6 de junho de 2014

Visão, tenha duas - Everything's alright



visao-capa
 Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
VISÃO, TENHA DUAS
EVERYTHING'S ALRIGHT
Só me apetece entrar no mar e sair do outro lado. E chegando lá, olhar para cá, e ver que fiz o poema de Adélia Prado: o caminho do céu.
Desde ontem que tenho na ponta da língua, sem saber porquê, sem querer sequer saber, a canção que, no filme Jesus Christ Superstar, ao perceberem a aproximação do fim, Maria Madalena primeiro, depois Pedro, e a terminar todos cantam, could we start again, please. E desde ontem que a resposta se me faz ouvir no mesmo filme quando Herodes canta e dança com os dedinhos das mãos o charleston onde diz a Cristo, prove to me that You´re no fool, walk across my swimming pool. E desde ontem que me digo, everything's alright, não tenhas preocupações de Judas.
É preciso recuar. Primeiro a Jesus Christ Superstar, um filme da minha infância que não sabia nada de ter sido adaptado de um musical, nem de controvérsias geradas. O que a minha infância sabia muito bem é que o cinema era praticamente lá na sala, não era preciso pagar bilhete, coisa muito boa porque a minha semanada era ínfima. Bastava enfiar-me à socapa na frisa e saía do outro lado. E ainda havia aquilo de poder desaparecer e aparecer calculada e dissimuladamente quando suspeitava que o filme não para era mim, expressão decalcada da minha avó, não, não pode, não é para si, para a sua idade. Porquê? Ora essa, porque eu disse. Pois eu também dizia, mas era com actos. Guerilha. Parti do princípio que tendo no título Jesus, não havia de ser bem querido naquela casa de ateus. Como vivia quase porta com porta com o cinema, fazia o ilusionismo de aparecer no intervalo em casa e ser notada e barulhenta para que o desaparecimento fosse uma bênção – há-de estar a ler no quarto, no quintal, no telhado.
Este filme fez-me abrir muito os olhos. Um guarda roupa de dois tostões e um monte de pedras por cenário. Tal qual aquela gente cheia de prodígios que aparecera do Verão Quente, os cabelos compridos, as calças desbotadas e desfiadas, todos vestidos como a minha Janis Joplin, e os panos pretos estendidos no chão onde se alinhavam anéis, pulseiras, colares, bugigangas que vendiam enquanto tocavam guitarra, fumavam, riam. O meu tio já era grande, estava no último ano do Liceu: deixou crescer o cabelo e os amigos que iam lá a casa pareciam do filme, todos em Pedros e Madalenas. Faziam lanches que duravam a tarde toda e dançavam na varanda. Eu também dançava. Desconfio que não eram apenas os lanches de sábado que duravam pelo tempo adentro, tenho quase a certeza de que saíam até tardíssimo de se fazer cedo porque, às vezes, de madrugada, mal o dia ganhava uma corzinha, o meu tio ia buscar-me à cama e levava-me no ronron da Honda preta até ao mar. Um segredo de pijama, robe e pantufas.
E é preciso recuar até Adélia Prado porque os bons poemas são as escadas da eternidade, está-se lá em cada degrau, não é preciso subir. Um corpo quer outro corpo./ Uma alma quer outra alma e seu corpo./ Este excesso de realidade me confunde./ Jonathan falando:/ parece que estou num filme./ Se eu lhe dissesse você é estúpido/ ele diria sou mesmo./ Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear/ eu iria./ As casas baixas, as pessoas pobres,/ e o sol da tarde,/ imaginai o que era o sol da tarde/ sobre a nossa fragilidade./ Vinha com Jonathan/ pela rua mais torta da cidade. / O Caminho do Céu.
Talvez a praia, o ecrã do cinema, o poema, sejam o escape, as férias, o lugar onde a vida pode morrer por um bocadinho para ser outra antes de voltar a ser a mesma. Mas talvez sejam a realidade ainda que eu não walk across your swimming pool, e talvez seja mesmo fool. E agora que já não tenho o cinema ao lado, e que Jonathan, esse trânsito entre a carne mística, crística, mas concreta e completa que qualquer mulher percebe o que é quando o digo, como Adélia a chamar-lhe estúpido, e os homens, hã?, agora que nem cinema nem Jonathan há, só me apetece entrar no mar e sair do outro lado, num multiverso qualquer que dê para um poema e onde se possa start again, please. Deste lado, everything's alright, mas para escrever não há nem uma linha de água.