16 de maio de 2014

Visão, tenha duas: O 28 da Carris, por Manuel S. Fonseca

Olhar é Triste. Eugénia de Vasconcellos e Manuel S. Fonseca apostaram escrever um post semanal a partir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coisas diferentes? Neste seu EeT, no primeiro minuto de cada sexta-feira, 

"Visão, tenha duas" 


ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui. E o outro osso também.




VISÃO, TENHA DUAS
O 28 DA CARRIS
A pri­meira vez foi numa loco­mo­tiva. O com­boio estava parado onde os com­boios para­vam e o Fer­ro­viá­rio trei­nava. Entrá­mos à sur­relfa na loco­mo­tiva e con­du­zi­mos um com­boio que não saía do sítio. Fize­mos fotos a fin­gir de maqui­nis­tas. E a loco­mo­tiva não tugia nem mugia: nem um apito, nem uma nuvem de vapor.
A segunda foi no Aero­porto que hoje é 4 de Feve­reiro. Phi­lip K. Dick nunca adi­vi­nha­ria, e muito menos H.G. Wells, que um dia se faria ter­ro­rismo de avião. Numa noite des­ses tem­pos lon­gín­quos, entrá­mos num avião par­que­ado bem den­tro do han­gar. E que me caia já um braço se não era um Fri­endship. Era­mos uns miú­dos de 15 anos e tínha­mos um amigo que tra­ba­lhava na manu­ten­ção. O Fri­endship estava por nossa conta e avan­çá­mos para o que inte­res­sava, o cock­pit. Sentámo-nos onde se sen­tam os pilo­tos e mexe­mos em tudo o que os pilo­tos mexem. Ao con­trá­rio do imó­vel e silen­ci­oso com­boio, o avião, ofen­dido, respondeu-nos. Res­fo­le­gou como um  cavalo e tive­mos a sen­sa­ção de que o foci­nho ia tom­bar e furar o alca­trão. Per­nas para que te quero, fugi­mos cobar­de­mente ao desa­fio, sal­tando da montada.
A olhar para esta capa da “Visão”, para este ama­relo da Car­ris, foi isso que eu vi. Mostram-me Lis­boa e eu vejo Luanda. A car­reira 28, que vai do Mar­tim Moniz aos Pra­ze­res, tem mais graça do que um com­boio parado, tem mais vida do que um avião que bufa. A car­reira 28, que corre à des­fi­lada pelos car­ris de Lis­boa, é um Fri­endship dos trans­por­tes públi­cos. Sobe coli­nas, desce coli­nas. Passeia-se por igre­jas, mira­dou­ros e cemi­té­rios e quando, ven­cido o Largo das Por­tas do Sol, quer intes­ti­na­mente che­gar às Esco­las Gerais, as ruas são tão estrei­tas, tão vizi­nhas e che­ga­das as varan­das e as por­tas mais os vasos de man­je­ri­cos, que as casas enco­lhem as bar­ri­gas para que o velho eléc­trico, ama­relo ou cor de turista, passe entre elas. Eléc­trico, cavalo de ferro, passa então, roçando-se com a dis­cri­ção de um cava­lheiro ten­tado pela sau­dade que é sem­pre a beleza de uma velha dama.
Maqui­nista do mais hirto dos com­boios, piloto de um avião com gases, a capa da “Visão” acordou-me sonhos de menino: para tro­car defi­ni­ti­va­mente o quanto gosto de Luanda pelo quanto gosto de Lis­boa, só que­ria que Antó­nio Costa me dei­xasse ser, por um dia, o con­du­tor do 28 da Carris.