9 de abril de 2014

Anda cá que és meu


CABOVISÃO? NÃO. ANDA CÁ QUE ÉS MEO...

Há coisa de poucos anos saiu um estudo sobre o calão. Usado moderadamente, em ocasiões de stress, é benigno. Ora, a minha relação com o clássico palavrão é estável, duradoura e bem-sucedida: não os digo e não gosto de os ouvir, porém escrevo-os e não me maça lê-los. Não é por hipocrisia moral, é por controlo de impulsos e estética – não necessariamente por esta ordem.

E isto a propósito de quê? Alguma publicidade, o belo anúncio, o reclamezinho, enfim, tem o condão de me encanitar, de me fazer ir dos zero aos cem em menos segundos do que um Ferrari, de me dar vontade de dizê-los todos de seguida alto e bom som. Mas não digo. Primeiro foi a história das mete medo da Rexona. Desapareceu. Agora é este alarve da Cabovisão que não há meio de gastar o tempo de antena comprado. Alguém fará o favor de amordaçar o homem e de o esconder da minha vista?

Conto tudo. Vamos partir do princípio que ali não está um actor, um bom actor pois é credível, que para ganhar a vida teve de aceitar aquele papel enervante – sou solidária com o actor, mais dia, menos dia, estou aqui, estou escrever um livro de merda, embalado num saco de chiffon com conchas e areia dentro, ou umas crónicas ou recensões de merda ou, quem sabe, se a sequela desta publicidade da Cabovisão, pois com os textos de que gosto não me governo e não consigo imigrar da língua portuguesa. Mas derivo. Ao alarve. Que diz ele?

Diz que vai falar de liberdade. Todavia, como fala em nome próprio e nosso, eu bem avisei que o tipo era doido, diz que vamos falar de liberdade. Já sabe, não se contrariam malucos… O que é liberdade? Não se preocupe, não tem filosofia. É poder mudar de sofá, mudar os filhos de escola, mudar de mulher e até mudar de vida. Liberdade é poder mudar. Por exemplo: se eu fosse livre mudaria de canal e não o aturaria. Hélas, não devo ser. Como se executa a liberdade, ou seja, a mudança? Sem fidelização.

Nem vou dizer um ai sobre essa impossibilidade que é a mudança de vida sem tratar da transmigração das almas. Fico-me por um breve comentário a sem fidelização.

Sem fidelização não há mudança de facto porque à partida todas as possibilidades estão incluídas. Sem fidelização não há infidelização. Claro que a palavra fiel foi proscrita pelo politicamente correcto que só admite os dois clichés: o da lealdade, pois fiel é cão, e o do fiel a si próprio, e não, não há-de ser por um individualismo imaturo, de forma alguma umbiguismo adolescente, não. Há-de ser por outra razão qualquer. A malta do fiel a si mesmo que aqui, neste personagem irritante, tão bem se representa, é repressiva de todos os valores que não os seus, pois considera-os obsoletos: são a Formiga Branca da moral. Se é um preceito, é mau, se é religião é má, a menos que seja exótico ou esteja em extinção. Se queres fidelidade és uma besta e mereces um par de cornos – mais coisa menos coisa.

Porém, a infidelidade é tão imprescindível como a fidelidade. Não se diz, mas, sim, é. E não se pode transgredir sem regra. Por exemplo. A traição de Judas é fundante para a nossa cultura. Que Cristo teríamos sem a crucificação? Ou mais anteriormente, a traição de Akhenaton a todos os deuses quando instituiu o monoteísmo sobre o qual o cristianismo veio a assentar. A relação amorosa evoluiu também à semelhança da relação com a divindade. O monoteísmo focou a relação com o divino. E colaborou na sedentarização. Esse Deus que é todos os deuses é um Deus exigente, e no ocidente preparou o caminho para a construção da união de dois como unidade: o casal. A fidelidade que exigia replicou-se na relação amorosa – esse mesmo compromisso que já havia permitido a sobrevivência dos filhos nos primeiros anos de vida e a identificação e evolução da família. 

O direito ao divórcio é fundamental. Mas nem por isso ele deixa de ser de extrema violência - não acredite em mim, consulte a ordem da lista dos acontecimentos precipitadores de stress. Também por esta razão o divórcio só se justifica quando não há alternativa - ainda que o casamento não seja uma graça, não há motivo para que seja uma desgraça, dissolva-se. Um saltimbanco amoroso é um irresponsável. Os pais não são descartáveis, os filhos não são descartáveis, porque carga de água, como diz o saltimbanco no anúncio, hão-de ser as mulheres e os homens? Cabovisão? Não. Anda cá que és Meo.