31 de maio de 2014

C'est bien plus beau lorsque c'est inutile

 
O VALOR DO POETA
Quanto vale um poema? Em moeda...

Não pagará ao banco a mensalidade devida 
ainda que quase todo o bicho precise de um covil que habite 

Não pagará ao veterinário a conta do Cão 
ainda que quase todo o bicho precise de outro por companhia 

Não pagará a conta do mercado nem da mercearia 
ainda que quase todo o bicho precise de as fazer 

Nem pagará a roupa que aos bichos cobre a pele 
nem os cuidados com o pêlo 
muito menos os necessários livros e mais
que isto de nos apoiarmos só nas patas traseiras 
e alongarmos a vista não acontece sem alimento subtil 

Entre os bichos quanto vale um poema? 
Nada 
Ainda assim é mais do que o valor de um poeta 

Bonjour Mundo!

CLARIDADE
Como a madrugada 
promete a claridade 
nítida, orvalhada, 
onde a noite se despe em luz, 
assim atravessa a rua 
a voz nua da manhã 
e toda a sombra recua 
e toda a memória é vã 



30 de maio de 2014

Visão, tenha duas - Uma europa na piscina, a outra na tina


Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
UMA EUROPA NA PISCINA, A OUTRA NA TINA
O salário médio bruto, sim, bruto, em Portugal, é de 914 euros. A pensão média é de 420 euros. Um agregado familiar com rendimento bruto, volto a repetir, bruto, de 1380 euros mensais faz parte do quarto mais rico da população - também para efeitos fiscais, e nem vou referir essas devidas contribuições.
Imaginemos esses 25% de privilegiados, os dos brutíssimos quase 1400 euros… Grandes malucos! Viverão num T2, serão um pai, uma mãe, um vírgula dois filhos, o que quer que isso seja, com as naturais despesas de qualquer família: habitação, logo, hipoteca, não esquecer o imi, condomínio, água, luz, gás, telefone, televisão, internet, alimentação, vestuário, saúde, transportes, despesas escolares. Se este é o melhor quarto, como serão as outras assoalhadas?, quero dizer,  como vivem os restantes 75%?
Penso que viver estará fora de questão quando apenas se sobrevive. Culquê? Cultura? Só se for de fungos no queijo fatiado de marca branca, luxo de ricos, coisa de uma vez por outra, ou sorte de banco alimentar.
O salário mínimo português, em paridade de poder de compra dentro da União Europeia, caiu em 2014 para 80%, isto é, não converge, diverge. Abaixo do nosso real poder de compra, portanto, ainda com menos poder de compra e mais divergente da média europeia, e por ordem decrescente, temos a Letónia a dois pontinhos percentuais de nos apanhar na loucura consumista, compra! compra! compra!, ó doidivanas do cartão de crédito, porque é que não poupas, queres comer e pagar a luz?, seu guloso, a Hungria, a Croácia, a Eslováquia, a Estónia, a Lituânia e poucos mais já abaixo dos 50%. O Luxemburgo também diverge bastante, mas por razões inversas, 191% delas para ser exacta.
Quando se pensa em mobilidade social, em regra, pensa-se em ascensão. Deve também pensar-se em queda. A nossa classe média está a empobrecer e os pobres estão mais pobres. Uma classe média forte e dominante é o objectivo de qualquer nação - sendo as franjas a riqueza e a pobreza, mas aberto o combate a essa pobreza que nos reduz a todos em potencial de ser.
Apesar de pobres, agimos tais ricos e perdulários, jogadores das vidas de outrém como da nossa: sobrecarregamos as pequenas e médias empresas ao limite, o nosso próprio tecido de sustentação; atiramos os jovens aos velhos como os leões aos cristãos no circo de Roma; aumentamos o iva da restauração; levamos classes profissionais inteiras ao quase desespero e ao desemprego enquanto empacotamos jovens licenciados aos milhares, e não tão jovens e em grande número, com a formação paga maioritariamente por esta classe em queda imparável, e enviamo-los para os países, pasme-se, ricos. Sim, também para o Luxemburgo - e, vá, despachamo-los de igual forma para a Irlanda, esse mistério celta penhorado por um lado mas por outro nem por isso.
Por cá, enfocamos a atenção na captação e fixação de cidadãos europeus, não portugueses, claro, a troco de benefícios fiscais e imobiliários, e de cidadãos não europeus a troco de Vistos Gold, coisa onde rebrilhe o novo riquismo que é bem melhor, reconheço, do que novo pobrismo. Acho mal? Não. Montes de países o fazem ou equivalente. Não é essa a questão. É a falta de uma acção coordenada e dirigida para um mesmo objectivo: o enriquecimento do país, da economia à cultura, a renovação geracional, não o sangramento de país e povo. Porra!, se são bons lá fora que tal ficarmos com eles em vez de pagarmos para os mandarmos depois embora? Esses que vão, já o disse, terão filhos, gerarão riqueza, enfim, farão classe média. Lá. Não saíram para fazer mais uma formação. Não é da excepção hiper-diferenciada e baseada em qualquer aeroporto do mundo mais do que na própria casa de que falo. Classe média, pura e simples. Farão. Lá. Cá, agora, continuamos a sangrar, a empobrecer, e a envelhecer.
Portugal não é a puta que serve a clientela em busca do eldorado para lhe branquear o dinheiro emergente. Nem é a criada dos estrangeiros europeus. Portugal é Europa, a Europa mais ocidental: atlântica e mediterrânica – são duas valências. E a Europa é, antes de mais, uma ideia fundamental de paz e democracia sustentadas tanto pelo pensamento político quanto pela economia que o permite. Há dignidade e honra nisto. Há futuro nisto. Mas entre a esmagadora abstenção e a escalada da extrema direita, a Europa vem abaixo como a nossa classe média, não se faz, rarefaz-se: mal se respira para chegar ao fim do mês. Esta economia de uma europa na piscina e outra europa na tina, não nos permite uma ideia de Europa: onde não há pão, não há pensamento.

Visão, tenha duas: O estrangeiro é o que se entrega, frágil, indefeso, por Manuel S. Fonseca


Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.

VISÃO, TENHA DUAS
O ESTRANGEIRO É O QUE SE ENTREGA, FRÁGIL, INDEFESO


Gosto dos estran­gei­ros. Estou a olhar para a capa da Visão de 29 de Maio e ainda gosto mais dos estran­gei­ros. Gosto do estran­geiro, do homem e da mulher que estão sós, que não têm nin­guém que lhes fale a lín­gua. Gosto do ame­ri­cano de Beja, do fran­cês de Alje­zur, da impla­cá­vel alemã do meu pri­meiro emprego num hotel do Lobito, do zai­rense da Caparica.
O estran­geiro é o que esco­lheu (mesmo quando parece que não esco­lheu) car­re­gar a nossa cruz, o nosso céu, terra e mar, a nossa amar­gura e a nossa inco­mu­ni­cá­vel ale­gria. O por­tu­guês que anda pelas ruas do Porto ou Lis­boa pode muito bem dizer “I’m a stran­ger here myself”, como se fosse o herói auto­com­pla­cente de “Johnny Gui­tar”. Esse é um por­tu­guês da treta, con­versa de café. O estran­geiro não quer ser “stran­ger”, quer é vaguear as noi­tes para ouvir o fado de Por­tu­gal, e nele, e por ele, se irma­nar con­nosco. O estran­geiro é o que se entrega, frá­gil, inde­feso, à des­co­berta. Quer descobrir-se a si mesmo em nós.
O estran­geiro não tem rede – ou tem, quando muito, pouca rede. Honra-nos com essa desar­mante vul­ne­ra­bi­li­dade. Se qui­sés­se­mos, pode­ría­mos matar o estran­geiro, bater-lhe, dar-lhe um tiro, estrangulá-lo. Só um cobarde o faria, por­que o estran­geiro é o que se nos con­fia, o que nos dá o seu amor antes de saber se o ire­mos amar.
O estran­geiro é por­tu­guês por­que os por­tu­gue­ses, no seu melhor, sem­pre foram estran­gei­ros. Nunca a um ver­da­deiro por­tu­guês lhe bas­tou Por­tu­gal para ser o por­tu­guês que que­ria ser. O por­tu­guês que quer ser por­tu­guês vai ser Fer­não Men­des Pinto para o Oce­ano Pací­fico, Wen­ces­lau no Japão. Vai ser, a ferro e fogo, Afonso de Albu­quer­que em Ormuz. Vai plan­tar café em Angola, bater chapa na Ale­ma­nha, ser por­teira em Paris ou padeiro de Manaus a Santa Cata­rina. O por­tu­guês que tem ânsias de ser por­tu­guês, quer mar e mar, quer ir sem saber se vai vol­tar. Parece que Fer­nando Pes­soa se can­tou como o via­jante que nunca saía do cais. Bastar-lhe o cais é, digo eu, uma forma de abs­ten­ção – que pena que ele tenha desis­tido de ser por­tu­guês. (E é men­tira, por­que o enge­nheiro Cam­pos andou em bolan­das de Glas­gow a Lon­dres, o lati­nista Ricardo Reis se bal­deou para o Bra­sil, já para não falar de cer­tos ves­tí­gios ado­les­cen­tes de Durban.)
Em Por­tu­gal, não há nada mais por­tu­guês do que o estran­geiro em sua casa, com o ridí­culo chihu­ahua ao colo.

23 de maio de 2014

Visão, tenha duas - Psicopomportuguês

VisaoPapa
Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,   
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui e o outro osso também.
VISÃO, TENHA DUAS
O PSICOPOMPORTUGUÊS QUE VAI GUIAR O PAPA NA TERRA SANTA
É adequado que um português guie o Papa na Terra Santa. A terra, esta substância fecunda e viva, separada das águas e debaixo do céu, é feminina, e por muito que um Papa reine sobre os três mundos, e seja por natureza das suas funções um guia, alguém tem de o guiar a ele no caminho e mostrar a santidade da mulher – abro já esta janela simbólica.
A vocação portuguesa é esta, a do psicopompo – palavra de luxo para uma vaticana circunstância em viagem, a despeito da simplicidade que resume o seu chefe de estado, o representante de Pedro, no caso, a pedra franciscana em que agora assenta a igreja.
O psicopompo é uma criatura de forma humana ou animal cuja função é guiar a alma na viagem para o outro mundo. Ora, isto significa que, se somos guiados, ou estamos mortos, ou estamos perante o desconhecido, que é só uma forma de dizer que também nos desconhecemos. Deixámos a terra, estamos na água - por vontade do céu? – para chegar a uma nova terra. Há um trânsito, ou se preferir, uma transição, uma mudança de estado.
Na verdade, não fazemos outra coisa além de sermos guias e almas guiadas desde que nos entendemos por portugueses. Devíamos chamar-nos psicopomportugueses. Continuamos a fazê-lo, agora mesmo que somos laicos e que palavras como Papa ou Israel significam política e não religião, e em que a alma está prestes, não a subir, mas a cair do dicionário.
Tudo isto a que chamamos Portugal era mourama, Deus escrevia-se com outras letras. Henrique, da Casa de Borgonha, trouxe-nos o alfabeto que ainda hoje conhecemos quando pôs a espada a serviço de Afonso vi de Leão e Castela e este, por recompensa de boa matança, deu-lhe em casamento a filha ilegítima, Dona Teresa e, mais tarde, em 1096, o Condado Portucalense feito dos territórios de Portucale e de Coimbra. O resto é história, e até o mar se abriu para a contar, mas em vez do bastão de Moisés ficaram-nos os Lusíadas e o sonho da Ilha dos Amores por parusia. Depois disto, foi o que se sabe e tem o nome de descontentamento. Porquê? Um ponto expande-se de tal forma que não se contém e explode. É o Big Bang. Depois retrai-se. É uma lei. Uma lei Assim na Terra como Céu. Edificámo-nos sobre a expansão sem prever o recolhimento. Derivo? Talvez não.
Esse mundo de há séculos, de que fomos os guias e as almas guiadas, ficou em nós como nós nele. É esta a santidade da mulher, a nova vida que a terra dá: a diáspora portuguesa não está a caminho. Está. É da terra mesmo quando foi expulsa tal mouro ou judeu. Porque a vocação portuguesa é abrir o desconhecido, qualquer que ele seja, e fazê-lo conhecido. De si. Dos outros. O psicopomportuguês Henrique Cymerman é um bom exemplo.

Visão, tenha duas: A Insustentável Beleza, por Manuel S. Fonseca

VisaoPapa
Olhar é Triste. Eugé­nia de Vas­con­cel­los e Manuel S. Fon­seca apos­ta­ram escre­ver um post sema­nal a par­tir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coi­sas dife­ren­tes? Neste seu EeT, no pri­meiro minuto de cada sexta-feira,  
“Visão, tenha duas”
Ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui, e o outro osso também


A INSUSTENTÁVEL BELEZA
Olha para onde, este homem de branco? Parecem azuis os olhos que olham para fora e para cima. Talvez olhem para o céu e talvez o azul dos olhos deste homem seja só o reflexo da luz celeste. Eu vejo-lhe nos olhos uma tristeza azul – e se isto não ficaria muito melhor, e mais fadista, escrito em inglês! Mas logo a fileira branca dos dentes e a doçura da contracção do rosto, a que chamamos sorriso, dão cabal desmentido à suspeita de tristeza.
Talvez os olhos deste homem, tão largo e confiante é o sorriso, estejam a ver Deus. Afinal, se há no mundo um homem habilitado a ver Deus é ele, o homem da batina branca. Cheguei a pensar que era de ouro e disseram-me que era de prata, a corrente que traz presa ao pescoço e que desliza pelo peito sustentando a Cruz Peitoral. O solidéu singelo e a sotaina branca conferem-lhe uma elegância confortável e simples. Se queremos ver a Deus é assim que nos devemos vestir. E calçar uns sapatos vermelhos.
Lembrei-me, sabe Deus porquê, de um conto de Giovanni Papini. É a história de um dissimulado apóstata que é eleito Papa. Quando caminha para a varanda que se abre sobre a Praça de São Pedro e sobre a multidão que, em fé e pela fé, exulta e reza, esse novo Papa vem pronto para denunciar a terrível fraude, a gigantesca impostura que é a religião. Abrem-se as portas, ele dá o primeiro passo, discurso na ponta da língua serpentina e o gáudio da multidão entra nele como a luz que lavasse os olhos de um cego. O apóstata converte-se e já o habita o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
E se este homem de quipá, perdão, de solidéu alvo, se este homem que é talvez o único que pode ver Deus, soubesse, como mais nenhum homem sabe, que Deus não existe? Porque mais nenhum homem sabe, como este homem sabe, que o Deus a que um milhão de fiéis se ajoelha na gigantesca Praça, esse Deus patriarcal, a correr de prece para prece, entretido a vingar-se, a acusar, a salvar, castigo numa mão, a misericórdia na outra, nem por milagre pode existir. Séculos de teologia e Teilhard de Chardin dissiparam essa nuvem, essa luz que cega Paulos. Séculos de teologia e Pierre Teilhard de Chardin foram um tiro na pomba. Este homem sabe e, todavia, na tristeza azul dos olhos desta fotografia, neste sorriso que promete mais regresso à vida do que a Vénus de Botticelli nos pode dar, ele acredita.
E que insustentável fragilidade! A tristeza azul de um olhar e um maravilhoso sorriso de conto de fadas sustentam uma civilização, uma imensa e reconfortante forma de ver, sentir e viver o mundo. Bastava que este homem dissesse uma só palavra. Uma palavra e a multidão correria desvairada, em uivos apocalípticos...
A uma palavra do caos, de um triunfal niilismo. Que insustentável fragilidade. Que insustentável beleza.

22 de maio de 2014

A lady Di e a Lhasa de Sela


PA'LLEGAR A TU LADO

É a culpa. É a puta da culpa.
Põe-me a ruminar pensamentos:
isto não chega,
não fizeste nada
e tens a morte
a querer morder-te
os calcanhares.
Corre.
Mas não posso
correr com a morte
a fazer-me sombra.
Não aprendi
a produtividade do medo,
nem as letras do desgosto,
lentificam-me as teclas -
tenho uma adição nesta hora
sem permissão para vícios:
preciso de uma dose diária,
uma só, puríssima,
de alegria ou de esperança
ou de ti.
Tens de perceber, há quem tenha
terrores nocturnos em idade adulta,
eu chamo-lhe insónias.
E se morro agora que a vida me está a começar?
Logo agora que sei quem sou, se me falta o tempo
para ser?
Estas coisas acontecem, sabes?,
nem vou falar de amigas caídas como folhas doentes,
da corrosão das células a subir das raízes das árvores,
nem de estúpidos acidentes,
olha a lady Di
e a Lhasa de Sela.

19 de maio de 2014

Gracias a la Vida

PERFECTO DISTINGO
A oposição é coisa benigna: confirma-nos a vocação - não há outra profissão de fé senão esta que nos afina a vontade e a capacidade de trabalho. É isto o baptismo. Mal rompe o casulo morno, a borboleta voa enquanto nós, tão dependentes até ao primeiro passo, vacilantes depois, só no espelho dos nossos pares descobrimos a identidade, a solidão e, fazendo-o, o caminho.

18 de maio de 2014

Hostel Victoria Vilamoura



Meus queridos leitores, amigos, pais de leitores e de amigos, filhos de leitores e de amigos com e sem filhos,

a minha rica irmã acaba de abrir o Hostel Victoria Vilamoura, um hostel muito lowcostezinho inho. Assim, se lhe apetecer férias numa terra bonita, com muito verde, ciclovias, passeios pedonais, uma fartura golf, cavalinhos, com uma praia de dar gosto e mar em condições, pode ficar a cinco minutos a pé da marina sem desgraçar a carteira - esta é a morada, pode verificar a distância: Rua do Sol, bloco A, lote c-15, r/c, 8125-489 Vilamoura. Parece-lhe bem? Boa!
Reservas a partir de... agorinha mesmo - aqui. As photos tirou a minha irmã com o telemóvel, desconfio. E Pode pedir uma camarata com o número de camas adequado ao seu grupo. 

Entra por aqui...


... e descansa ali, à sombra do limoeiro.

17 de maio de 2014

O Cão e eu e eu e o Cão


VAI-TE CASAR, VAGABUNDO…
Gostei de beber o belo tinto, de saborear a rica mousse de chocolate que um dia, sem aviso, desgostei. Muito completamente. Nem fui eu, na realidade, foi o meu corpo quem desgostou, caiu-lhe mal e não voltou a cair-lhe bem. Confesso que a ditadura do gosto imposta pelo meu corpo me chateou - então, afinal, quem manda aqui? Desiludam-se: não há cá mind over matter. O mais que consegui foi esta aliança mind & matter Lda, mas de vez em quando ainda nos pegamos. Isto para dizer o quê?
A minha memória ainda gosta de chocolate, de leite, de iogurte, de leitão assado, de batatas fritas. O meu corpo é que não os suporta. Mal comparado é como as pessoas que fizeram parte da nossa vida e foram tão importantes para nós: a melhor amiga e o primeiro amor que eram para sempre. A nossa memória ainda os ama quando voltamos a ter aquela idade, de olhos fechados, ai que felicidade. Mas cada um cresceu na direcção de ser quem é e agora nada temos a dizer, não há o que possamos fazer juntos, nem queremos. Parece mentira e é verdade. Voltando ao chocolate.
A minha irmã ia muito a São Tomé, numa dada altura, a trabalho. E trouxe-me um chocolate preto com mínimos, ínfimos, cristais de açúcar. Outro tão negro quanto aquele, mas com uma pitada de sal, e outro ainda com uma leveza picante e aromática de gengibre. Artesanais e todos com mais de 75% cacau. O meu corpo e a minha memória fizeram as pazes. Azarucho do caneco, não há o tal do chocolate em Portugal, ou se há não descobri onde, ainda que seja todo para exportação. Aqui há uns anos, o pai de uma querida amiga ofereceu-me umas colheitas tardias. Mais acordos de paz. Voltei a provar o vinho. E o bem que me sabe? E descobri um leite de soja saboroso, coisa quase inacreditável, para substituir o meu velho Vigor. Isto para dizer o quê?
Hoje é um dia importante. O Cão teve alta – foi internado e fez uma cirurgia grande, é um valente. Para estarmos descansados, os dois, antes de o ir buscar, tratei de ir comprar os jornais do costume, e o recomendado extra que sou bem mandadatenho uma pilha de livros já enfileirados, uma fartura de música com a direcção do meu Antonino Votto à cabeça que isto não pode ser só blues, indie, jazz e pop, nem andar pela casa a fazer macacada a fingir que sou uma estrela de Bollywood. E trouxe três, sim, três chocolates negros-nigérrimos para os experimentar a ver se me dou bem com algum. Tahini já preparado que não estou para trabalhos com o hummus. E café! Tudo quanto faz falta num bunker de fim-de-semana-forçado-prolongado. Voltando ao chocolate.
É bom quando alguém nos traz chocolate, escolhe livros por nos adivinhar os autores desconhecidos, nos descobre a música que temos dentro e nem sabíamos, se interessa pelo Cão. Faz coisinhas. É muito bom aquilo de que as pessoas casadas se queixam quando olham para a liberdade das solteiras: isto já não é casamento, é família. É bom que alguém cresça connosco na mesma direcção. Um laço é bom. Mas um nó é melhor.

Faz a fama e deita-te na cama


O meu sobrinho mais velho tem cinco anos e está no primeiro ano. Os colegas quase todos têm seis anos, um ou outro, sete.
O meu sobrinho mais velho usa botas ortopédicas – eu também usei. 
O meu sobrinho mais velho todas as noites faz a bomba, tem asma. E, apesar de muito alto, é escanzelado.
O meu sobrinho mais velho colou folhas e fez um livro: em cada página uma história com título e um desenho. Sozinho.
O meu sobrinho mais velho preocupa-me. 
O meu sobrinho mais velho tem uma ideia muito particular do que é um jogo de futebol: se a equipa dele marca, fica feliz; se a equipa adversária marca também, ou seja, qualquer das duas equipas não o quer na equipa. 
O meu sobrinho mais velho quis participar na corrida obrigatória do colégio, apesar de poder não o fazer – a tal da asma. 
O meu sobrinho mais velho tem pais pedagógicos que lhe disseram: o importante é participar e acabar a corrida. 
O meu sobrinho mais velho acreditou, chegou em último e feliz da vida – há photos que o comprovam. 
O meu sobrinho mais velho ficou muito triste quando os meninos gozaram com ele por chegar em último. 
O meu sobrinho mais velho é… diferente: muito bonito, muito bebé, nada competitivo, um estranho bom aluno, foge para a sala do segundo ano, mas só se interessa pelas coisas lá dele e, zás, gosta muito de todos os meninos e meninas. 
O meu sobrinho mais velho levou uns pontapés dos meninos de quem gosta. 
O meu sobrinho mais velho, repito, tem pais pedagógicos que lhe disseram: defende-te mas não ataques.
O meu sobrinho mais velho e eu tivemos uma conversa de tu cá-tu lá, não há pão para malucos: nós somos privilegiados, nós somos bons, queremos sê-lo, devemos. Os meninos pequenos e as pessoas grandes, às vezes, confundem ser bom com ser parvo. Não percebem, não têm sorte como nós. Nós não somos parvos, somos bons. Para continuarmos a sermos bons, agora, é preciso fingirmos que somos maus. Fixa: faz a fama e deita-te na cama. Faz de conta que somos maus. Boa? Quem tem botas ortopédicas? Quando te derem um pontapé tu dás outro. Com força, sim? E amanhã, mas só amanhã, tá?, porta-te muito mal na sala: fala alto, não faças os trabalhos. O professor vai mandar-te sair – e isso está certo, enfias-te no segundo ano e não dizes nada a ninguém. E leva os bichinhos no bolso.
O meu sobrinho hoje teve dois erros no ditado: plain/plane. Ó. 
O meu sobrinho mais velho levou bichos de conta, tão lindos, para a mesa de trabalho.
O meu sobrinho mais velho pregou dois valentes pontapés em dois meninos que lhe deram pontapés mais uma vez. 
O meu sobrinho mais velho conseguiu ir para a rua não uma, mas duas vezes. 
O meu sobrinho mais velho se, azarucho do caneco, der em escritor, será de best-sellers.

16 de maio de 2014

Visão, tenha duas - I Love Portugal

Olhar é Triste. Eugénia de Vasconcellos e Manuel S. Fonseca apostaram escrever um post semanal a partir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coisas diferentes? Neste seu EeT, no primeiro minuto de cada sexta-feira, 

"Visão, tenha duas" 


ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui. E o outro osso também.




VISÃO: TENHA DUAS

VISÃO, TENHA DUAS
I LOVE PORTUGAL


Meu Amor de i love u,

então, o que é isto, agora, de andar nas bocas do mundo? Ser amor de i love you, de te quiero, amor de je t'aime? E de ser um amor lindo, ai tão lindo na volta perfeita do 28? E na decadência vagarosa e lírica das paredes meias, meias desfeitas, que sobem até ao Castelo em guitarradas nocturnas para audiências estrangeiradas e locais paredes grafitadas? E lindo no cliché da luz diurna e do Pessoa, coitado, eternamente sentado, imobilizado em metálico bronzeado no… Chiado. Também o eléctrico chia uma aflição de carris acima travões abaixo. E sabe o meu amor tão lindo que, quando se respira mal, também há um chiado, um sibilo, aqui mesmo na base do pescoço onde o ar todo se afunda? Meu amor: afundo-me de tanto i love u em português pré-acordado.

Já aluguei a minha casa aos turistas do 28 da Carris para pagar a hipoteca e vivo debaixo de um telhado de empréstimo. Não é uma queixa, é uma gueixa: sou eu a fazer ao meu amor as vontadinhas todas, até as que ele não sabe que tem, de meias imaculadas, silenciosas e branquinhas, e corações desenhados a baton nas boquinhas de beijos assim, ouviu?, mandados pela distância como as cartas de antes - pois se tu love me, meu amor, eu love u more.

Mas às vezes... às vezes duvido-te, amor, desta dádiva, e não é só porque tenha a duvidávida herdada de David Mourão-Ferreira – também ele te amou de forma inteira e em sílabas métricas e nas voltas eléctricas das letras acústicas do fado. E que fardo tão leve, e o tempo, ai tão breve, para cantar-te, que uma vida nem chega, nem a tristeza tem peso, nem quando é já tarde. É tarde?

Duvido-te, amor: amas-me? E deixas-me assim tão solta como diz o velho Mano Caetano, a contares com a minha sempre fidelidade e o Deus me dará? E mais. Sabe: penso mal de ti, à noite, em voz baixa quando ninguém ouve: que amor é este capaz de desprezar o amor que lhe tenho? Talvez seja só um oportunista desses que por aí andam a fazer a pequena notícia e os grandes estragos. Ai, e se o meu amor é só mais um “Comandante” Perestrelo, explorador de corações solitários, fechados em armários, desejosos de sair para sorrir um riso bem passeado de mão na mão e beijos na boca à sombra de um lampião enfeitado de corvos recortados contra a lua? Coitadas das noivas roubadas nas carteiras e nos futuros planeados em cama de casal, e em sonhadas fardas falsas penduradas no estendal…

Pronto, já passou. Tem de perdoar estes maus pensamentos, o meu amor, sim?

E de seguida perdoar a super-abundância referencial. Mas fazer o quê, se tal como somos barro de pai e mãe, da carne de pai e mãe, somos feitos da matéria do espírito?  O meu amor lembra-se de quando Zara, não é essa!, amor maluco, a de William Congreve diz heaven has no rage like love to hatred turned, nor hell a fury like a woman scorned? Não, não é uma ameaça. É uma advertência. Olhe, a outra referência é em The Godfather iii, quando o cardeal Lamberto retira um seixo da fonte ao centro do claustro e diz a Michael Corleone, mais coisa menos coisa, cito de cor, meu amor, veja, está na água há tanto tempo e ela não penetrou nele, depois parte-o e acrescenta, seco, perfeitamente seco. Já lhe ocorreu que um dia, meu amor, seja eu o lindo amor de outro amor?

Visão, tenha duas: O 28 da Carris, por Manuel S. Fonseca

Olhar é Triste. Eugénia de Vasconcellos e Manuel S. Fonseca apostaram escrever um post semanal a partir da capa da Visão. Uma mulher e um homem olham para a mesma capa. Será que vêem coisas diferentes? Neste seu EeT, no primeiro minuto de cada sexta-feira, 

"Visão, tenha duas" 


ps: o Cão é territorial, traz o osso para aqui. E o outro osso também.




VISÃO, TENHA DUAS
O 28 DA CARRIS
A pri­meira vez foi numa loco­mo­tiva. O com­boio estava parado onde os com­boios para­vam e o Fer­ro­viá­rio trei­nava. Entrá­mos à sur­relfa na loco­mo­tiva e con­du­zi­mos um com­boio que não saía do sítio. Fize­mos fotos a fin­gir de maqui­nis­tas. E a loco­mo­tiva não tugia nem mugia: nem um apito, nem uma nuvem de vapor.
A segunda foi no Aero­porto que hoje é 4 de Feve­reiro. Phi­lip K. Dick nunca adi­vi­nha­ria, e muito menos H.G. Wells, que um dia se faria ter­ro­rismo de avião. Numa noite des­ses tem­pos lon­gín­quos, entrá­mos num avião par­que­ado bem den­tro do han­gar. E que me caia já um braço se não era um Fri­endship. Era­mos uns miú­dos de 15 anos e tínha­mos um amigo que tra­ba­lhava na manu­ten­ção. O Fri­endship estava por nossa conta e avan­çá­mos para o que inte­res­sava, o cock­pit. Sentámo-nos onde se sen­tam os pilo­tos e mexe­mos em tudo o que os pilo­tos mexem. Ao con­trá­rio do imó­vel e silen­ci­oso com­boio, o avião, ofen­dido, respondeu-nos. Res­fo­le­gou como um  cavalo e tive­mos a sen­sa­ção de que o foci­nho ia tom­bar e furar o alca­trão. Per­nas para que te quero, fugi­mos cobar­de­mente ao desa­fio, sal­tando da montada.
A olhar para esta capa da “Visão”, para este ama­relo da Car­ris, foi isso que eu vi. Mostram-me Lis­boa e eu vejo Luanda. A car­reira 28, que vai do Mar­tim Moniz aos Pra­ze­res, tem mais graça do que um com­boio parado, tem mais vida do que um avião que bufa. A car­reira 28, que corre à des­fi­lada pelos car­ris de Lis­boa, é um Fri­endship dos trans­por­tes públi­cos. Sobe coli­nas, desce coli­nas. Passeia-se por igre­jas, mira­dou­ros e cemi­té­rios e quando, ven­cido o Largo das Por­tas do Sol, quer intes­ti­na­mente che­gar às Esco­las Gerais, as ruas são tão estrei­tas, tão vizi­nhas e che­ga­das as varan­das e as por­tas mais os vasos de man­je­ri­cos, que as casas enco­lhem as bar­ri­gas para que o velho eléc­trico, ama­relo ou cor de turista, passe entre elas. Eléc­trico, cavalo de ferro, passa então, roçando-se com a dis­cri­ção de um cava­lheiro ten­tado pela sau­dade que é sem­pre a beleza de uma velha dama.
Maqui­nista do mais hirto dos com­boios, piloto de um avião com gases, a capa da “Visão” acordou-me sonhos de menino: para tro­car defi­ni­ti­va­mente o quanto gosto de Luanda pelo quanto gosto de Lis­boa, só que­ria que Antó­nio Costa me dei­xasse ser, por um dia, o con­du­tor do 28 da Carris.

10 de maio de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - ain't got a clue



Esta menina é Rachel Price, a outra menina atrás dela é Bridget Kearney. Os rapazes são Mike "McDuck" Olson e Mike Calabrese. Juntos são Lake Street Dive. Ou como eles dizem: two girls, two guys, and a whole lotta feelings. Conheceram-se na escola. E ainda dizem que não se aprende nada... 



8 de maio de 2014

Plano A

PLANO A
- sobre o salmo 90 de Moisés -

Na vigília de uma só das minhas noites
mil anos passam e por isso sei, 
Deus de Moisés, que o homem amado
não é barro nem será pó,
é matéria da Tua matéria:
para mim foi ontem,
para ele, carne do Teu espírito, mil anos 
numa mínima volta do relógio.
E também eu Te pedi, Deus de Moisés,
que me ensinasses a contar o tempo
na Tua língua, que é de sempre e para sempre,
para abrir as portas à sabedoria e dar o mesmo
descanso ao coração: a erva crescida de manhã,
de tarde seca, depois se corta.

Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar:
fiz um poema, estudei versos numa língua, 
e já ninguém a lê, para escrever, para quê?, um livro inteiro 
em folhas de pó. Ninguém.
Não aprendi nada. Não tenho um plano b.
Toma, entrego o meu segredo à Tua Luz:
é o plano A.

O sol declina
e o esplendor não veio a derramar doçura.
Este dia e as horas deste dia são
um número a menos dos que me cabem contar.

6 de maio de 2014

Flash Mob para um!

Bem sei, bem sei, a menina cresceu e até se enfiou numa piscina com tubarões, e em cima de umas tamancas que se desanda vai desta para melhor enquanto manda as B**ch work de chicote na mão - já isto não me parece completamente mal, também era capaz de amaciar uns lombinhos, outros porém. Mas prefiro-a assim, o look é timeless, tem quelque chose do meu rico Araki. Além de que não troco os tops e as calças de fato de treino e as coreografias exequíveis por Bugatti nenhum, quero que o Bugatti se lixe!, não bebo Martini e só gosto de trikini. Flash Mob no Cabeça de Cão agora mesmo!


5 de maio de 2014

Parabéns ao Cão! Viva o Cão!...

Bem sei, bem sei: todos os anos nesta data posto o mesmo post com o mesmo boneco. Fazer o quê? O Cão e eu somos os mes­mos…

Quem é o perfeito? O mais que perfeito, quem é? O ideal concreto é quem? As quatro substantivas patas, o cabeça de cão do tão balalão?! Quem? É o próprio do Cão!

3 de maio de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - As portas da noite

Le Rendez-vous é um ballet concebido no fim da Segunda Grande Guerra. Duas vezes rendez-vous porque resultou de um encontro: nas traseiras da cozinha do café do pai de Roland Petit, coreógrafo então com vinte um anos, encontraram-se, para além deste, Jacques Prèvert, poeta, Brassai cenógrafo e fotógrafo, e Joseph Kosma, compositor, anteriormente aluno de Bartók. Até Picasso entrou ao barulho no meio do entusiasmo para desenhar a negro, perdão, emprestar a negro o negro pano de fundo.

O pas de deux veio depois a ser conhecido e reconhecido em mil versões de Les Feuilles Mortes e em mais mil e uma de Autumn Leaves.



Este encontro, ao contrário do outro, trata de um impossível engano. É noite numa Paris que já deixou de existir, a que Brassai criou. Lá dentro dançava-se. Ele, le jeune homme, é o escolhido pela morte - pelo destino, talvez. Mas é jovem, unbelievaly young como no poema de Bukowsky fora ele escrito no presente. Não pode morrer. Pensa que ilude a morte e mente ao destino: ama  la plus belle fillle du monde. E consegue um encontro com la plus belle fillle du monde. É sempre com la plus belle. Tudo se passa na rua. Cá fora. Com a tal inacreditável juventude Bukowsky. Tudo do coração é juventude pois é músculo desconhecido do tempo. Mas ela é o destino e mata-o. Pela simples razão de que a juventude tem de morrer, ou sonho - ou o sonhador. Como na vida. Não sei porque chamam expressionismo ao realismo.


Está uma noite perfeita e serpentina cheia de bem e de mal

O que terá acontecido, se o jazz era a melhor das músicas para dançar? Começo a convencer-me de que não foi o Homem quem caiu do Paraíso. Foi o Casal. Ou isso ou a Serpente já não gosta de música.

1 de maio de 2014

Eros depois

Sei sempre quando me vou calar. O silêncio desce primeiro, depois vem a falta de desejo de dizer, não a falta de palavras, antes uma grande vontade delas: então, leio, leio. E leio. Sempre, também, dois ou três poemas à espera, o livro que se prolonga, as crónicas, o romance, o ensaio. E, de repente, a casa habitada pelos autores, gente com quem se pode estar como se é, sem cerimónia. São a companhia que escolho. Tenho este defeito: gosto de ser eu a escolher. Não me faz diferença a ausência de concretos ossos e carne que os cubra. Esse amor tangível é outro amor, familiar, ou conjugado no dia-a-dia profissional, ou numa mesa de amigos, ou numa cama de amantes. A mim basta-me o das páginas.
Do abismo caiu Psyche. Não nos braços de Eros, isso é depois, mas nos do vento. De Zéfiro. É o vento quem a sustém, é ele quem navega a queda, que mentira, a queda é um caminho até ao chão seguro. Descobre-se muito no vento. Diz-se até da fecundidade do vento, do sopro, ou do Espírito mais ou menos Santo. O vento é respiração do mundo e a nossa, em uníssono, quando caímos como o silêncio cai sobre nós. O que é preciso é deixar-se cair nos braços de Zéfiro. O que são as palavras senão vento? Em cada inspiração a viagem é para dentro, é uma viagem de regresso ao centro. E a expiração é a vida cá fora. Por isso a calma alegria. Eu somos estes todos que andamos aqui pela casa. 

Atchim!...