20 de março de 2014

É a Primavera, não é a prima Bárbara!

O NOSSO OGRE
Chegou a Primavera. O caracol põe os corninhos ao sol. E os homens ouvem prima, e zás, porque mais se lhe arrima, acordam o bárbaro que há neles. Ora, isto não pode ser. A Primavera será família, mas é delicada nos seus lindos clichés: tem andorinhas no céu, azul a rodos, e calor morno daquele mesmo bom para despir um bocadinho aqui, um bocadinho ali, e só mais um bocadinho de pele nuazinha em flor. É o belo solinho a aquecer a bela perna e o que mais apareça a dar um ar da sua graça. Graça não é desgraça, rapazes! Por muito que faça gosto, e faço, em ver a rapaziada, ó, toda alargatada, a fazer a fotossíntese de vitamina D na rua, na praia, na esplanada, confesso, prefiro sabê-la desvitaminada. Explico tudo sem rima.
Se o caracol põe o que põe ao sol, os homens põem os pezinhos ao léu. E este é um horror primaveril. Ao incompreensível gosto por sandálias do inferno do tipo ortopédico e com velcros, acresce uma incompreensível falta de pedicure. Cariño, que te pasa? Já não bastavam os pêlos de ogre a sair das orelhas? E mais pêlos de ogre até pelas narinas fora tais bigodes-antenas de gato, mais ainda os das sobrancelhas do tipo einsteineziano? Agora, las patitas, no!
Dir-me-á, ah isso é mais depois dos quarenta. E passa-lhe pela cabeça que olhe duas vezes para si que tem vintes? Bebé. A minha geração inaugurou esta mania da paridade a sério, a começar logo na atracção: namorámos e casámos todos entre nós, a malta da mesma idade, mais ano, menos ano. Até nos divorciámos entre nós. E agora, zás, segundo round. Deve ser karma ou kastigo, ou lá o que é.
Pois muito bem. O corpo tem vontades depois dos quarenta. Não se pode fazer essas vontadinhas ao corpo. É dar-lhe um tau-tau, perdão, um choque de civilização. Repare, não estou a dizer que se depile e fique a parecer-se com uma enguia nadadora como os miúdos mais novos que tem aquele complexo anti-piloso global de nadador de competição e nem por isso sabem quem foi John Weissmuller, apesar conhecerem Tarzan. E arranjam muito as sobrancelhas em ângulos agudos e branqueiam os dentes ao ponto de encandearem uma pessoa. A despropósito:  o próprio do Tarzan, mesmo lá no meio da selva dos anos trinta a preto e branco, arranjava tempo e modo depilatório... é para que saiba de onde vem a vanguarda.
Já viu que nós, meninas, raparigas, enfim, mulheres, somos a própria da Primavera o ano inteiro? Fazemos manicure, hidratamos o cabelo, lailailai e tudo quanto há. Quando calçamos as nossas lindas sandálias de salto, ou rasas, ou quando enfiamos umas simples havaianas para irmos mesmo de fato de yoga e rabo de cavalo ali ao supermercado, num instantinho, cheiramos bem. E não é só por vossa causa, ingratos calçados em Scholl depressivas, é para fazer civilização, é uma higiene, vá, estética.
Não mastiga de boca aberta, pois não? É igual. O erotismo assim não é possível. Pedicure não é pintar as unhas de cor-de rosa fluorescente. Contrariar o despropósito piloso, não é uma depilação definitiva. É, olhe, um duche só que não é diário. Uma necessidade como lavar os dentinhos.
Porém, esta questão que como todas as questões fúteis dá imenso trabalho, é essencialmente social. Porquoi? Bem, não é só por dar trabalho, isto é, criar emprego na área da prestação de serviços de estética  - vê?, é a própria da prima da ética de que já lhe tinha falado. Nem é porque o aumento de consumo destes serviços seja bom para a economia. É porque, na intimidade, nós amamos o nosso ogre mesmo com pêlos e sabemos que o nosso ogre, mais conhecido por marido/namorado/híbrido, também nos ama logo de manhã quando estamos cheias de olheiras. Na intimidade amamos as imperfeições de quem amamos. A intimidade é uma coisa. O mundo lá fora é outra. E o que apetece ter ao lado, na cama, é o dois em um.
Ps: Feliz Primavera, Ogres.