CABOVISÃO? NÃO. ANDA CÁ QUE ÉS MEO...
Há coisa de poucos anos saiu um estudo sobre o calão. Usado
moderadamente, em ocasiões de stress, é benigno. Ora, a minha relação com o
clássico palavrão é estável, duradoura e bem-sucedida: não os digo e não gosto
de os ouvir, porém escrevo-os e não me maça lê-los. Não é por hipocrisia moral,
é por controlo de impulsos e estética – não necessariamente por esta ordem.
E isto a propósito de quê? Alguma publicidade, o belo
anúncio, o reclamezinho, enfim, tem o condão de me encanitar, de me fazer ir
dos zero aos cem em menos segundos do que um Ferrari, de me dar vontade de
dizê-los todos de seguida alto e bom som. Mas não digo. Primeiro foi a história das mete medo da Rexona. Desapareceu. Agora é este alarve da Cabovisão que não
há meio de gastar o tempo de antena comprado. Alguém fará o favor de amordaçar
o homem e de o esconder da minha vista?
Conto tudo. Vamos partir do princípio que ali não está um
actor, um bom actor pois é credível, que para ganhar a vida teve de aceitar
aquele papel enervante – sou solidária com o actor, mais dia, menos dia, estou
aqui, estou escrever um livro de merda, embalado num saco de chiffon com
conchas e areia dentro, ou umas crónicas ou recensões de merda ou, quem sabe,
se a sequela desta publicidade da Cabovisão, pois com os textos de que gosto não
me governo e não consigo imigrar da língua portuguesa. Mas derivo. Ao alarve.
Que diz ele?
Diz que vai falar de liberdade. Todavia, como fala em nome
próprio e nosso, eu bem avisei que o tipo era doido, diz que vamos falar de
liberdade. Já sabe, não se contrariam malucos… O que é liberdade? Não se
preocupe, não tem filosofia. É poder mudar de sofá, mudar os filhos de escola,
mudar de mulher e até mudar de vida. Liberdade é poder mudar. Por exemplo: se
eu fosse livre mudaria de canal e não o aturaria. Hélas, não devo ser. Como se
executa a liberdade, ou seja, a mudança? Sem fidelização.
Nem vou dizer um ai sobre essa impossibilidade que é a
mudança de vida sem tratar da transmigração das almas. Fico-me por um breve comentário
a sem fidelização.
Sem fidelização não há mudança de facto porque à partida
todas as possibilidades estão incluídas. Sem fidelização não há infidelização.
Claro que a palavra fiel foi proscrita pelo politicamente correcto que só
admite os dois clichés: o da lealdade, pois fiel é cão, e o do fiel a si
próprio, e não, não há-de ser por um individualismo imaturo, de forma alguma
umbiguismo adolescente, não. Há-de ser por outra razão qualquer. A malta do
fiel a si mesmo que aqui, neste personagem irritante, tão bem se representa, é
repressiva de todos os valores que não os seus, pois considera-os obsoletos:
são a Formiga Branca da moral. Se é um preceito, é mau, se é religião é má, a
menos que seja exótico ou esteja em extinção. Se queres fidelidade és uma besta
e mereces um par de cornos – mais coisa menos coisa.
Porém, a infidelidade é tão imprescindível como a fidelidade.
Não se diz, mas, sim, é. E não se pode transgredir sem regra. Por exemplo. A
traição de Judas é fundante para a nossa cultura. Que Cristo teríamos sem a
crucificação? Ou mais anteriormente, a traição de Akhenaton a todos os deuses
quando instituiu o monoteísmo sobre o qual o cristianismo veio a assentar. A
relação amorosa evoluiu também à semelhança da relação com a divindade. O
monoteísmo focou a relação com o divino. E colaborou na sedentarização. Esse
Deus que é todos os deuses é um Deus exigente, e no ocidente preparou o caminho
para a construção da união de dois como unidade: o casal. A fidelidade que
exigia replicou-se na relação amorosa – esse mesmo compromisso que já havia
permitido a sobrevivência dos filhos nos primeiros anos de vida e a
identificação e evolução da família.
O direito ao divórcio é fundamental. Mas nem por isso ele deixa
de ser de extrema violência - não acredite em mim, consulte a ordem da lista
dos acontecimentos precipitadores de stress. Também por esta razão o divórcio só se
justifica quando não há alternativa - ainda que o casamento não seja uma graça,
não há motivo para que seja uma desgraça, dissolva-se. Um saltimbanco amoroso é
um irresponsável. Os pais não são descartáveis, os filhos não são descartáveis,
porque carga de água, como diz o saltimbanco no anúncio, hão-de ser as mulheres
e os homens? Cabovisão? Não. Anda cá que és Meo.