13 de abril de 2014

Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és...


E se, como Pessoa em Um Jantar Muito Original, lhe segredar ao ouvido: diz-me o que comes e dir-te-ei quem és, o que me responderá? Não vale armar-se em Léon Bloy em La Fève e responder, hum… uma deliciosa Clementina.
Este é um livro sobre alimentação que partiu de um estudo, uma investigação conhecida por Projecto China-Cornell-Oxford, cujo título é The China Study. De que trata?
Muito grosseiramente. Nos Estados Unidos, entre o fim dos anos setenta e o início dos anos oitenta, suspeitou-se de uma ligação entre a dieta alimentar e a incidência de cancro quando se verificou uma correlação entre o consumo elevado de carne e gorduras e o baixo consumo de fibras e a incidência do cancro do cólon e da mama. Mais. Quando os imigrantes mudavam de país para determinadas zonas onde determinados cancros eram prevalentes, qualquer que fosse a sua etnia, ficavam expostos ao mesmo risco de contrair cancro do que os autóctones - adquiriam os hábitos alimentares locais?
Enquanto isto, do outro lado do mundo, em 1981, a Academia Chinesa de Ciências Médicas publicava o Atlas da Mortalidade Por Cancro - sim, leu bem. O índice de mortalidade de mais de doze diferentes tipos de cancro em mais de 2400 distritos, onde os habitantes tendiam a estar fixados nas localidades e a manter os mesmos hábitos alimentares durante a vida. Do lado chinês verificava-se o oposto: ingestão de pouca gordura animal, elevado consumo de fibras e vegetais.
Em 1981, o dr. Chen Junshi, do Instituto de Nutrição e Higiene Alimentar e da Academia Chinesa de Medicina Preventiva, durante a sua sabática, visitou o laboratório do Departamento de Ciências da Nutrição da Universidade de Cornell. O prof. dr. T. Colin Campbell, especialista em bioquímica nutricional dessa mesma universidade, e o dr. Chen Junshi conceberam então um projecto. Breve se lhes juntou o professor Richard Peto da inglesa Universidade de Oxford. E mais colegas da China, de França, do Canadá.
E passou-se assim. Em 1983-84 daqueles dois mil e quatrocentos distritos foram seleccionados sessenta e nove para o estudo. E deles duas cidades. De cada cidade sessenta famílias escolhidas aleatoriamente, um adulto por cada núcleo habitacional, metade homens, metade mulheres, num total de oito mil participantes. Foram recolhidas amostras de sangue, urina a cada um deles. Foram recolhidas amostras alimentares para análise. Foi preenchido um questionário sobre os hábitos alimentares e registada presencialmente, ao longo de três dias, toda a informação sobre a dieta de cada participante. Deste mar de informação, mais de seiscentas variáveis foram tratadas e mais de trezentas correlações estabelecidas.
Em 1989-1990 as mesmas pessoas foram reavaliadas. E a elas juntaram-se mais cerca de quatro mil de outros distritos. A informação resultante foi tratada quer pela Classificação Internacional de Doenças, quer para aferir as causas de morte.
O autor deste livro é T. Colin Campbell e o co-autor o seu filho. E explicam-nos, numa linguagem acessível, o supra referido estudo e como podemos beneficiar dele para prevenir doenças cardíacas, alguns tipos de cancro – da próstata, cólon-rectal, da mama -, tratar a obesidade, prevenir e em alguns casos tratar a diabetes do tipo ii e as doenças auto-imunes e, ao fim, oferece-nos alguns capítulos de considerações sobre a ciência alimentar e a indústria alimentar, e as políticas governamentais a propósito.
Trago este livro por duas razões.
A primeira. Anda aí uma onda de loucura detox, o que quer que isso seja. Bebem sumos de vegetais e de frutas como se fossem água. Substituem refeições por estes sumos. O Verão está à porta e a filha de Geldof, de vinte e cinco anos, morta. Chegou a afirmar publicamente que fazia esta alimentação, sumos apenas, durante um mês. A alimentação deve servir o corpo na saúde e no prazer. Mas o que é a alimentação? Não ingerimos só o que comemos. Ingerimos pensamentos e ideias. E quando não sabemos quem somos que comida, pensamentos e ideias engolimos? Vinte e cinco anos?
E lembro-me de uma loucura parecida com esta, ainda que seja o seu oposto em termos nutricionais, há uns anos, com a Atkins.
A segunda. Não sou vegan. Não quero ser. Não bebo leite. E como poucos lacticínios. Peixe e marisco, sim. Carne vermelha raramente. Mas quando a como é de gosto. Ah! o belo lombo de porco preto recheado com farinheira. Evito as gorduras animais ainda que, uma vez por outra, viva o senhor pâté. Mesmo carne de aves só se for por um bom motivo, a bela empada ou lailailai. E sou das que bebe sumo de legumes todos os dias, até tenho uma super-máquina para aproveitar tanto da fibra quanto possível. Não é por moda, é de facto. Não excluo, no entanto, as minhas colheitas tardias. Não quero cá farinha branca, controlo o sal, mas semanalmente faço só o que me apetece por uma refeição, se for uma pizza e um éclair de baunilha e um batido, não me assusta a bomba de açúcar - nem sequer os fritos do Natal. Se a comida vem numa caixa e é para o micro-ondas, não é para mim: gosto de a fazer – pelos deuses, até faço o pão.
Enfim, não é difícil. Não mais do que uma dose de proteína animal por dia e ponto final. Se não comer o meu rico peixinho-marisquinho, vingo-me no feijão que também tem umas belas proteínas. Benefícios? Já estou a colhê-los. O meu sistema imunitário estava contra mim, agora está alcalinamente a meu favor. Até já voltei a comer morangos.
E isto quer dizer o quê? Nada. A minha mãe mantém-se elegante e saudável com Atkins. Leite, queijo, manteiga, carne...
Não gosto nada de ser indicativa. Todavia. As alterações alimentares de fundo, tornar-se vegetarino, ou vegan, ou seguir a Atkins, fazem-se na companhia do médico. A vida é tão mais feliz quando a podemos gozar.