Olhar é Triste. Eugénia de Vasconcellos e Manuel S. Fonseca apostaram escrever um post semanal a partir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coisas diferentes? Neste seu EeT, no primeiro minuto de cada sexta-feira,
"Visão, tenha duas"
ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui. E o outro osso também.
VISÃO, TENHA DUAS
O 28 DA CARRIS
O 28 DA CARRIS
A primeira vez foi numa locomotiva. O comboio estava parado onde os comboios paravam e o Ferroviário treinava. Entrámos à surrelfa na locomotiva e conduzimos um comboio que não saía do sítio. Fizemos fotos a fingir de maquinistas. E a locomotiva não tugia nem mugia: nem um apito, nem uma nuvem de vapor.
A segunda foi no Aeroporto que hoje é 4 de Fevereiro. Philip K. Dick nunca adivinharia, e muito menos H.G. Wells, que um dia se faria terrorismo de avião. Numa noite desses tempos longínquos, entrámos num avião parqueado bem dentro do hangar. E que me caia já um braço se não era um Friendship. Eramos uns miúdos de 15 anos e tínhamos um amigo que trabalhava na manutenção. O Friendship estava por nossa conta e avançámos para o que interessava, o cockpit. Sentámo-nos onde se sentam os pilotos e mexemos em tudo o que os pilotos mexem. Ao contrário do imóvel e silencioso comboio, o avião, ofendido, respondeu-nos. Resfolegou como um cavalo e tivemos a sensação de que o focinho ia tombar e furar o alcatrão. Pernas para que te quero, fugimos cobardemente ao desafio, saltando da montada.
A olhar para esta capa da “Visão”, para este amarelo da Carris, foi isso que eu vi. Mostram-me Lisboa e eu vejo Luanda. A carreira 28, que vai do Martim Moniz aos Prazeres, tem mais graça do que um comboio parado, tem mais vida do que um avião que bufa. A carreira 28, que corre à desfilada pelos carris de Lisboa, é um Friendship dos transportes públicos. Sobe colinas, desce colinas. Passeia-se por igrejas, miradouros e cemitérios e quando, vencido o Largo das Portas do Sol, quer intestinamente chegar às Escolas Gerais, as ruas são tão estreitas, tão vizinhas e chegadas as varandas e as portas mais os vasos de manjericos, que as casas encolhem as barrigas para que o velho eléctrico, amarelo ou cor de turista, passe entre elas. Eléctrico, cavalo de ferro, passa então, roçando-se com a discrição de um cavalheiro tentado pela saudade que é sempre a beleza de uma velha dama.
Maquinista do mais hirto dos comboios, piloto de um avião com gases, a capa da “Visão” acordou-me sonhos de menino: para trocar definitivamente o quanto gosto de Luanda pelo quanto gosto de Lisboa, só queria que António Costa me deixasse ser, por um dia, o condutor do 28 da Carris.
