Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo
Tonino Guerra in O Livro das Igrejas
Abandonadas
Para Tonino Guerra
POEMA DO TEMPLO ABANDONADO
Do fulgor metálico da foice e do martelo,
nasceram as estrelas no céu vermelho, e ele
escorreu e tingiu até as montanhas altas,
os caminhos ainda de pó e cascos de cavalos
iguais à tua infância,
e chamaram-lhe revolução cultural.
Depois de regressar da cadeia,
a Mãe saía muito cedo, cheia da primeira luz,
e buscava entre as pedras e as ervas,
bagos, fios de nada que fervia,
e com esta colheita caída à revelia dos cestos
que por ali passavam às costas dos carregadores,
alimentava as suas Filhas dentro das portas escancaradas
dos templos proibidos e abandonados -
de lá a levaram, para lá retornou.
Assim aprenderam elas os outros nomes
para a única navegação dos dias:
a duração, a dedicação amorosa, a frugalidade,
e como e por onde corre o sopro da vida,
aquilo que dizem ser o tai chi.
Já Mãe era tão velhinha quando os templos voltaram a florir
a mais radiosa brancura, a que tu sabes e eu sei chega antes do fim,
e as televisões foram ver aquela lenda viva:
as Filhas lavavam-na, cozinhavam para ela, penteavam-na.
Nenhuma delas falou de comunismo nem de tai chi,
só de como a Mãe as tinha amado.
Do fulgor metálico da foice e do martelo,
nasceram as estrelas no céu vermelho, e ele
escorreu e tingiu até as montanhas altas,
os caminhos ainda de pó e cascos de cavalos
iguais à tua infância,
e chamaram-lhe revolução cultural.
Depois de regressar da cadeia,
a Mãe saía muito cedo, cheia da primeira luz,
e buscava entre as pedras e as ervas,
bagos, fios de nada que fervia,
e com esta colheita caída à revelia dos cestos
que por ali passavam às costas dos carregadores,
alimentava as suas Filhas dentro das portas escancaradas
dos templos proibidos e abandonados -
de lá a levaram, para lá retornou.
Assim aprenderam elas os outros nomes
para a única navegação dos dias:
a duração, a dedicação amorosa, a frugalidade,
e como e por onde corre o sopro da vida,
aquilo que dizem ser o tai chi.
Já Mãe era tão velhinha quando os templos voltaram a florir
a mais radiosa brancura, a que tu sabes e eu sei chega antes do fim,
e as televisões foram ver aquela lenda viva:
as Filhas lavavam-na, cozinhavam para ela, penteavam-na.
Nenhuma delas falou de comunismo nem de tai chi,
só de como a Mãe as tinha amado.
