30 de maio de 2014

Visão, tenha duas - Uma europa na piscina, a outra na tina


Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
UMA EUROPA NA PISCINA, A OUTRA NA TINA
O salário médio bruto, sim, bruto, em Portugal, é de 914 euros. A pensão média é de 420 euros. Um agregado familiar com rendimento bruto, volto a repetir, bruto, de 1380 euros mensais faz parte do quarto mais rico da população - também para efeitos fiscais, e nem vou referir essas devidas contribuições.
Imaginemos esses 25% de privilegiados, os dos brutíssimos quase 1400 euros… Grandes malucos! Viverão num T2, serão um pai, uma mãe, um vírgula dois filhos, o que quer que isso seja, com as naturais despesas de qualquer família: habitação, logo, hipoteca, não esquecer o imi, condomínio, água, luz, gás, telefone, televisão, internet, alimentação, vestuário, saúde, transportes, despesas escolares. Se este é o melhor quarto, como serão as outras assoalhadas?, quero dizer,  como vivem os restantes 75%?
Penso que viver estará fora de questão quando apenas se sobrevive. Culquê? Cultura? Só se for de fungos no queijo fatiado de marca branca, luxo de ricos, coisa de uma vez por outra, ou sorte de banco alimentar.
O salário mínimo português, em paridade de poder de compra dentro da União Europeia, caiu em 2014 para 80%, isto é, não converge, diverge. Abaixo do nosso real poder de compra, portanto, ainda com menos poder de compra e mais divergente da média europeia, e por ordem decrescente, temos a Letónia a dois pontinhos percentuais de nos apanhar na loucura consumista, compra! compra! compra!, ó doidivanas do cartão de crédito, porque é que não poupas, queres comer e pagar a luz?, seu guloso, a Hungria, a Croácia, a Eslováquia, a Estónia, a Lituânia e poucos mais já abaixo dos 50%. O Luxemburgo também diverge bastante, mas por razões inversas, 191% delas para ser exacta.
Quando se pensa em mobilidade social, em regra, pensa-se em ascensão. Deve também pensar-se em queda. A nossa classe média está a empobrecer e os pobres estão mais pobres. Uma classe média forte e dominante é o objectivo de qualquer nação - sendo as franjas a riqueza e a pobreza, mas aberto o combate a essa pobreza que nos reduz a todos em potencial de ser.
Apesar de pobres, agimos tais ricos e perdulários, jogadores das vidas de outrém como da nossa: sobrecarregamos as pequenas e médias empresas ao limite, o nosso próprio tecido de sustentação; atiramos os jovens aos velhos como os leões aos cristãos no circo de Roma; aumentamos o iva da restauração; levamos classes profissionais inteiras ao quase desespero e ao desemprego enquanto empacotamos jovens licenciados aos milhares, e não tão jovens e em grande número, com a formação paga maioritariamente por esta classe em queda imparável, e enviamo-los para os países, pasme-se, ricos. Sim, também para o Luxemburgo - e, vá, despachamo-los de igual forma para a Irlanda, esse mistério celta penhorado por um lado mas por outro nem por isso.
Por cá, enfocamos a atenção na captação e fixação de cidadãos europeus, não portugueses, claro, a troco de benefícios fiscais e imobiliários, e de cidadãos não europeus a troco de Vistos Gold, coisa onde rebrilhe o novo riquismo que é bem melhor, reconheço, do que novo pobrismo. Acho mal? Não. Montes de países o fazem ou equivalente. Não é essa a questão. É a falta de uma acção coordenada e dirigida para um mesmo objectivo: o enriquecimento do país, da economia à cultura, a renovação geracional, não o sangramento de país e povo. Porra!, se são bons lá fora que tal ficarmos com eles em vez de pagarmos para os mandarmos depois embora? Esses que vão, já o disse, terão filhos, gerarão riqueza, enfim, farão classe média. Lá. Não saíram para fazer mais uma formação. Não é da excepção hiper-diferenciada e baseada em qualquer aeroporto do mundo mais do que na própria casa de que falo. Classe média, pura e simples. Farão. Lá. Cá, agora, continuamos a sangrar, a empobrecer, e a envelhecer.
Portugal não é a puta que serve a clientela em busca do eldorado para lhe branquear o dinheiro emergente. Nem é a criada dos estrangeiros europeus. Portugal é Europa, a Europa mais ocidental: atlântica e mediterrânica – são duas valências. E a Europa é, antes de mais, uma ideia fundamental de paz e democracia sustentadas tanto pelo pensamento político quanto pela economia que o permite. Há dignidade e honra nisto. Há futuro nisto. Mas entre a esmagadora abstenção e a escalada da extrema direita, a Europa vem abaixo como a nossa classe média, não se faz, rarefaz-se: mal se respira para chegar ao fim do mês. Esta economia de uma europa na piscina e outra europa na tina, não nos permite uma ideia de Europa: onde não há pão, não há pensamento.