24 de março de 2014

Um livro pequenino, uma vida grande


Eu abandono Roma
Os camponeses abandonam a terra
As andorinhas abandonam a minha aldeia
Os fiéis abandonam as igrejas
Os moleiros abandonam os moinhos
Os montanheses abandonam os montes
A graça de Deus abandona os homens
Alguém abandona tudo


Tonino Guerra in O Livro das Igrejas Abandonadas

Para Tonino Guerra

POEMA DO TEMPLO ABANDONADO
Do fulgor metálico da foice e do martelo,
nasceram as estrelas no céu vermelho, e ele
escorreu e tingiu até as montanhas altas,
os caminhos ainda de pó e cascos de cavalos 
iguais à tua infância,
e chamaram-lhe revolução cultural.
Depois de regressar da cadeia,
a Mãe saía muito cedo, cheia da primeira luz, 
e buscava entre as pedras e as ervas,
bagos, fios de nada que fervia, 
e com esta colheita caída à revelia dos cestos
que por ali passavam às costas dos carregadores,
alimentava as suas Filhas dentro das portas escancaradas 
dos templos proibidos e abandonados -
de lá a levaram, para lá retornou.
Assim aprenderam elas os outros nomes 
para a única navegação dos dias:
a duração, a dedicação amorosa, a frugalidade, 
como e por onde corre o sopro da vida, 
aquilo que dizem ser o tai chi.
Já Mãe era tão velhinha quando os templos voltaram a florir
a mais radiosa brancura, a que tu sabes e eu sei chega antes do fim,
e as televisões foram ver aquela lenda viva: 
as Filhas lavavam-na, cozinhavam para ela, penteavam-na. 
Nenhuma delas falou de comunismo nem de tai chi,
só de como a Mãe as tinha amado.