1 de junho de 2014

O Falcão


AÍ VEM O MEU FALCÃO
Ontem, ri muito ao telefone com a  minha prima. Conhecêmo-nos desde que nasci, e só não foi antes porque ela chegou com seis meses de avanço sobre mim. Muito naturalmente, temos um património de memórias que vão do mais pateta ao mais hilariante -  e muito choro pelo meio.
Se tivesse veleidades quanto à minha natureza anímica, ou pretendidas disposições elevadas de nascimento, tinham-me passado todas com a conversa. Explico.
Toda a gente que acredita na reencarnação foi alguém noutra vida. E quem não acredita, faz um exercício de imaginação, e acredita também. Quando digo foi alguém, não digo uma pessoa comum. Cleópatras pululam pelas nossas avenidas – não que estejam erradas, pois Cleópatra terá tido sósias que uma mulher não chega para tudo, que nervos, audiências na sala do trono, César, António, os escravos, os sacerdotes, construções e inaugurações, manter os palácios em condições, guerra, enfim, uma trabalheira. E quem diz Cleo diz qualquer rainha de uma dinastia menos ptolomaica do que aquela. Ah, fartura de Marias Antonietas sem amour ao rico pescoço... Os homens são diferentes, ponha-se-lhes uma espada na mão e foram logo um guerreiro qualquer – faz ó-ó, Freud, não sejas judgemental, que feitio, aposto que na outra encarnação foste rabi.
Pior. Há aí uma tendência transmigratória de “almas muito antigas”. E diz que se nota pois têm uma sabedoria eco-coiso-transcendental de nascença. Ora, é mesmo aqui que a porca torce o rabo. Porquê? Também queria ser isso. É bonito ter sido um monge no Nepal e lembrar a infância do mundo no cântico dos mantras. Ter dentro uma paz tipo Keanu Reeves a fazer de Buda. Eu gostava. Mais. Faço meditação, yogo me mucho, bebo uma fartura de legumes, como frutinha, sopa e salada - e em voz baixa, montes de peixe e outros animais marinhos: há-de haver aí um barco que trabalha só para mim. Isto para chegar onde? Aqui.
Se, quando anterior Dalai Lama morreu, tivessem ido lá a casa sacolejar-me os ossos infantis a ver se lhe encontravam o espírito nos objectos e hábitos, teriam tido um choque, como direi, cultural-religioso-evolutivo. Sei de fonte sabida, e a minha prima é testemunha, que, na melhor das hipóteses, a minha alma é semi-nova – a alternativa é ser nova a estrear: hei-de ter sido um lobo, ou outra bicheza caçadora que não fosse para pagodes.
Quando era muito pequenina, a minha comida preferida era… Bife Tártaro. À Americana, como então se dizia. Adorava. Tudo. Mesmo visualmente: a beleza veraneante do amarelo da gema, a frescura tão encarnada, o moinho de pimenta de madeira escura que surgia do altíssimo armário a anunciar com um ruído fino de esforço, coisa irritativa, do uso, que o senhor bife estava pronto para ser comido. Tinha de ter aquela medida perfeita, definida para o equilíbrio do ovo, e ser sobre o redondo - nada daqueles monstros deselegantes e esparramados. Até o nome era aperitivo: Tártaro. Ai que fome.
E, para perder de todo as esperanças transcendentais, se me apetecia petiscar qualquer coisa entre as refeições, era uma linda carninha crua, cortada em bocadinhos. Dizia a minha prima ontem: lembras-te, quando tinhas três, quatro anos e a tua avó dizia: aí vem o meu falcão...