22 de junho de 2014

Contradança - Cartas e Poemas de Camões

CONTRADANÇA - CARTAS E POEMAS DE CAMÕES

Que pode um homem senão cumprir o seu destino? Enfrentá-lo e perder?

Assim fora sempre consigo. Mesmo agora em que nada mais interessava, e nada mais lhe interessava que publicar os Lusíadas, render-se a tudo o que não compreendera, jamais compreendera, mas só com os Lusíadas publicados, antes disso nunca: com eles não faria a vida o que com ele fizera, nem a vida nem ninguém – nem ele próprio se perderia por suas mãos por conta do génio terrível que o incendiava ou consumia. Depois, talvez pudesse voltar ao Parnaso desaparecido a mando de alguém. Mas de quem fora o mando? Esta certeza do mandado e esta dúvida do mandatário da malfeitoria, ninguém lhe a tirava, não desaparecia. Talvez pudesse voltar ao Parnaso, reconstruí-lo, talvez… assim tivesse tempo. Para além da lírica reunida, no Parnaso contemplara, reflectira e comentara os mestres, da filosofia à poética. Não era um livro, era o espelho dos anos onde finalmente se encontrara, alma agarrada pelo reflexo de si mesma.

Perdido de tudo, para todos há já quanto tempo estaria perdido, santo Deus, fora com o Parnaso concluído que se encontrara inteiro, e se vira, verdadeiramente visto como se com os próprios olhos: as palavras manuscritas, ou o próprio corpo, nem distinguia, naquele derradeiro momento, na exacta altura em que se medira com quem tinha sido, e não seria outra vez que a vida tem as oportunidades contadas como o corpo o número de batidas do coração. Não era tinta na folha, era sangue, nem eram folhas, antes a circulação da força vital que lhe fora concedida pela dispersão dos dias.

Ali, na Ilha de Moçambique, jogado fora qual traste, nada mais além da roupa e da miséria sobrada depois de afundadas as riquezas, o sonho alto, o amor, e ao fim, mesmo o mais humilde retorno a Lisboa, regresso indigno das aspirações que tivera, dos merecimentos que não soubera alcançar e desmerecera, mesmo esse regresso era travessia quase impossível. Emparedado pelo mar. Talvez por isso, ali mesmo, na Ilha de Moçambique emergira e desaguara o caudal subterrâneo dos últimos quinze anos atravessados, idade de ser homem e suceder. Emergiram as águas da consciência, a água corre para o mar, e com cristalina claridade viu, viu-se: falhara a vida.

Restava-lhe a redenção pela obra. Se a fortuna se lhe negasse outra vez, e também os Lusíadas e o Parnaso, por ora desaparecido, se desaproveitassem, então, mais valia que também ele tivesse morrido na costa do Sião.

A invernação da nau que haveria de o resgatar chegara ao fim e para ele cumpriam-se dois anos de penitência naquele lugar de pagar ou morrer - a aridez era tal que não permitia mais do que meia dúzia de palmares e hortas de míngua, nada se dava senão a fome, a doença e o comércio. Para este, uma abundância de âmbar e marfim das Querimbas, sândalo e escravos de Madagáscar, milho, arroz, e carne das terras de Pemba. Comerciassem. Ele pagara o preço da vida e sobrevivera.

Era a hora do retorno. Ainda antes lhe escreveria uma carta. Queria contar-lhe tudo. Se amar é conhecer, antes de morrer que ela o conhecesse para que, mesmo saindo deste mundo embrulhado em lençol de outros, resplandecesse da luz que não se extingue. Agora mesmo começaria:

Tantos, tantos erros, meu amor, e dos acertos só a dois cuido de dar de comer para deixar crescer em esperança: as palavras para o mundo, e quem sou, para os teus olhos.



Ps: O Parnaso nunca apareceu. Os Lusíadas publicaram-se e a lírica. E também estas cartas. Desde 2011, pela G&P, em dueto com os poemas numa edição tão cuidada. Porque um livro também é um objecto da beleza.