CONTRADANÇA - CARTAS E POEMAS DE CAMÕES
Que pode um homem senão cumprir o seu destino? Enfrentá-lo e
perder?
Assim fora sempre consigo. Mesmo agora em que nada mais
interessava, e nada mais lhe interessava que publicar os Lusíadas, render-se a
tudo o que não compreendera, jamais compreendera, mas só com os Lusíadas
publicados, antes disso nunca: com eles não faria a vida o que com ele fizera,
nem a vida nem ninguém – nem ele próprio se perderia por suas mãos por conta do
génio terrível que o incendiava ou consumia. Depois, talvez pudesse voltar ao
Parnaso desaparecido a mando de alguém. Mas de quem fora o mando? Esta certeza
do mandado e esta dúvida do mandatário da malfeitoria, ninguém lhe a tirava, não
desaparecia. Talvez pudesse voltar ao Parnaso, reconstruí-lo, talvez… assim
tivesse tempo. Para além da lírica reunida, no Parnaso contemplara, reflectira
e comentara os mestres, da filosofia à poética. Não era um livro, era o espelho
dos anos onde finalmente se encontrara, alma agarrada pelo reflexo de si mesma.
Perdido de tudo, para todos há já quanto tempo estaria perdido,
santo Deus, fora com o Parnaso concluído que se encontrara inteiro, e se vira,
verdadeiramente visto como se com os próprios olhos: as palavras manuscritas,
ou o próprio corpo, nem distinguia, naquele derradeiro momento, na exacta
altura em que se medira com quem tinha sido, e não seria outra vez que a vida
tem as oportunidades contadas como o corpo o número de batidas do coração. Não
era tinta na folha, era sangue, nem eram folhas, antes a circulação da força
vital que lhe fora concedida pela dispersão dos dias.
Ali, na Ilha de Moçambique, jogado fora qual traste, nada mais
além da roupa e da miséria sobrada depois de afundadas as riquezas, o sonho
alto, o amor, e ao fim, mesmo o mais humilde retorno a Lisboa, regresso indigno
das aspirações que tivera, dos merecimentos que não soubera alcançar e desmerecera,
mesmo esse regresso era travessia quase impossível. Emparedado pelo mar. Talvez
por isso, ali mesmo, na Ilha de Moçambique emergira e desaguara o caudal
subterrâneo dos últimos quinze anos atravessados, idade de ser homem e suceder.
Emergiram as águas da consciência, a água corre para o mar, e com cristalina
claridade viu, viu-se: falhara a vida.
Restava-lhe a redenção pela obra. Se a fortuna se lhe negasse
outra vez, e também os Lusíadas e o Parnaso, por ora desaparecido, se
desaproveitassem, então, mais valia que também ele tivesse morrido na costa do
Sião.
A invernação da nau que haveria de o resgatar chegara ao fim e
para ele cumpriam-se dois anos de penitência naquele lugar de pagar ou morrer -
a aridez era tal que não permitia mais do que meia dúzia de palmares e hortas
de míngua, nada se dava senão a fome, a doença e o comércio. Para este, uma
abundância de âmbar e marfim das Querimbas, sândalo e escravos de Madagáscar,
milho, arroz, e carne das terras de Pemba. Comerciassem. Ele pagara o preço da
vida e sobrevivera.
Era a hora do retorno. Ainda antes lhe escreveria uma carta.
Queria contar-lhe tudo. Se amar é conhecer, antes de morrer que ela o conhecesse
para que, mesmo saindo deste mundo embrulhado em lençol de outros,
resplandecesse da luz que não se extingue. Agora mesmo começaria:
Tantos, tantos erros, meu amor, e dos acertos só a dois cuido de
dar de comer para deixar crescer em esperança: as palavras para o mundo, e quem
sou, para os teus olhos.
Ps: O Parnaso nunca apareceu. Os Lusíadas publicaram-se e a lírica. E também estas cartas. Desde 2011, pela G&P, em dueto com os poemas numa edição tão cuidada. Porque um livro também é um objecto da beleza.
