20 de junho de 2014

Visão, tenha duas: o que é um pai?, por Manuel S. Fonseca


Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


O QUE É UM PAI?
A beleza de um rosto de mulher, a esculpida beleza de uma actriz, está hoje a encher a capa da Visão. Essa mulher não é, ao contrário do que normal e logicamente acontece, filha do seu pai. Há um homem que recusa a paternidade que ela lhe atribui ou reclama. O que me obriga a perguntar, o que é um pai?
Um pai que se recusa a ser pai pode ainda ser um pai? Uma filha (ou um filho) aceita os seus pais, ainda que não possa ter a certeza de quem eles sejam. Esteve, por força das circunstâncias e de uma inapelável lei da causalidade, ausente desse momento em que um homem e uma mulher a conceberam. Então, como é que uma filha pode saber quem é um pai?
Um pai é essa presença que um filho – ou, no caso vertente, uma filha – reconhece por lhe ter cantado ao ouvido na primeira noite de choro e cólicas. Um pai é essa mão macia e firme que a segurou no banho enquanto a mãe lhe passava a esponja. Um pai é o tipo atrapalhadíssimo – a mãe a gritar da cozinha, tens de ser tu a mudar-lhe a fralda que eu estou a fritar batatas – que pela primeira vez, começando com toalhetes perfumados, dois dedos já sujos (ó meu Deus como aquilo se mete debaixo das unhas!), o lençol branquinho da cama em, que se lixe, último recurso, lhe limpou o rabo, soltando ahrrs e outras exclamações guturais de profundo horror, doido por ir afogar o susto e o cheiro nuns finos da tasca de caracóis da esquina. Um pai é o ignorante em pânico que entra pelas urgências da Estefânia, a pôr a laringite estridulosa, com que ela dá show de bola, à frente de traumatismos e fosse lá o que o raio de tantos aflitos e febris filhos dos outros tivessem.
Uma filha sabe que tem um pai quando ele lhe fala interminável, profusa e veementemente de coisas horríveis de que ela não quer saber nem em sonhos: vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola, foras-de-jogo, clamorosos erros de arbitragem. E esse pai sabe que é um pai porque a ouve dizer, entre o desabafo, um começo de feminina fúria, um ponto de exclamação que é quase um juancarlista “porque no te callas”: “PAI!” O tipo que a seguir se cala, é, garanto-vos, um pai. E é um pai o tipo que já não sabe se há-de rir ou se há-de chorar, quando lhe oferece uma Barbie, e essa filha que já sabe muito bem, com um raio de um imenso carinho escondido, que ele é pai, lhe diz: “É a terceira Barbie africana que me dás.”
Um pai é um tipo que não tem jeito nenhum, factor essencial para uma filha reconhecer um pai. Pai é o terceiro excluído, o que ouve uma mulher dizer, “agora, vai lá para dentro que a tua filha e eu precisamos de conversar as duas.”
E apesar das incongruências, da canhestrice, do ostracismo de género a que é votado, um tipo sabe que é pai. Esse pequenino amor condescendente de um beijo na testa, de uma festinha mais à bruta que lhe faz cair os óculos, é uma forma feminino-filial de dizer: “Não és mau de todo, coitadinho, és meu pai.” É um amor do tamanho de um bago de arroz. Mas é um bago de arroz-doce.
É preciso ser-se um grande aborto jurídico para se recusar um amor de arroz-doce.