6 de junho de 2014

Visão, tenha duas: O Príncipe Seco e o Príncipe Molhado, por Manuel S. Fonseca


visao-capa
 Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
O PRÍNCIPE SECO E O PRÍNCIPE MOLHADO
A nossa cabeça é geográfica. A nossa alma também. A praia é um lençol azul marinho dobrado sobre a almofada de marfim que é a areia. A praia é a maré vazia da nossa cabeça. A praia é a maré cheia da nossa alma.
Até aos cinco anos, só tinha visto um rio. Um rio aperta-nos a cabeça entre as margens. Um rio são duas pernas geográficas que violentamente descem montanhas e atravessam vales. Depois, aos cinco anos, houve um dia em que acordei no mar. Vi o mar antes de ver a praia (há tanta gente que só vê a floresta, sem nunca ter visto uma árvore). Vi, então, o mar. O mundo desaparecera, substituído por um oceano sem fim, com o sol em cima. Era um barco, o Vera Cruz, e julguei que, por terem roubado a terra, viveria eternamente nele. Durou oito dias a minha eternidade. Manhãs de baleias, tardes de golfinhos, noites de zodíaco, como deve ser qualquer eternidade.
Foi em Luanda, onde o Vera Cruz me deixou, que vi pela primeira vez a praia. Aos cinco anos, nas calemas adamastoras da Praia do São Jorge, soube o que era ser um príncipe.  O verdadeiro príncipe, pilinha a abanar nos larguíssimos calções, corria de pés nus e nunca estava seco. Lá está ele, é guarda-redes em voos estilosos e brinca na areia, n’areia. O verdadeiro príncipe chora a ver o mar e não sabe nadar, yo, não sabe nadar, ye.
Na capa da Visão que me fez planar sobre estas coisas todas, há um príncipe de gravata às riscas, que acena entre as rochas. A gravata é bonita mas, talvez por causa da gravata, vai deixar de ser um príncipe e passar a ser um rei. Nenhum príncipe de praia quereria ceptro e coroa. O verdadeiro príncipe da praia abdicou, porque abdicar é a sua condição. Não se tira tudo da cabeça –a dívida ao Banco, o EBITDA ou o desemprego, a Ucrânia e mesmo a morte que saiu à rua na Síria, a mulher, os filhos e os filhos da mulher, a metafísica e a contabilidade, a inútil e agitada panóplia do incerto quotidiano – para depois se pôr na cabeça o ferro de uma coroa.
O príncipe, o geográfico príncipe da praia, tem a alma cheia, eróticas ondas da alegria de coisa nenhuma, na pele o poético sal de um tempo sem tempo, os olhos iluminados pela preguiça tórrida de uma tarde que não mexe nem o mais escondido pintelho.
Olho para esta capa da Visão e já vejo Filipe V a entrar en la Zarzuela. Portugal estremece. Não sei se por ouvir palácios a gritar por Filipes, se apenas por ser Verão e já há tanto tempo sabermos que um rei vem sempre nu morrer à praia.