18 de abril de 2014

Poema de Sexta-Feira Santa

DAS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ
Tenho estado só como quem acredita
na companhia do Amor.
E isto por culpa da maldita
Paixão de Cristo e da Procissão do Enterro do Senhor,
cadáver à frente, a abrir com a sola dos pés
caminho aos anjos disfarçados de meninos
com asas de feira e luz de purpurina,
ao desfile das nossas senhoras pré-menstruais
sem idade para faça-se a tua vontade,
e a um escuro terrível de velas a abrasar a noite
pois só nas chamas negras os andores levitam
sem a escravidão do corpo avenida acima,
e ao alto a igreja e o bispo a vociferar:
no Enterro estão todos aqui
mas na Ressurreição quero ver quem estará.
Fera a rugir à solta pela acústica perfeita.
Não ensinaram a teologia dos homens
aos padres de quando eu era pequena
e o ar tinha a cor do frio quando respirávamos
e em redor dos círios de má parafina queimavam-se 
os cartuchos de papel - peguei fogo à mantilha
da senhora da frente e ardi logo no inferno porque
os santos também tinham cabelo de gente e roupa
tenebrosa em veludo roxo mortuário igual ao faqueiro
de estimação da minha avó, um monstro com pega
em pele de cação como o da sopa -
um jazigo para soldadinhos de chumbo derretidos
sem as suas bailarinas, que miséria de destino,
nascer soldado para acabar numa daquelas facas medonhas, 
num garfo, numa colher,
sem ninguém que dançasse para eles que nem
para comer serviam, só para enfeitar de susto e noite
o móvel de si já tão preto como a mantilha em fogo, 
tão preto como o cabelo de Maria Madalena, verdadeiro.
Jesus enterrava-se no cimo da avenida quando
a procissão dava em missa
e os pequenos jesuses com as suas cruzes de esferovite
forradas a tafetá castanho corriam a bater com elas nas costas
pelas naves laterais, prematuros ressuscitados.
Eu usava carteira, ganchos no cabelo, muito composta,
talvez Deus me perdoasse do incêndio da mantilha
e me transformasse as botas ortopédicas em sapatos de verniz,
talvez, se ao menos fosse como a Anita Dona de Casa...
mas minha avó afligia-se das donas de casa, benzia-se só de ouvir
água benta, padre, santos, era tudo Deus me livre, Deus livrava-a
pois ali estava ele morto e bem morto de obediência ao Pai
até à missa de domingo de manhã.
Das sete palavras de Cristo na cruz, antes de morrer
e de o enterrarmos,
a mim que tenho estado só 
como quem acredita na companhia do Amor,
serve-me esta: está consumado.
Prefiro estar só como quem acredita na solidão.