condição do esqueleto, nervos e musculatura. Ou não fazer nada se estiver em dia de ter a alma em miniatura. Mas nem assim deixar de pôr rímel nas pestanas e de ter bem pintadas as unhas de encarnado, fundamental ao bem estar geral e ao preto do teclado.
6. Falar ou estar com um amor – ou pensar nele: os sobrinhos, a mana, ou o amado, a amiga, dizer querido, querida.
7. Deitada antes de dormir. A pele hidratada. O cabelo penteado. E recordar uma, duas, três, quatro, cinco, dez coisas felizes de hoje e agradecer, obrigada. E explicitar um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para amanhã. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para a semana. Ajustar, um, dois, três, nunca mais de três prazeres-deveres, para um mês. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para o ano. Adequar. Voltar a ajustar. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para a vida. E um sonho. Impossível. Vê-lo. Minucioso. Realizado. Dizer: este foi o dia que tinha de ser para chegar onde era impossível: obrigada. Respirar por uma só narina, a esquerda, cinco tempos lentos, parassimpáticos, para relaxar. E por fim, dizer amote ao meu segredo.