25 de junho de 2014

Por detrás da photo

Em resposta à Triste Maria João
POR DETRÁS DA PHOTO
1. Nesta photo já tinha sido expulsa de um lindo Colégio Católico Apostólico Romano, perdão, convidada a retirar-me - fui ao engano, mas de livre vontade, torrei o juízo a toda a gente, pedi, implorei que me despachassem para o raio da escola de aprender a ler tudo sozinha e a escrever porque pensava que me iam ensinar a ler tudo sozinha e a escrever. Não ensinaram, e o Céu caiu-lhes em cima da cabeça. Aquelas romanas eram loucas!
2.  Nesta photo já tinha fugido para o Grande Circo. E apesar dos horrores de pai e filho no poço da morte, das vertigens do arame, e dos nervos que os mágicos me davam com o seus números intermináveis, a minha decisão estava tomada. Lá fui ser equilibrista. Caçaram-me em plena feira, a menina não é a neta de... e o que faz aqui sozinha? Sozinha, eu? Estou com a minha avó. Sempre menti mal: tinha o pijama vestido.
3. Nesta photo já adorava o meu chorão, o seu carrinho de bebé azul escuro de rodas brancas, os lençóis com a barra de bordado inglês e os patinhos amarelos bordados, quá quá, sobre a mantinha, muito bem aconchegado, a cabeça bem apoiada na almofada. Sim, com esta idade ia sempre à rua com ele, o carro dele, o saco com os biberons, uma muda de roupa: toda a gente sabe, os bebés sujam-se. E mal acabasse de crescer ia logo ter o marido, uma casa, uma família. Era muitíssimo vaidosa. Usava sempre carteira, anéis inacreditáveis, e ganchos no cabelo - era preciso muito cuidado e dar-me quinquilharias grandes e rebrilhantes, mesmo uma fartura de vidro colorido, ou usava o que não era meu logo estivesse ao alcance da mão. 
4. Nesta photo já tinha afirmado a pés juntos que a minha avó tinha autorizado tirar as rodinhas de apoio da bicicleta, o senhor António acreditou, não estava nenhum adulto mandante em casa, tirou-as, fugi rapidamente antes que a perigosa da Ondina me visse no radar, e na rua de trás, fechada para obras, toda descalcetada para passarem uns enormes canos de cimento no seu fundo esventrado, voei! Que alegria. Mas não sabia virar, dar a volta completa sem as rodinhas de apoio. E ao chegar ao fim da rua, calculei a curva, resolvi arriscar, não travar nem pôr os pés no chão. Caí no buraco de terra enlameada - era muito pequenina quando era pequenina, nem toquei no cano de cimento. Era domingo. Era muito fundo. Era muito tempo para pensar: uma grande humilhação; mais a mentira das rodinhas; e as horas a passarem. Não estava arrependida da parte das rodinhas. Só de não ter posto os pés no chão para fazer a curva, porque é que não pus os pés no chão?, e da mentira em si mesma, e da vergonhaça de ter de pedir ajuda. Alguém! Alguém! Apanhei palmadas no rabo desde que saí do buraco até chegar ao portão das traseiras de casa, dois traseiros encarnados - a minha avó não era pedagógica. Foi, digamos, uma experiência educativa clássica. Não chorei nem uma lágrima. Mas doeu-me até ao orgulho.
5. Nesta photo já tinha inventado histórias mirabolantes como se fossem verdades: pedia a toda gente conhecida e desconhecida umas chinelas de pau de tira vermelha iguaizinhas às da Anita e uns sapatos de verniz, contando horripilâncias de fazer corar Dickens sobre a crueldade das botas ortopédicas.
6. Nesta photo já adorava ouvir e ver tudo a fingir que era o homem invisível. Funcionava.
7. Nesta photo já era muito feliz, viajava sempre deitada na chapeleira do carro, cantava no carro e dançava muito, mas em casa. Não fosse o senão da escrita/leitura, e daquelas cocas enganadoras, de negro da cabeça aos pés, as falsas donas do alfabeto. Não fosse aquilo de não ter sapatos adequados. Não fosse não me deixarem à vontade com os serviços de louça - os verdadeiros, não os das bonecas. Enfim, não ser crescida para ser eu a mandar. Vão ver!