30 de junho de 2014

Kung Fu - Grasshopper a Master Po

O SOL ESTÁ FUNDIDO
Vou mudar de vida. 
Não vou deixar as letras. 
Vou só deixar de escrever. 
Passo a leitora definitiva. 
Tiro o rabo da cadeira e no mais
dedico-me a uma vida activa. 
Monto um estúdio 
com o dinheiro que não tenho,
uma escola de kung fu que não sei. 
Tenho sonhos orientais de shaolin e wudan - 
se acreditasse neles falava só mandarim. 
Quem me dera ser uma daquelas criaturas 
premeditadas pela encarnação 
como nas ficções e
ter nascido já pré-cozinhada. 
Qualquer forma de kung fu me serve, 
não sou esquisita.
Mas prefiro vir de um templo
para o mundo. A base formal é outra.

Assim como está, não dá, Master Po:
o meu sol fundiu-se.

A verdade é que isto é uma grande chatice:
toda a gente cresceu menos eu.

29 de junho de 2014

O MEU SOBRINHO E EU E EU E O MEU SOBRINHO

O MEU SOBRINHO E EU E EU E O MEU SOBRINHO

i.

VERNIZ COR DE SANGUE DO NARIZ
Mal comparada, a minha relação com a manicure é tal qual a mesma que mantenho com os sapatos. Como usava botas ortopédicas sonhava com sapatos de verniz, sandálias, socas, saltos… Como roía as unhas queria ter umas lindas mãos.

Quando comecei a fazer manicure era só o natural. Depois passei a fazer manicure francesa que é, digamos, um empurrãozinho dissimulado à naturalidade. Quando a francesa caiu em graça, caiu-me em desgraça, isto é, tive um ataque de Carolina do Mónaco e comecei a pintar as unhas de encarnado. Não é laranja, não é salmão, não é tomate, não é rosa, não é o diabo a quatro, é encarnado. Não há cá azuis, nem verdes, nem brancos, nem pretos nem roxos nem castanhos, que não quero unhas cor de morto nem de doente nem de qualquer cor adolescente, não ponho brilhantes, nem flores, nem desenhos de espécie alguma, nem bicos de águia, garras de gato de palco, nem redondas, nem quadradas. Curtas. Encarnadas. Monótonos pezinhos do mesmo encarnado. Um tom acima, abaixo ou ao lado, mas encarnado.

Ora, os meus sobrinhos estão a passar o fim-de-semana comigo. Ontem, estava a ler um livro com o meu sobrinho mais velho quando, de repente: 
- Uau, Tatia, que lindas unhas, cor de sangue do nariz!


ii

BORBOLETAS E DINOSSAUROS

Do meu sobrinho mais velho já contei. A calma em figura de gente. Cheio de mistérios que nem ele sabe nem nós. De vez em quando apanha toda a gente desprevenida. Ganhou um campeonato de canto – ninguém sabia que ele cantava. E de conto escrito e de matemática e de desenho. Azarucho, descobriu-se também que, às vezes, diz: não posso fazer esse trabalho, estou muito cansado, preciso de dormir. Ou não percebo esse trabalho, não posso fazê-lo. E não faz. Ponto. Apesar de muito alto, é escanzelado, e vá, fracote. E usa botas ortopédicas portanto também não corre por aí além, e não o escolhem para as equipas de futebol.

Apaixonou-se. É a menina que todos os meninos querem namorar. Perguntei-lhe porquê esperando uma trivialidade, é a mais bonita, ou a melhor aluna. Não. Não é a mais bonita, mas é muito bonita. Nem é a melhor aluna, mas é muito boa aluna. Nem tem um feitio, ao que parece, muito fácil. Porque é a melhor. A melhor quê? A melhor, Tatia. Enfim, namoram. Ela também o escolheu. 

Ora, o macho alfa foi-lhe disputar a namorada – namorar, nesse dia, era basicamente ir apanhar borboletas porque ela queria. O macho alfa afirmou que era ele quem ia apanhar borboletas com ela. O meu sobrinho, que já apanhou do macho alfa e do beta e de mais umas quantas letras do alfabeto, passou-se da cabeça e quem apanhou foi o macho alfa. Resumido. Ele foi apanhar borboletas com ela, os dois felizes da vida e a minha irmã foi chamada ao colégio. Quando lhe perguntei o que se tinha passado respondeu-me: 
- Tatia, se eu encontrasse no Polo Norte um TRex congelado poderia fazê-lo em mil bocadinhos de gelo – não fazia porque gosto de dinossauros.
- Isso quer dizer o quê?, que o seu colega era mais forte, percebo, que lhe poderia ter dado mais umas quantas e não deu porque gosta dele também percebo, mas o seu colega não estava congelado...
- Era como se estivesse porque eu gosto dela e ela de mim.
- E como sabe que ela gosta de si, se mesmo agora contou que lhe perguntou e ela foi embora a correr?
- Porque ela se foi embora a correr!
- Boa!
- E porque quando quer apanhar borboletas é comigo, e quando eu vou pensar*, à sombra, no recreio, ela vem deitar-se a olhar para o céu ao meu lado.



* o meu sobrinho dormita um bocadinho no recreio do almoço, chama-lhe pensar de olhos fechados - escolas cruéis! E bela siesta?! Não podem ser crescidos quando forem crescidos? Que nervos...

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - Secret heart, what are you made of?


27 de junho de 2014

Visão, tenha duas: Ilhas

visao hoje

Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, na ilha deserta,
O Manuel S. Fonseca e eu, a olhar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ele escre­veu o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Expe­ri­men­tem ler.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.
ILHAS
No outro dia disseram-me o que se costuma dizer: nenhum homem é uma ilha. Não tenho essa certeza. Acabados de nascer somos uma península ligada ao continente mãe. Mas depois de cortado o cordão, não somos uma pequenina ilha em regime de protectorado? E logo a seguir não vamos reconhecendo o nosso arquipélago? E não chega aquela hora em que entramos na vida para inventar uma baía toda particular? Somos uma ilha, sim, com todos os acidentes e alegrias da geografia: uma depressão, se estamos abaixo do nível do mar. E um canhão se entre montanhas que nos cortam o ar. E um vulcão em puríssima erupção quem é que se atreve a dizer que não é, nunca foi, jamais será na ilha do eu? Eu tenho o meu. Uma restinga tão estreita, a um palmo de areia, a um passo na areia, à distância da mão na mão, quem é que não quer ser?
É uma viagem do caraças um dia na ilha do mundo, todos os dias. A Terra é só uma ilha no grande mar sideral, não é?
No outro dia perguntaram-me o que costumam perguntar: se só pudesse levar uma coisa para uma ilha deserta, o que seria? Um barco, pois claro, se é uma nave espacial...
No outro dia preenchi um questionário para saber qual era o meu ideal de ilha para férias: tanto quadradinho cheio de cruzes inúteis, sou uma inconclusão insular. Se me tivessem perguntado teria respondido: o meu tipo de ilha és tu, para viver ou passear. E para escrever há todo o mar.
Ilhas nós todos na união das águas.

Visão, tenha duas: a redonda solidão, por Manuel S. Fonseca

visao hoje

Meia-noite e um minuto e cá esta­mos, na ilha deserta,
A Eugénia e eu, a olhar, Tris­tes, para a capa da Visão. Ela escre­veu o que lhe veio à cabeça. Eu tam­bém. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Expe­ri­men­tem ler.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

A REDONDA SOLIDÃO
Tanto azul de céu e mar e uma nesga de praia que é só a ponta de uma ilha. Essa, essa ilha, que os títulos nos dizem ser portuguesa e pertinho do continente, faz a capa de hoje da “Visão”. Na capa nem parece, mas qualquer ilha é um círculo de solidão, redonda solidão cercada de mar por todos os lados. Quando ouvimos a palavra ilha sacamos logo do coldre uma pistola que antes de disparar ainda pergunta “o que é que eu levava para uma ilha deserta?” Como se as toneladas de areia e solidão de uma ilha, as palmeiras que o vento finta, pudessem ser humanizadas pela bagagem do náufrago metafísico, bagagem de livros ou filmes, uma música favorita ou um ocioso tabuleiro de xadrez.
A ilha exerce uma suave pressão sobre a cabeça de um homem: quando ele dá conta já não dá conta e só deseja ser um Robinson Crusoé. O que é que eu leria se fosse Robinson Crusoé? Quereria ainda ler as páginas de culpa e redenção de Lord Jim? Leria contos de outras ilhas e de outros mares, contos dos mares do sul de Somerset Maugham? Ou entretinha-me em terra, dedo a dedo e perverso, com uma Lolita de Nabokov? E se eu não era – oh! se era – Robinson para, numa sexta-feira, ler de um poeta a Morte sem Mestre!
E os filmes da minha ilha deserta? Eu havia de ver, ilha sobre ilha projectada, a Saga de Anatahan. Revia, outra ilha, fluvial, no Mississipi plantada, a ilha do Mud, a correr pela orla de uma infância que mentiria a minha. Ou não via ilha nenhuma e enfiava-me ou fervia (ou fervia e enfiava-me) no apartamento de Marilyn, géiser da ilha de Manhattan em que ela morava no Seven Years Itch. Mas como é que se projectam filmes numa ilha deserta? Projecta-os de cor, frame a frame, a nossa cabeça, porque uma ilha aperta-nos tanto o crânio que a nossa cabeça escurece e se faz cinema.
Confesso: já tive a minha ilha deserta. A mais deserta das minhas filhas foi a do Mussulo, à frente de Luanda, quando lá voltei, em 86. O filme era o de uma guerra civil de silêncio e agonia. No Mussulo, onde, mulher e filhas, me levou o meu avilo Jorge,  havia ecos do Ressurreição de Diá Kimuezo e nem uma nota de Coney Island Baby de Tom Waits. O lauto lusitano almoço pediu sesta e dormi na imóvel água tépida entre o Mussulo e a costa. Acordaram-me os peixes a fazer-me cócegas nos pés. Depois, fui sozinho, linha recta até ao lado do oceano. A sufocante ilha deserta, um cheiro intenso e bom, de peixe seco e mandioca assada. Um cheiro quente, espesso, de um humano estóico por não saber o que epicurismo seja, dizia-me o que sempre soube, que em nenhuma ilha se está sozinho. Sentei-me com o homem sozinho, um velho pescador. Com a infinita gentileza de um cota, meu mais velho, dizia-me, xé minino. E falámos. Tá mau, nem madeira, nem alcatrão, só tinha cola, rede e umas raspas com que tapava rachas da canoa de ir à pesca. Não se queixava nem pedia. Dizia só, xé minino, com uma serenidade de Quintus Horatius Flaccus. Como o romano, também este angolano, nobre e independente, fora filho de escravo liberto. Estava ali sentado, como Horácio em Tibur, uma canoa a sua poesia, a sua casa de campo uma ilha. Uma ilha aperta-se-nos à cabeça como as desesperadas mãos do nosso amor e, sem darmos conta, já somos Robinson Crusoé.

25 de junho de 2014

Por detrás da photo

Em resposta à Triste Maria João
POR DETRÁS DA PHOTO
1. Nesta photo já tinha sido expulsa de um lindo Colégio Católico Apostólico Romano, perdão, convidada a retirar-me - fui ao engano, mas de livre vontade, torrei o juízo a toda a gente, pedi, implorei que me despachassem para o raio da escola de aprender a ler tudo sozinha e a escrever porque pensava que me iam ensinar a ler tudo sozinha e a escrever. Não ensinaram, e o Céu caiu-lhes em cima da cabeça. Aquelas romanas eram loucas!
2.  Nesta photo já tinha fugido para o Grande Circo. E apesar dos horrores de pai e filho no poço da morte, das vertigens do arame, e dos nervos que os mágicos me davam com o seus números intermináveis, a minha decisão estava tomada. Lá fui ser equilibrista. Caçaram-me em plena feira, a menina não é a neta de... e o que faz aqui sozinha? Sozinha, eu? Estou com a minha avó. Sempre menti mal: tinha o pijama vestido.
3. Nesta photo já adorava o meu chorão, o seu carrinho de bebé azul escuro de rodas brancas, os lençóis com a barra de bordado inglês e os patinhos amarelos bordados, quá quá, sobre a mantinha, muito bem aconchegado, a cabeça bem apoiada na almofada. Sim, com esta idade ia sempre à rua com ele, o carro dele, o saco com os biberons, uma muda de roupa: toda a gente sabe, os bebés sujam-se. E mal acabasse de crescer ia logo ter o marido, uma casa, uma família. Era muitíssimo vaidosa. Usava sempre carteira, anéis inacreditáveis, e ganchos no cabelo - era preciso muito cuidado e dar-me quinquilharias grandes e rebrilhantes, mesmo uma fartura de vidro colorido, ou usava o que não era meu logo estivesse ao alcance da mão. 
4. Nesta photo já tinha afirmado a pés juntos que a minha avó tinha autorizado tirar as rodinhas de apoio da bicicleta, o senhor António acreditou, não estava nenhum adulto mandante em casa, tirou-as, fugi rapidamente antes que a perigosa da Ondina me visse no radar, e na rua de trás, fechada para obras, toda descalcetada para passarem uns enormes canos de cimento no seu fundo esventrado, voei! Que alegria. Mas não sabia virar, dar a volta completa sem as rodinhas de apoio. E ao chegar ao fim da rua, calculei a curva, resolvi arriscar, não travar nem pôr os pés no chão. Caí no buraco de terra enlameada - era muito pequenina quando era pequenina, nem toquei no cano de cimento. Era domingo. Era muito fundo. Era muito tempo para pensar: uma grande humilhação; mais a mentira das rodinhas; e as horas a passarem. Não estava arrependida da parte das rodinhas. Só de não ter posto os pés no chão para fazer a curva, porque é que não pus os pés no chão?, e da mentira em si mesma, e da vergonhaça de ter de pedir ajuda. Alguém! Alguém! Apanhei palmadas no rabo desde que saí do buraco até chegar ao portão das traseiras de casa, dois traseiros encarnados - a minha avó não era pedagógica. Foi, digamos, uma experiência educativa clássica. Não chorei nem uma lágrima. Mas doeu-me até ao orgulho.
5. Nesta photo já tinha inventado histórias mirabolantes como se fossem verdades: pedia a toda gente conhecida e desconhecida umas chinelas de pau de tira vermelha iguaizinhas às da Anita e uns sapatos de verniz, contando horripilâncias de fazer corar Dickens sobre a crueldade das botas ortopédicas.
6. Nesta photo já adorava ouvir e ver tudo a fingir que era o homem invisível. Funcionava.
7. Nesta photo já era muito feliz, viajava sempre deitada na chapeleira do carro, cantava no carro e dançava muito, mas em casa. Não fosse o senão da escrita/leitura, e daquelas cocas enganadoras, de negro da cabeça aos pés, as falsas donas do alfabeto. Não fosse aquilo de não ter sapatos adequados. Não fosse não me deixarem à vontade com os serviços de louça - os verdadeiros, não os das bonecas. Enfim, não ser crescida para ser eu a mandar. Vão ver!

22 de junho de 2014

Contradança - Cartas e Poemas de Camões

CONTRADANÇA - CARTAS E POEMAS DE CAMÕES

Que pode um homem senão cumprir o seu destino? Enfrentá-lo e perder?

Assim fora sempre consigo. Mesmo agora em que nada mais interessava, e nada mais lhe interessava que publicar os Lusíadas, render-se a tudo o que não compreendera, jamais compreendera, mas só com os Lusíadas publicados, antes disso nunca: com eles não faria a vida o que com ele fizera, nem a vida nem ninguém – nem ele próprio se perderia por suas mãos por conta do génio terrível que o incendiava ou consumia. Depois, talvez pudesse voltar ao Parnaso desaparecido a mando de alguém. Mas de quem fora o mando? Esta certeza do mandado e esta dúvida do mandatário da malfeitoria, ninguém lhe a tirava, não desaparecia. Talvez pudesse voltar ao Parnaso, reconstruí-lo, talvez… assim tivesse tempo. Para além da lírica reunida, no Parnaso contemplara, reflectira e comentara os mestres, da filosofia à poética. Não era um livro, era o espelho dos anos onde finalmente se encontrara, alma agarrada pelo reflexo de si mesma.

Perdido de tudo, para todos há já quanto tempo estaria perdido, santo Deus, fora com o Parnaso concluído que se encontrara inteiro, e se vira, verdadeiramente visto como se com os próprios olhos: as palavras manuscritas, ou o próprio corpo, nem distinguia, naquele derradeiro momento, na exacta altura em que se medira com quem tinha sido, e não seria outra vez que a vida tem as oportunidades contadas como o corpo o número de batidas do coração. Não era tinta na folha, era sangue, nem eram folhas, antes a circulação da força vital que lhe fora concedida pela dispersão dos dias.

Ali, na Ilha de Moçambique, jogado fora qual traste, nada mais além da roupa e da miséria sobrada depois de afundadas as riquezas, o sonho alto, o amor, e ao fim, mesmo o mais humilde retorno a Lisboa, regresso indigno das aspirações que tivera, dos merecimentos que não soubera alcançar e desmerecera, mesmo esse regresso era travessia quase impossível. Emparedado pelo mar. Talvez por isso, ali mesmo, na Ilha de Moçambique emergira e desaguara o caudal subterrâneo dos últimos quinze anos atravessados, idade de ser homem e suceder. Emergiram as águas da consciência, a água corre para o mar, e com cristalina claridade viu, viu-se: falhara a vida.

Restava-lhe a redenção pela obra. Se a fortuna se lhe negasse outra vez, e também os Lusíadas e o Parnaso, por ora desaparecido, se desaproveitassem, então, mais valia que também ele tivesse morrido na costa do Sião.

A invernação da nau que haveria de o resgatar chegara ao fim e para ele cumpriam-se dois anos de penitência naquele lugar de pagar ou morrer - a aridez era tal que não permitia mais do que meia dúzia de palmares e hortas de míngua, nada se dava senão a fome, a doença e o comércio. Para este, uma abundância de âmbar e marfim das Querimbas, sândalo e escravos de Madagáscar, milho, arroz, e carne das terras de Pemba. Comerciassem. Ele pagara o preço da vida e sobrevivera.

Era a hora do retorno. Ainda antes lhe escreveria uma carta. Queria contar-lhe tudo. Se amar é conhecer, antes de morrer que ela o conhecesse para que, mesmo saindo deste mundo embrulhado em lençol de outros, resplandecesse da luz que não se extingue. Agora mesmo começaria:

Tantos, tantos erros, meu amor, e dos acertos só a dois cuido de dar de comer para deixar crescer em esperança: as palavras para o mundo, e quem sou, para os teus olhos.



Ps: O Parnaso nunca apareceu. Os Lusíadas publicaram-se e a lírica. E também estas cartas. Desde 2011, pela G&P, em dueto com os poemas numa edição tão cuidada. Porque um livro também é um objecto da beleza.

21 de junho de 2014

Amor canibal... que nojo tão bom

Agora que penso nisto, escrever é um amor canibal: o texto, poesia, ficção, auto-ficção, não se alimenta só dos outros textos de outros autores, o clássico canibalismo mais do que falado. Há a vida real, imaginada e fantasiada dos outros, e de eus potenciais, todo um povoamento e seus fantasmas transubstanciados em letras. Ah!, mataste-me no teu romance. Eu?, eu não, eu gosto de ti: tu foste só o ponto de partida para a minha alter-realidade: as ficções.

Bonjour Verão!

běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì
yí gù qīng rén chéng zài gù qīng rén guó
nìng bù zhī qīng chéng yǔ qīng guó
jiārén nán zài dé
lai lai lai lai 
běifāng yǒu jiārén juéshì ér dúlì lailailailai

Sim, tem razão, saudamos sempre o Verão e o Inverno da mesma forma - é para eles saberem que somos nós.

20 de junho de 2014

O meu primeiro amor


O PRIMEIRO AMOR

O meu primeiro amor foi tudo quanto um primeiro amor deve ser, mas naquela altura eu não sabia nada de amor. Já o meu coração devia saber a potes porque só de ver o primeiro amor punha-se a pular-me do peito para a garganta, da garganta para o peito, um elevador desgovernado, parecia que o coitado queria falar, e eu que só o queria calar... Que nervos passei com o primeiro amor a fazer-me nonchalant para compensar o desatino cardio-elevatório. Desde a primeira hora, no primeiro dia. Pode dar-me lume, por favor? Não queria dizer não fumo para não parecer bebé. Não tenho isqueiro. Ofereceu-me um cigarro, não, muito obrigada. E zás. Passa-me o isqueiro para a mão. Acendi-lhe o cigarro. Foi assim. Bem, quase. Depois acompanhou-me e à minha amiga parte do caminho e, de repente, à frente da gelataria, atirou a carteira dele para dentro do meu saco e, num segundo, desata a fugir, e grita-me já longe, amanhã, aqui, às três, preciso dos documentos.
Fiquei petrificada. Nunca tinha visto nem ouvido nem sabido de ninguém assim. Fiz planos de lhe dizer poucas e boas no dia a seguir. Ao que parece os planos estavam a mentir.
Quando o primeiro amor me dava a mão, dava-me logo o céu inteiro e só quem nunca deu a mão ao primeiro amor é que pensa que andar nas nuvens é cliché ou metáfora. Eu andava com o primeiro amor, o primeiro amor andava comigo porque aos dezasseis anos namorar era andar e nós andávamos de facto: fazíamos quilómetros nós, os dezassete anos do primeiro amor e os meus dezasseis, a baixa toda para cima e para baixo, do alto ao jardim, tanta piscina, meu Deus. Só de mão dada que coragem para o primeiro beijo no primeiro amor, nada.
Os dezassete anos do meu primeiro amor eram tão giros que eu nem sabia do que havia de gostar mais. Tinha um cabelo muito fino e farto, acinzentado escuro de ter sido louro em pequenino e ainda ser loiro claríssimo na raiz do cabelo sempre despenteado e muito bem cortado, nas sobrancelhas, nas pestanas atrás dos óculos de lentes grossas bem disfarçadas, os olhos ficavam pequeninos e cresciam como os do lobo se os tirava para os limpar. Gostava dos olhos, do olhar e dos óculos do primeiro amor: os aros fininhos  em cor de prata ou de lata baça, nem sei, se vistos perto, pertinho à distância dos beijos que depois nos fartámos de dar, eram todos gravados em finíssimos arabescos, se estilizados ou vegetalistas, não posso dizer, o que sei é que ao perto até deixava de ver, era uma tontura que a falta de distância me dava, e nem o ar me chegava se ele me abraçava. E ele abraçava tão bem, beijos tão bons, que só me apetecia fechar os olhos e cair. Enfim, fechava os olhos. O primeiro amor andava sempre em braços mesmo com um frio de rachar, as mangas das camisas dobradas. Tinha uns braços fortes, bem desenhados, tinha força e estava-se lá tão bem: abraçados e de mãos dadas, apertadas, que exagero perfeito de primeiro amor, não apetecia nunca largar.
O meu primeiro amor sabia tudo de filosofia e de literatura, e eu aprendia com o meu primeiro amor. Ele até gostava de Eça, sabia Eça e uma coisa dessas é boa quase demais. E quando falava, sorria um sorriso, às vezes até ao riso. O meu primeiro amor era expressivo e tinha um humor corrosivo. Fazia-me rir. Usava calças de ganga. Sempre. E que bem que cabeça lhe assentava no pescoço, o tronco lhe assentava nas pernas, e aquele andar calculadamente descontraído tinha um nervoso escondido - que alegria era vê-lo a caminhar na minha direcção.
O meu primeiro amor e eu fazíamos esplanada, nem que fôssemos os únicos na sibéria gelada. Ele pedia uma bica e como gostava daqueles beijos com sabor a café, comecei a beber café também. Nunca mais parei de o beber.
Um fim de tarde, já era de noite, íamos de mão dada, ele ia levar-me à porta de casa. Foi então que o primeiro amor e eu tivemos uma mínima discussão: o primeiro amor tinha vício do rigor e da exactidão e eu disse uma patetice, por distracção, chamei Camilo ao Eça do Primo Basílio. E ele fez pouco de mim, era um tonto nestas coisas assim de ser dono da verdade e ter a última palavra – era importante para ele e eu não me importava.
Mas foi nessa altura que me disse a coisa mais bonita que um primeiro amor poderá alguma vez dizer, ainda por cima era verdade, pensou que ia morrer. O meu primeiro amor fumava, não cheguei a contar? De repente, calmo, mas de olhar muito aberto directamente no meu, pára, põe a mão no peito, a outra mão sempre na minha mão:
- Gosto tanto de ti que acho que vou ter um ataque de coração.
Os fósforos no bolso da camisa onde estavam também os cigarros tinham pegado fogo.
Depois do susto riu-se tanto do incêndio que o riso ainda hoje me ilumina.
Acabou porque tinha de acabar, porque era bom demais para durar. Fartei-me de chorar por causa deste primeiro amor. Ninguém teve um primeiro amor mais amor do que eu.

Visão, tenha duas: para começar, quero ser filha da minha mãe e do meu pai


Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

PARA COMEÇAR, QUERO SER FILHA DA MINHA MÃE E DO MEU PAI


Quando éramos pequeninas perguntavam-nos: então, a menina é filha de quem? Outra pergunta comum era: o que quer ser quando for grande? A resposta que ainda hoje recordo foi dada à segunda pergunta por uma colega minha de colégio: quando crescer quero ser filha da minha mãe. Todos queremos. A nossa mãe é a melhor do mundo e tão bom como ela só o nosso pai. Se tivermos sorte, muita sorte, isto acontece à grande sombra tutelar de frondosos avós.
O que é ser filho de pai desconhecido quando se conhece perfeitamente o pai? Não sei. Posso imaginar, mas não posso saber. O que é recusar a paternidade a um filho sabendo até ao osso que é filho? Até posso perceber as razões conjugais, paterno-filiais, económicas e sociais da negação, mas não posso saber.
Tudo de ser pai ou mãe me é estranho excepto na qualidade de filha, a única que exerci e exerço. Não sei o que é ter um filho, não sei o que é estar grávida, e de repente, uma criança, uma vida, uma pessoa inteira em si mesma. Posso compreender, mas não posso saber. Se quiser ser purista até posso acrescentar que sim, é verdade, ao longo do dia somos pais e mães tantas vezes, e logo de pequeninos com as nossas bonecas, chorões, irmãos, amigos, e até mesmo com os pais ensaiamos esse exercício.
Creio que esta questão não tem que ver com a inteireza da pessoa, é-se inteiro mesmo sem história de presépio que possa contar-se: a família pode reflectir-nos ou não. E nós a ela. Pode até ser um lugar de fuga para outro eu florescer – ser-se mãe e pai de si-mesmo. Também se negam pais. E nem é preciso ir tão longe nos actos. Negam-se até várias vezes por dia: separamo-nos e construímo-nos também pelas diferenças que elegemos. Não está em causa o inquestionável valor da pessoa. O está em causa, afinal?
Como se levanta uma comunidade, uma empresa, à imagem do quê, de quem? Da família e das monarquias. Sabêmo-lo de cor nesta Europa em que o poder tal como as grandes marcas, e fora da Europa, as marcas europeias, privilegiam um modelo claramente monárquico, dinástico, de corte, representado na família e nas alianças inter-familiares. Porquê? O que é a família se não for um útero alargado, o lugar da segurança, das inter-dependências e independências medidas pela trela extensora? Porém, comunidade ou empresa, são sempre pessoas que aprendem a ser pessoas por mimetismo e dissemelhança. É um modelo. Corresponde a uma necessidade. Há outros modelos. Porque há outras necessidades - por exemplo: sou republicana, e convicta, por isso prefiro as afinidades electivas, salvaguardando a família para relações de outra expressão. Todavia a primeira aprendizagem é aquela, a da dinâmica eu sou/faço como tu-eu sou/faço diferente de ti. Pode-se, ou não, ir além dela. Como em tudo: a satisfação de uma necessidade básica e funcional tem de estar garantida antes de qualquer outra.
Penso que uma questão deste fundo da natureza humana, do mais fundo da nossa natureza, deste fundo onde se replicam tanto quanto se reduzem à escala do eu as grandes questões quem sou, de onde venho, para onde vou, portanto, a procura de significado e sentido, tem de ser tratada legalmente, e de base.
O que quero dizer? Tão simplesmente que à partida a lei deve conceder-nos igualdade de direitos. Não diferença. A diferença deve constituir a excepção seja por mérito ou por demérito. Se não há um pai, ou uma mãe, identificados ou identificáveis, não cabe, não deve caber ao filho, nem a um dos progenitores, a confirmação ou a averiguação da paternidade ou maternidade em falta. Mas sim à lei. Logo. Imediata e automaticamente. O direito a uma mãe, o direito a um pai são do superior interesse de qualquer criança. Uma comunidade que não saiba isto, não merece os seus filhos.

Visão, tenha duas: o que é um pai?, por Manuel S. Fonseca


Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


O QUE É UM PAI?
A beleza de um rosto de mulher, a esculpida beleza de uma actriz, está hoje a encher a capa da Visão. Essa mulher não é, ao contrário do que normal e logicamente acontece, filha do seu pai. Há um homem que recusa a paternidade que ela lhe atribui ou reclama. O que me obriga a perguntar, o que é um pai?
Um pai que se recusa a ser pai pode ainda ser um pai? Uma filha (ou um filho) aceita os seus pais, ainda que não possa ter a certeza de quem eles sejam. Esteve, por força das circunstâncias e de uma inapelável lei da causalidade, ausente desse momento em que um homem e uma mulher a conceberam. Então, como é que uma filha pode saber quem é um pai?
Um pai é essa presença que um filho – ou, no caso vertente, uma filha – reconhece por lhe ter cantado ao ouvido na primeira noite de choro e cólicas. Um pai é essa mão macia e firme que a segurou no banho enquanto a mãe lhe passava a esponja. Um pai é o tipo atrapalhadíssimo – a mãe a gritar da cozinha, tens de ser tu a mudar-lhe a fralda que eu estou a fritar batatas – que pela primeira vez, começando com toalhetes perfumados, dois dedos já sujos (ó meu Deus como aquilo se mete debaixo das unhas!), o lençol branquinho da cama em, que se lixe, último recurso, lhe limpou o rabo, soltando ahrrs e outras exclamações guturais de profundo horror, doido por ir afogar o susto e o cheiro nuns finos da tasca de caracóis da esquina. Um pai é o ignorante em pânico que entra pelas urgências da Estefânia, a pôr a laringite estridulosa, com que ela dá show de bola, à frente de traumatismos e fosse lá o que o raio de tantos aflitos e febris filhos dos outros tivessem.
Uma filha sabe que tem um pai quando ele lhe fala interminável, profusa e veementemente de coisas horríveis de que ela não quer saber nem em sonhos: vinte e dois tipos a correr atrás de uma bola, foras-de-jogo, clamorosos erros de arbitragem. E esse pai sabe que é um pai porque a ouve dizer, entre o desabafo, um começo de feminina fúria, um ponto de exclamação que é quase um juancarlista “porque no te callas”: “PAI!” O tipo que a seguir se cala, é, garanto-vos, um pai. E é um pai o tipo que já não sabe se há-de rir ou se há-de chorar, quando lhe oferece uma Barbie, e essa filha que já sabe muito bem, com um raio de um imenso carinho escondido, que ele é pai, lhe diz: “É a terceira Barbie africana que me dás.”
Um pai é um tipo que não tem jeito nenhum, factor essencial para uma filha reconhecer um pai. Pai é o terceiro excluído, o que ouve uma mulher dizer, “agora, vai lá para dentro que a tua filha e eu precisamos de conversar as duas.”
E apesar das incongruências, da canhestrice, do ostracismo de género a que é votado, um tipo sabe que é pai. Esse pequenino amor condescendente de um beijo na testa, de uma festinha mais à bruta que lhe faz cair os óculos, é uma forma feminino-filial de dizer: “Não és mau de todo, coitadinho, és meu pai.” É um amor do tamanho de um bago de arroz. Mas é um bago de arroz-doce.
É preciso ser-se um grande aborto jurídico para se recusar um amor de arroz-doce.

19 de junho de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - Caleidoscópio quer dizer amo-te

A day without laughter is a day wasted. Quem disse e estava certo?

Ps: não sei quem inventou o YouTube, mas, my friend inventor, caleidoscópio. E merci.

17 de junho de 2014

FLOR DE SANGUE

Um rico leitor perguntou por este post e vídeo. Fez bem, era mesmo o que me apetecia ouvir e nem sabia. Aqui tem o post, está em Março de 2013, ali na barra à direita. Qualquer coisa é só pôr umas palavrinhas chave na Caixa  Farejar que o Cão, zás, fareja... Mas este post também está aqui, ora veja. Merci


GIRLS ON FILM: MEIKO KAJI
FLOR DE SANGUE

Quando era pequena, todos os dias o mundo mudava: todos os dias havia um filme novo no cinema. Jerry Lewis. Bruce Lee. Marisol. John Wayne. Gene Kelly e Fred Astaire e só uma Cyd Charisse para os dois. Ninguém queria saber se o filme tinha vinte ou cinquenta anos, ou se tinha passado dois-fins-de-semana antes, ou saíra ontem: era sempre novinho em folha no tempo em que as heroínas do cinema indiano cantavam com a voz da minha Lata Mangeshkar. Os títulos? Como não há, creio mesmo, nunca houve, nem então. E as meninas dos filmes, tão lindas, de uma pessoa querer crescer durante a noite enquanto dormisse para acordar crescida assim. Mas melhor que tudo eram as tragédias e as vinganças… ó drama bom.



Lady Snowblood é um filme de Toshiya Fujita, dos anos setenta. Lady Snowblood, Meiko Kaji, é Yuki, uma assassina. A família foi dizimada e ela parte em busca da vingança que obterá. A música, tão bonita, Shura no Hana,  foi muito bem reposta nos nossos ouvidos quando Tarantino fez Kill Bill - e ele usou-se, também, de parte do imaginário de Lady Snowblood, e mesmo da imagética, basta olhar para a morte de O-Ren Ishii na neve. E agora, em Django, o sangue nas flores brancas vem de lá.
Esta é a inesquecível canção, ouça todinha. E em baixo, tem a letra contada, vá, fielmente, em português, a partir das traduções disponíveis, em espanhol e inglês, no YouTube, ao meu jeito, pois então - a linda mais que linda Meiko Kaji, que é também quem a canta, sim, bela e talentosa, não vai zangar-se comigo -, ela sabe que são tão boas estas histórias: têm o drama mais infantil, o da cor do sangue, o herói solitário contra o mundo, desprotegido como uma flor. São mais que boas estas histórias, sejam a oriente de olhinhos em bico ou a oeste de cowboy. E na tela voltamos à quase sempre impossível simplicidade do bem e do mal.


Shura no Hana - Flor de Sangue
A neve, branca de luto, cai sobre a manhã morta, e assim ela caminha com o peso dos céus sobre os ombros e abraçada à noite escura dentro de si. O barulho das sandálias, o latido de um cão longe, atravessam o vento de lâminas e a sombrinha de papel é tudo o que tem para o enfrentar. É o caminho que guia os passos de quem há muito desistiu das lágrimas. Eis o rio. As lanternas que alumiam os viajantes estão apagadas. Os grous imóveis: gelaram de frio. E o vento. A neve. O cabelo, que despenteado, e a sombrinha de papel reflectem-se na água fria, mas nem uma lágrima sua acrescerá ao leito das águas. Nada sente quem deixou o desgosto onde deixou o coração. Desejos. Sonhos. Ontem. Amanhã. Bondade. Justiça. Palavras sem significado para a vingança: esta mulher vai matar quem a matou, vai recuperar o seu tesouro de lágrimas.

You will be alone with the gods and the nights will flame with fire

Quando comecei a fazer yoga tive de aprender uma catrefada de nomes de posturas - nem sabia o que queriam dizer. Mas o pior nem era isso, nem sequer o sentimento de grupeta semi-religiosa-espiritual, nem a cantoria, nem ai o guru laru. O pior era a alergia que o incenso barato me provocava: olhos na maior miséria, vá de espirrar, e a respiração, coisa básica, porém fundamental, toda desgraçada. Assim que atingi o nível mínimo de independência daquela zona militar, e graças à bendita Amazon, mandei vir vídeos de diferentes escolas de yoga - as tais capelinhas. E pratiquei. E pratiquei. Até poder dizer, pronto, agora vou sozinha. Entretanto, e por acidente Amazónico, descobri o anti-estilo e nenhuma escola de Tara Stiles. De vez em quando, quando me apetece companhia, faço as aulas dela.


Yoga é buscar dentro a força que lá está. Bukowsky sabia-a toda e nunca precisou de tapete.

15 de junho de 2014

O Senhor Cão

O Senhor Cão ainda muito amachucado no dia em veio para casa, ó, desdentado... 


O Cão
foi muito valente:
operado de urgência,
todo entubado,
foi um resistente,

e ficou com um só dente
da frente.
Ó.
Tem todos os outros
e os lindos caninos,
mas para o ex-sorriso
faltam dentinhos.
Faz mal? Não.
Privilégios da canina idade:
é um belo e desdentado
Senhor Cão.






Em resposta às Tristes meninas, Maria João e Rita.

Visão, tenha duas: Quem nos roubou o prazer?


Meia-Noite na capa Visão. O Manuel S. Fonseca e eu vá de gastar os pixels ao tio Rubens. Mas já se sabe, lailailai e tal está no olhar de quem vê. E o querido leitor que lailailai viu?



“Visão, tenha duas”




Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.

QUEM NOS ROUBOU O PRAZER?
Quem/ nos roubou/ o prazer/ de existir?// Porque/ nos roubamos/ o prazer/ de existir? perguntou aqui há uma dezena de anos Adília Lopes.
Lembrei-me logo de Adília Lopes quando vi Rubens aqui plasmado, montado e opulento, cheio até às coxas do cavalo, transbordante no seio.
Engordei 43 kg
de 86 para cá
agora
gorda como estou
já caibo
num quadro de Rubens
(segundo o Osório Mateus
no meu caso
era mais fácil
entrar para o quadro
de um pintor
que para o quadro
de uma empresa).
O prazer anda na cama com a estética de um lado e com a ética do outro. É um triângulo amoroso clássico: ao meio, bem aconchegado entre as duas faces tão diferentes da bela mesma moeda deita-se o homem e abraça as duas - sim, sem dramas, onde diz homem pode ler mulher ou o que lhe der na telha de géneros fluídos, quero lá saber.
Mas antes. Faz amanhã uma semana que estive de esplanada com a minha mãe. A prestar atenção. As crianças engordaram muito. Os adolescentes. Mesmo os pés transbordam das sandálias e as mãos são papudas. E por outro lado, mas pelo buraco da agulha, o oposto disto: miúdas escanzeladas. Os corpos extremam-se em excesso e falta de peso, sendo que o excesso é penalizado e a falta recompensada.
Se à gordura atribuímos o valor da decadência, da doença e da morte, tal não se passa com a magreza. Notou como o magro, o Estica, o par do Bucha, desapareceu do anedotário? A Olívia Palito é, desde os anos sessenta, setenta, e na sua puberdade envelhecida com suplementos de silicone nas mamas e lábios, um dos anjos de Victoria´s Secret. Não me entenda mal, eu gosto do estereótipo destas meninas-mulheres de fantasia, tão bem despidinhas, umas bonequinhas. Para brincar. As medidas de uma mulher são outras. Ora, vá lá ver o site para encomendar umas gracinhas para confirmar que para a tia Vitória isto não é segredo nenhum.
O referente da juventude e da magreza aproxima o corpo feminino do corpo masculino. Já reparou como os pré-adolescentes se assemelham: as meninas mal têm maminhas e ancas, os meninos ainda não alargaram. Este é o corpo das passerelles. Então, pergunto, que desejo sexual é nosso? Na idade adulta, este corpo, e desejo de o possuir para si mesmo, ou de se apossar dele, não será narcísico? Se além de si mesmo, só contempla Eco, o eco de si mesmo, cristalizado, ainda mal pubescente... Incapaz de sair de si, não é um corpo de prazer. É um corpo de sacrifício à fantasia - e é aqui que começa o pesadelo: fonte da juventude, ausência doença e promessa de imortalidade.
A opulenta menina de pequena maminha, hoje com menos do que uma copa C, e um metro e setenta para cinquenta quilos de peso, não serviria a Rubens de modelo, ela que segura os louros enquanto sopra ao ouvido do rei memento mori para conter o eu insuflado como um balão pela glória do nascimento e das obras.
Há quanto tempo ninguém nos sussurra ao ouvido lembra-te de que morrerás?
O prazer deslocou-se para o corpo ao espelho ou para corpo na montra real e virtual - como nas fantasias de ser e ter?
E a alegria do corpo, o prazer lírico do corpo, o prazer lúbrico do corpo enquanto a morte, que pode esperar, ronda? Porque nos roubamos o prazer?

14 de junho de 2014

Gaja tansa...

POEMA DA MULHER MANSA
À mulher mansa, gaja tansa, dá-se música
e ela dança – a mulher mansa merece tanga.
Pode-se mentir que a bichinha nem ai nem ui,
pode dizer-se-lhe fui ali quando não, não fui.
Ninguém sabe desperceber melhor do que ela,
raio de manso mistério, luz escura de uma só vela.
À mulher mansa põe-se um par de cornos vezes cem,
e mesmo à frente dos olhos também, não é meu bem?
A mulher mansa não é só bailarina, não é só cega,
a mulher mansa tem uma coisa de puta, mulher, amante
ou amiga, filha ou irmã, nunca se nega,
ou será uma coisa de cão? Rola, deita no chão, dá a pata
linda menina, agora já chega, não seja chata.
A mulher mansa muito de quando em vez
faz drama para não deixar crescer a chama.
Se a mulher mansa se chateia, cuidado, incendeia.



13 de junho de 2014

Visão, tenha duas: o homem de cabelos brancos, o rapaz de calções, por Manuel S. Fonseca


Já sabem que todas as semanas, a Eugénia e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.

“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


O HOMEM DE CABELOS BRANCOS, O RAPAZ DE CALÇÕES
Do canto supe­rior direito da capa da Visão, Frei­tas do Ama­ral olha para Cris­ti­ano Ronaldo. “Nasci, como tu, a chei­rar o mar,” pensa. “Que dife­rença há, afi­nal, entre a Póvoa de Var­zim e Santo Antó­nio do Fun­chal? Não há nada que tenhas feito que me seja estra­nho”, sussurra-lhe.
O homem que está no canto direito da revista Visão, num peque­nino selo foto­grá­fico, um cromo quase, olha para baixo, para o per­feito atleta com a cami­sola das qui­nas, como quem olha para o colosso de Rodes. E pensa que a radi­osa máquina de mús­cu­los, esse corpo enxuto, rápido e efi­caz, é que sabe pouco. “Sabes lá o que era nes­ses anos de chumbo do pro­fes­sor Sala­zar (anda­vas tu a sal­tar de galác­tica nuvem para nuvem), licenciar-se um tipo na vetusta Facul­dade de Direito em Ciên­cias Político-Económicas e três anos depois, com os mais ino­cen­tes 26 anos, arran­car o dou­to­ra­mento em Ciên­cias Político-Jurídicas?!”
O homem de cabe­los bran­cos, rosto maciço, um travo amargo e baixo no olhar, sabe que fez o que era certo e era pre­ciso ser feito e, no entanto, há um lín­gua de silên­cio que o invade, um gomo de res­sen­ti­mento que o aniquila.
Tal­vez não acre­di­tes – e já é uma noc­turna maneira deste homem fechado num peque­nino qua­dro do canto supe­rior direito de uma revista, falar con­sigo mesmo –, mas era bem capaz de tro­car o meu reino, por um dos teus peque­nos sal­tos de cavalo. Os livros que li e os livros que escrevi, as minhas bata­lhas cons­ti­tu­ci­o­nais, as vitó­rias e as der­ro­tas polí­ti­cas, a Ordem Mili­tar de Sant’iago de Espada, a Ordem da Estrela Branca da Estó­nia, a pompa e cir­cuns­tân­cia dos meus palá­cios, o cal­ci­nado silên­cio dos meus ban­que­tes, a rede maligna dos com­pro­mis­sos, dei­xava tudo, de tudo abdi­ca­ria, pela ale­gria física de um golo, pela explo­são ful­mi­nante de um sprint, pela glo­ri­osa irre­ve­rên­cia de um dos teus slaloms.
Sei tudo sobre o con­ceito e natu­reza do recurso hie­rár­quico (que tu olim­pi­ca­mente igno­ras), conheço Maqui­a­vel e Erasmo, as linhas essen­ci­ais da reforma do con­ten­ci­oso admi­nis­tra­tivo e só me vem magoar-me a cabeça o verso do poeta: “Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.” O que eu que­ria, esse meu per­dido Rose­bud da Póvoa de Var­zim, era um golo, a des-ideológica mul­ti­dão num está­dio, o mer­gu­lho na relva, o embru­lhado e sin­cero abraço dos outros joga­do­res, a cabeça leve, o cora­ção puro.
Da pequena janela, canto supe­rior direito da capa de uma revista, o homem de cabe­los bran­cos con­fessa a um rapaz enxuto: “Tive tanto no meu cére­bro, tão pouco nos meus pulmões.”

Visão, tenha duas: os meus sete mandamentos diários



Já sabem que todas as semanas, o Manuel S. Fonseca e eu nos pomos a olhar, Tristes, para a capa da revista Visão. E depois, cada um escreve o que lhe vem à cabeça.  Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Ora leiam lá, se faz favor.


“Visão, tenha duas”

Ps: o Cão é territorial, traz o osso dali para aqui, e o outro osso também.


OS MEUS SETE MANDAMENTOS DIÁRIOS
1. Deitada antes de levantar recitar de cor a síntese de um poema de Paul Flemming com dois Provérbios Bíblicos:
Do fruto da minha boca se fartará meu ventre, da novidade dos meus lábios se fartará, pois a morte e a vida estão no poder da língua e aquele que a ama comerá do seu fruto e eu amo-a: dou sem nada perder, não cedo à morte, de tudo quanto me for devido e negado, muito mais me será dado. O que me aflige, o que me encanta foi-me destinado. Faço o que tenho a fazer, venham lamentos ou louvores, sortes ou azares. Tudo está em mim, o meu nome é Vida, não há no vasto mundo sobre o que não decida.
2. Este é o dia que Vida fez. E estas cinco bênçãos estão na minha mão – partilho-as todas mas a ninguém digo quais são. E obrigada pelo Cão.
3. Em jejum uma chávena de água quente com limão. Um sumo verde a caminho da sala e o tapete debaixo do braço para yoga e meditação – a minha irmã diz que bebo relva, respondo-lhe, pois sim, sou Jane na selva, só me falta o Tarzan. Depois, café. Um. Dois. Expressos bem tirados. Três. Ou de cafeteira e o cheiro… ah! meu mundo bom. Comer todos os dias uma coisa vermelha e outra deliciosa: uma romã, framboesas, caril de camarão, ou sushi, um gelado ou húmus no pão. Ter a alegria da água, a do duche, a do mar, a da chuva, até a da piscina - com água toda a alegria rima.
4. Escrever um verso ou um poema. Um capítulo. Um texto. Ou uma linha qualquer que ela seja. Mesmo se para a rasgar.
5. Ouvir música. Ver dança. Saloios do Tennessse, talvez ballet, talvez Bach, talvez não, jazz ou blues a fingir que a mão na mão. E ler. Nem que seja um só poema, um ensaio, a caixa dos tampões. Ver o céu, o mar, o verde – um filme, ou uma cena feliz, Donald O´Connor em Make ´Em Laught, Gigi em The Night They Invented Champagne, um histórico Sinatra com Dean Martin, um espisódio de Friends. E repetir A Guerra dos Tronos. E dançar uma música que me faça rir de mim e da música. E andar de bicicleta. Ir ao ginásio. Ou fazer o NYCB Workout. Ou tudo. Depende da condição do esqueleto, nervos e musculatura. Ou não fazer nada se estiver em dia de ter a alma em miniatura. Mas nem assim deixar de pôr rímel nas pestanas e de ter bem pintadas as unhas de encarnado, fundamental ao bem estar geral e ao preto do teclado.
6. Falar ou estar com um amor – ou pensar nele: os sobrinhos, a mana, ou o amado, a amiga, dizer querido, querida.
7. Deitada antes de dormir. A pele hidratada. O cabelo penteado. E recordar uma, duas, três, quatro, cinco, dez coisas felizes de hoje e agradecer, obrigada. E explicitar um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para amanhã. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para a semana. Ajustar, um, dois, três, nunca mais de três prazeres-deveres, para um mês. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para o ano. Adequar. Voltar a ajustar. Um, dois, três, nunca mais de três, prazeres-deveres para a vida. E um sonho. Impossível. Vê-lo. Minucioso. Realizado. Dizer: este foi o dia que tinha de ser para chegar onde era impossível: obrigada. Respirar por uma só narina, a esquerda, cinco tempos lentos, parassimpáticos, para relaxar. E por fim, dizer amote ao meu segredo.