17 de maio de 2014

O Cão e eu e eu e o Cão


VAI-TE CASAR, VAGABUNDO…
Gostei de beber o belo tinto, de saborear a rica mousse de chocolate que um dia, sem aviso, desgostei. Muito completamente. Nem fui eu, na realidade, foi o meu corpo quem desgostou, caiu-lhe mal e não voltou a cair-lhe bem. Confesso que a ditadura do gosto imposta pelo meu corpo me chateou - então, afinal, quem manda aqui? Desiludam-se: não há cá mind over matter. O mais que consegui foi esta aliança mind & matter Lda, mas de vez em quando ainda nos pegamos. Isto para dizer o quê?
A minha memória ainda gosta de chocolate, de leite, de iogurte, de leitão assado, de batatas fritas. O meu corpo é que não os suporta. Mal comparado é como as pessoas que fizeram parte da nossa vida e foram tão importantes para nós: a melhor amiga e o primeiro amor que eram para sempre. A nossa memória ainda os ama quando voltamos a ter aquela idade, de olhos fechados, ai que felicidade. Mas cada um cresceu na direcção de ser quem é e agora nada temos a dizer, não há o que possamos fazer juntos, nem queremos. Parece mentira e é verdade. Voltando ao chocolate.
A minha irmã ia muito a São Tomé, numa dada altura, a trabalho. E trouxe-me um chocolate preto com mínimos, ínfimos, cristais de açúcar. Outro tão negro quanto aquele, mas com uma pitada de sal, e outro ainda com uma leveza picante e aromática de gengibre. Artesanais e todos com mais de 75% cacau. O meu corpo e a minha memória fizeram as pazes. Azarucho do caneco, não há o tal do chocolate em Portugal, ou se há não descobri onde, ainda que seja todo para exportação. Aqui há uns anos, o pai de uma querida amiga ofereceu-me umas colheitas tardias. Mais acordos de paz. Voltei a provar o vinho. E o bem que me sabe? E descobri um leite de soja saboroso, coisa quase inacreditável, para substituir o meu velho Vigor. Isto para dizer o quê?
Hoje é um dia importante. O Cão teve alta – foi internado e fez uma cirurgia grande, é um valente. Para estarmos descansados, os dois, antes de o ir buscar, tratei de ir comprar os jornais do costume, e o recomendado extra que sou bem mandadatenho uma pilha de livros já enfileirados, uma fartura de música com a direcção do meu Antonino Votto à cabeça que isto não pode ser só blues, indie, jazz e pop, nem andar pela casa a fazer macacada a fingir que sou uma estrela de Bollywood. E trouxe três, sim, três chocolates negros-nigérrimos para os experimentar a ver se me dou bem com algum. Tahini já preparado que não estou para trabalhos com o hummus. E café! Tudo quanto faz falta num bunker de fim-de-semana-forçado-prolongado. Voltando ao chocolate.
É bom quando alguém nos traz chocolate, escolhe livros por nos adivinhar os autores desconhecidos, nos descobre a música que temos dentro e nem sabíamos, se interessa pelo Cão. Faz coisinhas. É muito bom aquilo de que as pessoas casadas se queixam quando olham para a liberdade das solteiras: isto já não é casamento, é família. É bom que alguém cresça connosco na mesma direcção. Um laço é bom. Mas um nó é melhor.