29 de abril de 2014

No trânsito

ENGARRAFAMENTO
Há quem ame à esquerda
e à direita e no vermelho
dos semáforos, assim, de asas
cardíacas em voos rápidos: é
o amor à velocidade do
olhar, à esquerda, à direita, e
no vermelho dos semáforos.

Não sei esse amor alado;
o meu vai num veículo lento,
à velocidade do tacto
para aprender de cor
o mesmo caminho de sempre.

INTERMEZZO, já! Dançar é preciso...


Amor em telhados de vidro

AMOR EM TELHADOS DE VIDRO
Apaixonei-me. Não, não, nada disso. Apaixonei-me por Lisboa. Foi há muito tempo atrás, aí pelos meus dezoito anos. Agora posso dizer que a amo. Exagero como todos os apaixonados. Amo alguns bairros de Lisboa. Desde 2011 que ando a rondar-lhes as casas e nada. Por isto ou por aquilo, quase sempre por aquilo, nada.
Pode-se ser stalker de casas? Os imoproprietários virtuais poderão americanamente pedir uma restraining order que me evite bisbilhotar-lhes as paredes? Tenho ali uma perdição em São Cristovão, rés-vés com o Castelo. Mas a barulheira preocupa-me. E se desatam a dar concertos no Verão?, aquela engenharia de som que faz tremer o chão, tal qual como quando passam os carros todos quitados e com hiper-mega-bué colunas de atirar o coração contra a garganta? E tenho uma fraqueza pelo Jardim da Estrela não sei porquê, por isso a casa ali ao Príncipe Real e a da Lapa assentam-me bem. E encontrei perto um estúdio com uma área maluca, uma coisa pombalina, um lugar mesmo bom para o empreendedorismo - quando descobrir onde o enfiei. 
Tenho sorte. Das minhas propriedades, nestes três anos, só perdi uma. Cabra infiel. Já não se pode estar longe do objecto amado, já não há índias de ida e volta em fidelidade expectante: desde que o futuro é agora a frustração resiste pouco.
Seja como for, acho que já me decidi. Desta vê-se o céu sem abrir uma única janela. Amanhã vou jogar no Euromilhões.


27 de abril de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - o esplendor dos pixels

PAUL CELAN, O ZOHAR, E EU
- técnica mista com colagem de versos de todos sobre o esplendor dos pixels -
Se sete noites mais alto 
muda o vermelho para vermelho, 
se sete corações mais fundo 
bate a mão à porta, 
com que voz espero 
as sete rosas mais tarde 
onde rumoreja a fonte 
se não for com a voz do silêncio? 
Dorme o sopro do incriado 
até que o desejo abra os olhos: 
as árvores crescem do céu para terra 
à procura da sua raiz.
Tudo o resto é 
o que os ouvidos não ouvem 
porque a boca não diz.

25 de abril de 2014

EV Phone Home

CASA
Enfiei três livros, um caderno de notas e o portátil num saco. Ainda passei Isdin no rosto, no decote, nas mãos: sol a pique e vento forte - mesmo bom para secar o cabelo enquanto conduzia. Hoje gostei de conduzir: o céu estava azul até ao alcatrão e cheirava a flor de laranjeira.
Sentei-me na esplanada em frente ao mar a comer o eterno gelado - um prodígio. Os livros e o caderno a dormirem no saco o meu sono. O fumo branco de um avião já invisível subia cada vez mais alto. Na mesa do lado uma menina muito pequenina, três anos, não mais, pôs-se a apontar feliz da vida: é uma estela candente, olha, mãe, uma estela candente! E a mãe, não é estela, é estrela, es-tre-la, es-tre-la, e não é candente, é cadente, e é um avião, estúpida. És estúpida como o teu pai, não vês que é um avião. Depois um grande silêncio. Não se podia ver que era um avião porque o avião não estava à vista. Sei bem do que falo porque tinha as lentes de contacto por baixo dos óculos escuros, portanto, a miopia tinha-me fugido toda.
O cabelo estava seco, o gelado comido, dos livros, do caderno e do portátil nem um ai, a esplanada cheia. Levantei-me e fui passear entre as túnicas e os vestidos à venda, quinze eurinhos, deixo-lho por doze, leve por dez. Não o levo por nada deste mundo e se ela me conhecesse saberia, é 100% fibra e o meu pavor de entrar em combustão espontânea não precisa de ajuda.
Já de volta, vinha a pensar, queria tanto ir para casa. Onde estás tu, casa? Quando era acabada de nascer a minha casa era a dos meus pais. Depois, minha foi a casa dos meus avós. Seguida da casa do meu então marido. Ex. Agora, há dezasseis anos quase, tenho esta, parece minha, mas não é, é do banco porque lhe pago, e onde o tempo de lá viver se esgotou. Porquê? Não sei. Vê-se o mar ao perto e a serra ao fundo na direcção oposta – moro em azul e verde. Tenho a janela do lava loiça com vista para o jardim – e isto, quem havia de dizer, é uma coisa importante. A buganvília cresceu tanto que é uma sombra em meio ao calor. Nenhum vizinho por cima me sapateia o juízo, é o último intencional andar. É um apartamento, é certo… será isso a desgostar-me, a mim que prefiro casas velhas, tectos altos, ou uma modernice aberta e bem respirada nas linhas direitas? Não sei. Mas sei que hoje gostei de conduzir e vinha a pensar, quero ir para casa.

Liberdade

47. LIBERDADE

Não há liberdade sem sombra: permiti-la é da própria natureza da liberdade.

FOTOS GRAFIAS AQUI - fotografias de Maria João Cabrita; textos de Eugénia de Vasconcellos

Wann kommt der wind

CORPO
As nossas razões mais fundas, ao contrário do que pretendemos, não são assunções mentais, não são conceptuais, as nossas razões mais fundas são viscerais. O amor, radique-se ele lá onde quer que seja, no céu ou na terra, manifesta-se no corpo: do amor mais maternal ao amor mais carnal. É com o corpo que se o sente, é o corpo que se alegra, é o corpo que na perda se revolta. O sofrimento não existe num corpo feliz. Com o corpo se vive e nele se morre.


21 de abril de 2014

The Grandmaster

À DISTÂNCIA DE UM BOTÃO

A maior parte das pessoas que conheço não gosta de Wong Kar Wai. Aliás, não sei de umazinha só. Alguma da crítica que diz gostar, penso que lá fundo, ou mesmo logo à superfície, não gosta também, ou não escreveria aquelas merdas intelectualóides e mais não sei quê que para perceber são precisos dez dicionários de cinema que só à porrada - os mestres egípcios de outros tempos, na escola de escribas, usavam uma vara: diziam servir para abrir a orelha que há nas costas.

O cinema começou por ser imagem e movimento. Uma coisa de deixar o que acontecia no escuro entrar pelos olhos adentro e o espectador hipnotizado como um coelho prestes a ser engolido por uma serpente. Assim uma espécie de jogo: ser-se devorado pelo que devoramos – isto é capaz de ser um bocado oral, mas enfim… não vem mal ao mundo, o cinema também é uma escola de erotismo e sexualidade. Adiante.

O cinema de Wong Kar Wai é primitivo. Penso que é isso que aflige as inteligências. Vive da imagem. Parece-me tão razoável como o texto viver da frase. E é exibicionista como o luxo da marquesa de Guermantes sem nenhuma da sua inadequação, e proustiano no detalhe sempre sumptuário. Para nos deslumbrar como aos índios, aos miúdos ou os primeiros espectadores. E pede-nos inocência no tempo do cinismo.

(Há documentários sobre a natureza assim: aumentam, reduzem, aceleram o mundo ou fazem lento o que é demasiado rápido para a velocidade do olho, para o fascinar.)

Wong kar Wai equilibra exuberância visual com a contenção da expressão dos personagens. Porque a música, tal como a cor, as texturas, a velocidade, oferecem as legendas para o que não é dito - talvez até para o que não se deva dizer pela simples razão de ser a pedra de fecho da alma. Também era assim cheio de música explicativa quando o cinema era mudo, não era? E a economia de palavras trocadas tem pouco de aforística: a imagem fala, a música conta. E há o peso do discurso: tanto silêncio abre a atenção à palavra. Os filmes cada vez mais transbordam de palavras, não sei se serão precisas tantas. Quantos são os actores que em silêncio ainda dominam uma sala cheia? Os realizadores?

Wong Kar Wai  não traz novidades temáticas. Imagino que isso seja outra chatice: a morte, o amor, o desejo, a solidão, o lugar do homem na sua árvore da vida particular a lidar com isto sabe-se lá como. E para quê saber se o espelho não é fácil.

Tive muita sorte. O primeiro filme de Wong Kar Wai que assisti, nem sabia quem era o homem, foi In The Mood For Love. E foi amor à primeira vista: nos corredores estreitos demais do prédio, com as paredes finas demais dos apartamentos pequenos demais e em número demasiado, a proximidade é um excesso inevitável e a privacidade é só o modo de estar, não uma realidade neste filme passado nos anos sessenta em que dois vizinhos, um jornalista e uma secretária, são ambos traídos no casamento, enquanto entre eles, e no espaço que aquela rejeição deixou em branco, se cria a uma tensão amorosa e a sua suspensão, talvez, talvez, talvez, na voz de Nat King Cole. Há um par de olhos a espreitar-lhes os passos todos, e são os nossos, ou melhor, os da câmara, inteligente como um bicho que fareja a presa. Segue-lhes a solidão e cheira-lhes a melancolia no tema de Yumeji e em tudo quanto se perde pelo caminho. Quando saí da sala apontei num guardanapo de papel o nome do realizador. Não vou dizer mais sobre o filme. Deixo para que vejam, se quiserem.


Mas depois daquele vi 2046, creio que um filme incompreendido e mal amado – um dia escreverei sobre ele. Ashes of Time (Redux) que apetece deseditar e plasmar em fotografias pelas paredes. E mais.

E este The Grandmaster, sobre Ip Man, mestre de Bruce Lee. É um filme com antes e depois da invasão japonesa da China em 1937. Sobre como os futuros pessoais se alteram, a vida se interrompe e submete ao curso daquilo que é maior do que nós, seja a guerra ou a morte de um pai pelo seu discípulo. Outra vez com a perfeição comovedora de Ziyi Zhang, aqui Gong Er, filha de um incontestado mestre das artes marciais do norte, num memorável combate, talvez uma coreografia para a sedução, com Tony Leung, Ip Man, um pequeno mestre do sul. Sobre isto e sobre tudo quanto da vida fica à distância de um botão.


20 de abril de 2014

Pronto, já ressuscitei, perdão, renasci...

... e que sorte!, sou a Laetitia Casta e ladro um bocadinho para brincar com o Cão.
ding ding ding ding ding ding ding ding ding
ão ão ão ão ão ão
lailailailai lailailai
ai ai ai ei eia
lailailailailailailailai
ding ding ding ding ding ding ding ding ding 
ão ão ão ão ão
lailailailai
ai ai ai ei eia
lailailai lailai


19 de abril de 2014

Vígila, vá, praticamente pascal...

É por estas e outras como estas em forma de letras e saberá Deus o que mais que dei em escritora. Podia ser advogada, engenheira e estar a dormir a esta hora, mas não... Enfim. Partilho. Não era capaz de esconder o meu rico Wong Kar Wai.

18 de abril de 2014

Sessão da Tarde



Poema de Sexta-Feira Santa

DAS SETE PALAVRAS DE CRISTO NA CRUZ
Tenho estado só como quem acredita
na companhia do Amor.
E isto por culpa da maldita
Paixão de Cristo e da Procissão do Enterro do Senhor,
cadáver à frente, a abrir com a sola dos pés
caminho aos anjos disfarçados de meninos
com asas de feira e luz de purpurina,
ao desfile das nossas senhoras pré-menstruais
sem idade para faça-se a tua vontade,
e a um escuro terrível de velas a abrasar a noite
pois só nas chamas negras os andores levitam
sem a escravidão do corpo avenida acima,
e ao alto a igreja e o bispo a vociferar:
no Enterro estão todos aqui
mas na Ressurreição quero ver quem estará.
Fera a rugir à solta pela acústica perfeita.
Não ensinaram a teologia dos homens
aos padres de quando eu era pequena
e o ar tinha a cor do frio quando respirávamos
e em redor dos círios de má parafina queimavam-se 
os cartuchos de papel - peguei fogo à mantilha
da senhora da frente e ardi logo no inferno porque
os santos também tinham cabelo de gente e roupa
tenebrosa em veludo roxo mortuário igual ao faqueiro
de estimação da minha avó, um monstro com pega
em pele de cação como o da sopa -
um jazigo para soldadinhos de chumbo derretidos
sem as suas bailarinas, que miséria de destino,
nascer soldado para acabar numa daquelas facas medonhas, 
num garfo, numa colher,
sem ninguém que dançasse para eles que nem
para comer serviam, só para enfeitar de susto e noite
o móvel de si já tão preto como a mantilha em fogo, 
tão preto como o cabelo de Maria Madalena, verdadeiro.
Jesus enterrava-se no cimo da avenida quando
a procissão dava em missa
e os pequenos jesuses com as suas cruzes de esferovite
forradas a tafetá castanho corriam a bater com elas nas costas
pelas naves laterais, prematuros ressuscitados.
Eu usava carteira, ganchos no cabelo, muito composta,
talvez Deus me perdoasse do incêndio da mantilha
e me transformasse as botas ortopédicas em sapatos de verniz,
talvez, se ao menos fosse como a Anita Dona de Casa...
mas minha avó afligia-se das donas de casa, benzia-se só de ouvir
água benta, padre, santos, era tudo Deus me livre, Deus livrava-a
pois ali estava ele morto e bem morto de obediência ao Pai
até à missa de domingo de manhã.
Das sete palavras de Cristo na cruz, antes de morrer
e de o enterrarmos,
a mim que tenho estado só 
como quem acredita na companhia do Amor,
serve-me esta: está consumado.
Prefiro estar só como quem acredita na solidão.

17 de abril de 2014

Ó-Ó BEBÉS! Shhh...

Eu durmo, graças a Deus!, tu dormes se quiseres, se não quiseres não durmas, azarucho, ele dorme sabe lá como, nós dormimos, cada um na sua cama que não quero cá confusões, vós dormis, eles dormem onde quiserem e com quem quiserem, não tenho nada a ver com isso. 

13 de abril de 2014

Diz-me o que comes, dir-te-ei quem és...


E se, como Pessoa em Um Jantar Muito Original, lhe segredar ao ouvido: diz-me o que comes e dir-te-ei quem és, o que me responderá? Não vale armar-se em Léon Bloy em La Fève e responder, hum… uma deliciosa Clementina.
Este é um livro sobre alimentação que partiu de um estudo, uma investigação conhecida por Projecto China-Cornell-Oxford, cujo título é The China Study. De que trata?
Muito grosseiramente. Nos Estados Unidos, entre o fim dos anos setenta e o início dos anos oitenta, suspeitou-se de uma ligação entre a dieta alimentar e a incidência de cancro quando se verificou uma correlação entre o consumo elevado de carne e gorduras e o baixo consumo de fibras e a incidência do cancro do cólon e da mama. Mais. Quando os imigrantes mudavam de país para determinadas zonas onde determinados cancros eram prevalentes, qualquer que fosse a sua etnia, ficavam expostos ao mesmo risco de contrair cancro do que os autóctones - adquiriam os hábitos alimentares locais?
Enquanto isto, do outro lado do mundo, em 1981, a Academia Chinesa de Ciências Médicas publicava o Atlas da Mortalidade Por Cancro - sim, leu bem. O índice de mortalidade de mais de doze diferentes tipos de cancro em mais de 2400 distritos, onde os habitantes tendiam a estar fixados nas localidades e a manter os mesmos hábitos alimentares durante a vida. Do lado chinês verificava-se o oposto: ingestão de pouca gordura animal, elevado consumo de fibras e vegetais.
Em 1981, o dr. Chen Junshi, do Instituto de Nutrição e Higiene Alimentar e da Academia Chinesa de Medicina Preventiva, durante a sua sabática, visitou o laboratório do Departamento de Ciências da Nutrição da Universidade de Cornell. O prof. dr. T. Colin Campbell, especialista em bioquímica nutricional dessa mesma universidade, e o dr. Chen Junshi conceberam então um projecto. Breve se lhes juntou o professor Richard Peto da inglesa Universidade de Oxford. E mais colegas da China, de França, do Canadá.
E passou-se assim. Em 1983-84 daqueles dois mil e quatrocentos distritos foram seleccionados sessenta e nove para o estudo. E deles duas cidades. De cada cidade sessenta famílias escolhidas aleatoriamente, um adulto por cada núcleo habitacional, metade homens, metade mulheres, num total de oito mil participantes. Foram recolhidas amostras de sangue, urina a cada um deles. Foram recolhidas amostras alimentares para análise. Foi preenchido um questionário sobre os hábitos alimentares e registada presencialmente, ao longo de três dias, toda a informação sobre a dieta de cada participante. Deste mar de informação, mais de seiscentas variáveis foram tratadas e mais de trezentas correlações estabelecidas.
Em 1989-1990 as mesmas pessoas foram reavaliadas. E a elas juntaram-se mais cerca de quatro mil de outros distritos. A informação resultante foi tratada quer pela Classificação Internacional de Doenças, quer para aferir as causas de morte.
O autor deste livro é T. Colin Campbell e o co-autor o seu filho. E explicam-nos, numa linguagem acessível, o supra referido estudo e como podemos beneficiar dele para prevenir doenças cardíacas, alguns tipos de cancro – da próstata, cólon-rectal, da mama -, tratar a obesidade, prevenir e em alguns casos tratar a diabetes do tipo ii e as doenças auto-imunes e, ao fim, oferece-nos alguns capítulos de considerações sobre a ciência alimentar e a indústria alimentar, e as políticas governamentais a propósito.
Trago este livro por duas razões.
A primeira. Anda aí uma onda de loucura detox, o que quer que isso seja. Bebem sumos de vegetais e de frutas como se fossem água. Substituem refeições por estes sumos. O Verão está à porta e a filha de Geldof, de vinte e cinco anos, morta. Chegou a afirmar publicamente que fazia esta alimentação, sumos apenas, durante um mês. A alimentação deve servir o corpo na saúde e no prazer. Mas o que é a alimentação? Não ingerimos só o que comemos. Ingerimos pensamentos e ideias. E quando não sabemos quem somos que comida, pensamentos e ideias engolimos? Vinte e cinco anos?
E lembro-me de uma loucura parecida com esta, ainda que seja o seu oposto em termos nutricionais, há uns anos, com a Atkins.
A segunda. Não sou vegan. Não quero ser. Não bebo leite. E como poucos lacticínios. Peixe e marisco, sim. Carne vermelha raramente. Mas quando a como é de gosto. Ah! o belo lombo de porco preto recheado com farinheira. Evito as gorduras animais ainda que, uma vez por outra, viva o senhor pâté. Mesmo carne de aves só se for por um bom motivo, a bela empada ou lailailai. E sou das que bebe sumo de legumes todos os dias, até tenho uma super-máquina para aproveitar tanto da fibra quanto possível. Não é por moda, é de facto. Não excluo, no entanto, as minhas colheitas tardias. Não quero cá farinha branca, controlo o sal, mas semanalmente faço só o que me apetece por uma refeição, se for uma pizza e um éclair de baunilha e um batido, não me assusta a bomba de açúcar - nem sequer os fritos do Natal. Se a comida vem numa caixa e é para o micro-ondas, não é para mim: gosto de a fazer – pelos deuses, até faço o pão.
Enfim, não é difícil. Não mais do que uma dose de proteína animal por dia e ponto final. Se não comer o meu rico peixinho-marisquinho, vingo-me no feijão que também tem umas belas proteínas. Benefícios? Já estou a colhê-los. O meu sistema imunitário estava contra mim, agora está alcalinamente a meu favor. Até já voltei a comer morangos.
E isto quer dizer o quê? Nada. A minha mãe mantém-se elegante e saudável com Atkins. Leite, queijo, manteiga, carne...
Não gosto nada de ser indicativa. Todavia. As alterações alimentares de fundo, tornar-se vegetarino, ou vegan, ou seguir a Atkins, fazem-se na companhia do médico. A vida é tão mais feliz quando a podemos gozar.

11 de abril de 2014

As minhas insónias são melhores do que o vosso sono - make believe i´m the one to save you now

Então, é isto. Continua a minha estação das insónias. Escrevo esta folha de pixels nesta frequência alfabética: is there anybody out there? O funcionário da bomba de gasolina fechado na gaiola da sua loja de conveniência talvez sintonize este canal - boa noite, se só agora chegou, estamos a ouvir I Ain´t  Movin`, you can push me all you dare, bem-vindo às Orelhas de Gato do Cabeça de Cão.

Se fosse faroleiro poderia esquecer os navios no sono e acordado dizer, estou a vigiar o mar, suspeito daquela onda que ainda não vejo. Mas mentiria. Não espero apocalipses de pequena ou grande dimensão, geo-climáticos ou de natureza insubstanciada. Vou fazer uma pausa a ver se percebo.

Não percebi. Confirmo: nada me impede de dormir a não ser a insónia. Se o mundo, ou o meu mundo desabar apanha-me de surpresa, estou tranquila.

Aqui, nas suas Orelhas de Gato, continuamos com Micah P. Hinson e o seu mais recente trabalho homónimo - somos todos Nothing. Dorme, Lisboa, enquanto ele me explica, neste exacto instante, que Jesus já não precisa dele, ou será de mim, e o amor já não precisa dele, ou de mim?, porém os livros continuam a dizer que Deus é bom e será bom entre as mortes dos sem abrigo. Não sei se ele, o Micah, dorme bem como a cidade, seja como for mudou de música, chama-me amor, pede que o espere, diz que está a voltar para casa. Está bem. Não vou sair a esta hora.


10 de abril de 2014

Vê-se a aproximação do fim

AS CARIÁTIDES DOS DIAS
O momento é da eternidade
O tempo pertence à mortalidade
E assim nós em tudo iguais 
ao divino e ao humano abandonos,
penélopes todos a fazer e a desfazer o sentido
pois não é ulisses quem à noite dorme contigo,
nem comigo, mas a manhã chega a cada um de nós,
e o sol,
para iluminados dizermos da hora que fica,
dos fios tecidos, dos mil sentidos, da memória 
- as cariátides dos dias

Nada fica:
o passado é só uma régua para medir a maré 
mais vazia em cada dia
E está certo. Como nos despediríamos
se os gestos e as palavras ainda fossem de amor?

A minha editora faz anos hoje: Parabéns!


PARABÉNS!
Hoje é o oitavo aniversário da Guerra & Paz Editores. Parabéns! A editora não é minha, mas é a minha editora. Pensa que é por isso que lhe estou a desejar Feliz Aniversário? Pois pensa bem. Mas pouco. Há mais. Conto tudo.
A primeira coisa que a Guerra & Paz me deu foi uma tampa. E foi quando se chamava Três Sinais. Enviei um conjunto de poemas, pouquinhos, para muiiitaaassss editoras. Todas, quase. Duas responderam. A declinar, é certo, mas com bons modos. A minha editora escreveu-me uma carta em papel e tudo: não publicamos poesia. Está bem, pensei, perdoo-te. Hoje. O futuro a Deus pertence, eu sou filha de Deus, lailailai - é a minha amiga, a propriedade transitiva.

A segunda coisa que a Guerra & Paz me deu foram meninas. Na realidade, As Meninas. Foi um presente de aniversário, mas no meu aniversário, oferecido por outra minha amiga, a Maria João, a das photos. Porque ela sabia que eu queria o livro, andava a comê-lo com os olhos, gostava dele mesmo analfabeticamente: só pela capa, tão bonita, e os bonecos. Era a thing of beauty ainda antes de ser lido. Depois de lido e relido continua a ser a joy forever. É um dos meus objectos pessoais.
Mas antes deixo agora a mão das meninas.

Sabia muito bem quem era o Manuel S. Fonseca, ainda que ele não fizesse a menor ideia da existência desta sua autora – que falta de futurologia, parece mentira tanta ingratidão, senhor editor!
Posso afirmar que o conhecia de ginjeira: comecei a ler o Expresso aos dezoito anos. Façam as contas. Depois no Semanário. Na Marie Claire – lembram da Marie Claire, foi a primeira revista em português do género, acho, e bendito entre mulheres e gracinhas femininas, sandálias, vestidos e batons, lá estava o meu senhor editor. Na altura da SIC, confesso, quase perdemos o contacto, mas algumas coisinhas ficaram-me: a ficção portuguesa foi uma delas. Os telefilmes! Amo-te, Teresa e tal. Não estou enganada, pois não? Foi um tempo de esperança em português, claramente pré-acordo-subserviente-ortográfico. 

De repente, um dia, ligo a televisão e zás, lá estava a editora, quero dizer, o Manuel S. Fonseca estava a dizer na televisão que tinha deslargado a televisão para se atirar aos livros. Pensei: a escrita deste homem enganou-me, quem havia de dizer, afinal é um maluco, um para-suicidário. E foi assim que toma lá poemas, não quero cá poemas.

O resto, veio depois. E mais virá, espero.
Parabéns a Você, G&P.
Merci.

9 de abril de 2014

Anda cá que és meu


CABOVISÃO? NÃO. ANDA CÁ QUE ÉS MEO...

Há coisa de poucos anos saiu um estudo sobre o calão. Usado moderadamente, em ocasiões de stress, é benigno. Ora, a minha relação com o clássico palavrão é estável, duradoura e bem-sucedida: não os digo e não gosto de os ouvir, porém escrevo-os e não me maça lê-los. Não é por hipocrisia moral, é por controlo de impulsos e estética – não necessariamente por esta ordem.

E isto a propósito de quê? Alguma publicidade, o belo anúncio, o reclamezinho, enfim, tem o condão de me encanitar, de me fazer ir dos zero aos cem em menos segundos do que um Ferrari, de me dar vontade de dizê-los todos de seguida alto e bom som. Mas não digo. Primeiro foi a história das mete medo da Rexona. Desapareceu. Agora é este alarve da Cabovisão que não há meio de gastar o tempo de antena comprado. Alguém fará o favor de amordaçar o homem e de o esconder da minha vista?

Conto tudo. Vamos partir do princípio que ali não está um actor, um bom actor pois é credível, que para ganhar a vida teve de aceitar aquele papel enervante – sou solidária com o actor, mais dia, menos dia, estou aqui, estou escrever um livro de merda, embalado num saco de chiffon com conchas e areia dentro, ou umas crónicas ou recensões de merda ou, quem sabe, se a sequela desta publicidade da Cabovisão, pois com os textos de que gosto não me governo e não consigo imigrar da língua portuguesa. Mas derivo. Ao alarve. Que diz ele?

Diz que vai falar de liberdade. Todavia, como fala em nome próprio e nosso, eu bem avisei que o tipo era doido, diz que vamos falar de liberdade. Já sabe, não se contrariam malucos… O que é liberdade? Não se preocupe, não tem filosofia. É poder mudar de sofá, mudar os filhos de escola, mudar de mulher e até mudar de vida. Liberdade é poder mudar. Por exemplo: se eu fosse livre mudaria de canal e não o aturaria. Hélas, não devo ser. Como se executa a liberdade, ou seja, a mudança? Sem fidelização.

Nem vou dizer um ai sobre essa impossibilidade que é a mudança de vida sem tratar da transmigração das almas. Fico-me por um breve comentário a sem fidelização.

Sem fidelização não há mudança de facto porque à partida todas as possibilidades estão incluídas. Sem fidelização não há infidelização. Claro que a palavra fiel foi proscrita pelo politicamente correcto que só admite os dois clichés: o da lealdade, pois fiel é cão, e o do fiel a si próprio, e não, não há-de ser por um individualismo imaturo, de forma alguma umbiguismo adolescente, não. Há-de ser por outra razão qualquer. A malta do fiel a si mesmo que aqui, neste personagem irritante, tão bem se representa, é repressiva de todos os valores que não os seus, pois considera-os obsoletos: são a Formiga Branca da moral. Se é um preceito, é mau, se é religião é má, a menos que seja exótico ou esteja em extinção. Se queres fidelidade és uma besta e mereces um par de cornos – mais coisa menos coisa.

Porém, a infidelidade é tão imprescindível como a fidelidade. Não se diz, mas, sim, é. E não se pode transgredir sem regra. Por exemplo. A traição de Judas é fundante para a nossa cultura. Que Cristo teríamos sem a crucificação? Ou mais anteriormente, a traição de Akhenaton a todos os deuses quando instituiu o monoteísmo sobre o qual o cristianismo veio a assentar. A relação amorosa evoluiu também à semelhança da relação com a divindade. O monoteísmo focou a relação com o divino. E colaborou na sedentarização. Esse Deus que é todos os deuses é um Deus exigente, e no ocidente preparou o caminho para a construção da união de dois como unidade: o casal. A fidelidade que exigia replicou-se na relação amorosa – esse mesmo compromisso que já havia permitido a sobrevivência dos filhos nos primeiros anos de vida e a identificação e evolução da família. 

O direito ao divórcio é fundamental. Mas nem por isso ele deixa de ser de extrema violência - não acredite em mim, consulte a ordem da lista dos acontecimentos precipitadores de stress. Também por esta razão o divórcio só se justifica quando não há alternativa - ainda que o casamento não seja uma graça, não há motivo para que seja uma desgraça, dissolva-se. Um saltimbanco amoroso é um irresponsável. Os pais não são descartáveis, os filhos não são descartáveis, porque carga de água, como diz o saltimbanco no anúncio, hão-de ser as mulheres e os homens? Cabovisão? Não. Anda cá que és Meo.

5 de abril de 2014

Vai à merda. Vai tu.




Às vezes, quando me apetece mandar tudo à merda, algumas pessoas à merda, uma coisa acontece. Hoje aconteceu-me o Renaud Capuçon para me lembrar o quanto somos uma raça de trastes. Ponha-se o homem no metro, no autocarro, a tocar de graça, e num instantinho passa a ser o assim não vais longe nem tens onde cair morto, vai trabalhar pá, que nunca será.




* 07:57 am-pm é um pequenino filme de Simon Lelouch. Ele conta:
Le 12 janvier 2007, Joshua Bell, un des meilleurs musiciens au monde, a interprété dans le métro de Washington, quelques-unes des plus belles pages de la musique sur un Stradivarius de 1713.
Quarante-cinq minutes plus tard, plus de mille personnes étaient passées devant lui sans vraiment lui prêter attention et il n’avait récolté que quelques dollars.
Le 25 mai 2009, son homologue français, Renaud Capuçon, a tenu à participer à ce film en interprétant sur la ligne 6 du métro parisien « La Mélodie d’Orphée » de Christoph Willibald Gluck sur un Guarnerius de 1737 surnommé « le vicomte de Panette ». (O violino com o qual Isaac Stern se fartou de tocar.) Resumindo: aconteceu-lhe o mesmo que ao americano mas em francês.

3 de abril de 2014

As duas faces da moeda

AS DUAS FACES DA MOEDA


Tenho dois sobrinhos. Por muito que não queira, e não quero, atribuir um papel a um e outro a outro, é quase impossível evitá-lo. São a noite e o dia.


Caracolinhos a Fada é o verdadeiro lobo em pele de… fada. Também é conhecido por Coisa, Cuca, e Projecto Bruce Lee pela forma como acorda. Ainda não tem três anos. Não direi que tais nomes sejam aprovados pelas entidades parentais e outras que tais. Mas afirmo que responde por qualquer um deles.



O mais velho tem outra natureza. Desenha com extraordinário detalhe para quem ainda nem tem seis anos. Lê bem, escreve bem. É calmo e fala de uma maneira que nem Deus com os seus anjos. No outro dia, à mesa, perguntou à mãe que carne era aquela que comiam. E a mãe, borrego. E ele, ó mãe, por favor, não estamos a comer aqueles bebés que vimos na quinta pois não? E a mãe, estamos: nós comemos animais e também é por isso que temos de respeitar a comida. Ó mãe, como é capaz de dar-me esse desgosto? E a minha irmã aproveitou o desgosto para lhe arruinar as comidas preferidas, perdão, para lhe dizer que douradinhos são peixes, salsichas são porcos e a canja são galinhas. A Coisa terá ouvido tudo.



Ora, ainda esta semana o mais velho propôs-me brincar aos cowboys. Disse-lhe que sim imaginando que iria ser índio. Qual o quê. Ele cowboy, eu boi para ser laçado, mas sendo menina deixava-me ser vaca. Resumindo: muuu. Fui presa a uma cadeira, perdão, laçada em pleno pasto. O Projecto Bruce Lee, o verdadeiro índio, cavalgava em volta da mesa, iiiaaaaah. Já presa, pergunto ao cowboy, e o que vai fazer agora, transformar-me em bifinhos? Ó Tatia, que horror, não. Então, o que acha que fazem às vacas e aos bois? Às vacas tira-se o leite para fazer iogurte e damos os bois para terem a sua família e bezerrinhos. Vem a Cuca e grita: Vaca! Comida! Iogute*! Mhmm…



*Iogurte em cuquês

Um dia

E se o amanhã não chegar? E se o Amor, o teu, ou o meu, súbito se morrer? As pessoas morrem. E se o nunca mais se fizer efectivo e definitivo? E se a porta do um dia se tiver fechado? E quando já não houver caminho para voltar atrás e pedir desculpa, ou só para dizer amo-te? E se o que poderia ter sido for tudo quanto fica?