16 de maio de 2014

Visão, tenha duas - I Love Portugal

Olhar é Triste. Eugénia de Vasconcellos e Manuel S. Fonseca apostaram escrever um post semanal a partir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coisas diferentes? Neste seu EeT, no primeiro minuto de cada sexta-feira, 

"Visão, tenha duas" 


ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui. E o outro osso também.




VISÃO: TENHA DUAS

VISÃO, TENHA DUAS
I LOVE PORTUGAL


Meu Amor de i love u,

então, o que é isto, agora, de andar nas bocas do mundo? Ser amor de i love you, de te quiero, amor de je t'aime? E de ser um amor lindo, ai tão lindo na volta perfeita do 28? E na decadência vagarosa e lírica das paredes meias, meias desfeitas, que sobem até ao Castelo em guitarradas nocturnas para audiências estrangeiradas e locais paredes grafitadas? E lindo no cliché da luz diurna e do Pessoa, coitado, eternamente sentado, imobilizado em metálico bronzeado no… Chiado. Também o eléctrico chia uma aflição de carris acima travões abaixo. E sabe o meu amor tão lindo que, quando se respira mal, também há um chiado, um sibilo, aqui mesmo na base do pescoço onde o ar todo se afunda? Meu amor: afundo-me de tanto i love u em português pré-acordado.

Já aluguei a minha casa aos turistas do 28 da Carris para pagar a hipoteca e vivo debaixo de um telhado de empréstimo. Não é uma queixa, é uma gueixa: sou eu a fazer ao meu amor as vontadinhas todas, até as que ele não sabe que tem, de meias imaculadas, silenciosas e branquinhas, e corações desenhados a baton nas boquinhas de beijos assim, ouviu?, mandados pela distância como as cartas de antes - pois se tu love me, meu amor, eu love u more.

Mas às vezes... às vezes duvido-te, amor, desta dádiva, e não é só porque tenha a duvidávida herdada de David Mourão-Ferreira – também ele te amou de forma inteira e em sílabas métricas e nas voltas eléctricas das letras acústicas do fado. E que fardo tão leve, e o tempo, ai tão breve, para cantar-te, que uma vida nem chega, nem a tristeza tem peso, nem quando é já tarde. É tarde?

Duvido-te, amor: amas-me? E deixas-me assim tão solta como diz o velho Mano Caetano, a contares com a minha sempre fidelidade e o Deus me dará? E mais. Sabe: penso mal de ti, à noite, em voz baixa quando ninguém ouve: que amor é este capaz de desprezar o amor que lhe tenho? Talvez seja só um oportunista desses que por aí andam a fazer a pequena notícia e os grandes estragos. Ai, e se o meu amor é só mais um “Comandante” Perestrelo, explorador de corações solitários, fechados em armários, desejosos de sair para sorrir um riso bem passeado de mão na mão e beijos na boca à sombra de um lampião enfeitado de corvos recortados contra a lua? Coitadas das noivas roubadas nas carteiras e nos futuros planeados em cama de casal, e em sonhadas fardas falsas penduradas no estendal…

Pronto, já passou. Tem de perdoar estes maus pensamentos, o meu amor, sim?

E de seguida perdoar a super-abundância referencial. Mas fazer o quê, se tal como somos barro de pai e mãe, da carne de pai e mãe, somos feitos da matéria do espírito?  O meu amor lembra-se de quando Zara, não é essa!, amor maluco, a de William Congreve diz heaven has no rage like love to hatred turned, nor hell a fury like a woman scorned? Não, não é uma ameaça. É uma advertência. Olhe, a outra referência é em The Godfather iii, quando o cardeal Lamberto retira um seixo da fonte ao centro do claustro e diz a Michael Corleone, mais coisa menos coisa, cito de cor, meu amor, veja, está na água há tanto tempo e ela não penetrou nele, depois parte-o e acrescenta, seco, perfeitamente seco. Já lhe ocorreu que um dia, meu amor, seja eu o lindo amor de outro amor?