7 de março de 2014

Fechado para obras

Tenho o romance parado há uma série de dias – bem mais de dez. Nada disso seria importante se não houvesse um prazo a esgotar-se. Não consigo escrever uma linha. Até me poderia perdoar se tivesse escrito um poema em condições. Mas não.
Se tivesse um ensaio para escrever, escrevê-lo-ia, ou uma crónica. Esta inoperacionalidade não afecta ensaios nem crónicas. Muito menos notas ou estes diários que fazemos abertos para acreditarmos que alguém se interessa. Não pela escrita, obviamente, por nós. Inventámos esta rede de ecos para imaginarmos que não estamos sós - somos mais ridículos do que o cliché das cartas de amor.
Toda a gente deveria ser obrigada a casar, a ter filhos, cães e gatos, hipotecas, correntes fortes como a gravidade, empregos de horário inflexível.
Um romance é um luxo voador, anti-gravitacional, ou porque se tem tudo e se trocam pessoas por horas de papel, ou porque não se tem nada e assim a própria existência é desprovida de razão, portanto um luxo – se não fosse a bendita civilização, toda a inutilidade estava morta. RIP.
Há aquelas pessoas que dizem: se voltasse atrás fazia tudo igual. Pois bem, se voltasse atrás fazia-me toda diferente em tudo. Objectivamente científica, nada menos do que uma biologia celular ou uma engenharia genética, solidamente materna, casada com homem daqueles das oito às vinte que chegam mortos a casa quando os filhos já dormem, e não escreveria umazinha só palavra que não tivesse de ser escrita,  e preencheria documentos de forma exemplar e debitaria pensamentos sobre o que fosse como um multibanco notas, certa e com extracto verificável. Saberia sempre o que fazer. 

Que felicidade não ter liberdade. 
Porra que estou farta. Desisto.