1 de maio de 2014

Eros depois

Sei sempre quando me vou calar. O silêncio desce primeiro, depois vem a falta de desejo de dizer, não a falta de palavras, antes uma grande vontade delas: então, leio, leio. E leio. Sempre, também, dois ou três poemas à espera, o livro que se prolonga, as crónicas, o romance, o ensaio. E, de repente, a casa habitada pelos autores, gente com quem se pode estar como se é, sem cerimónia. São a companhia que escolho. Tenho este defeito: gosto de ser eu a escolher. Não me faz diferença a ausência de concretos ossos e carne que os cubra. Esse amor tangível é outro amor, familiar, ou conjugado no dia-a-dia profissional, ou numa mesa de amigos, ou numa cama de amantes. A mim basta-me o das páginas.
Do abismo caiu Psyche. Não nos braços de Eros, isso é depois, mas nos do vento. De Zéfiro. É o vento quem a sustém, é ele quem navega a queda, que mentira, a queda é um caminho até ao chão seguro. Descobre-se muito no vento. Diz-se até da fecundidade do vento, do sopro, ou do Espírito mais ou menos Santo. O vento é respiração do mundo e a nossa, em uníssono, quando caímos como o silêncio cai sobre nós. O que é preciso é deixar-se cair nos braços de Zéfiro. O que são as palavras senão vento? Em cada inspiração a viagem é para dentro, é uma viagem de regresso ao centro. E a expiração é a vida cá fora. Por isso a calma alegria. Eu somos estes todos que andamos aqui pela casa.