1 de março de 2014

A casa tem pó, mãe

Na quarta-feira fui à gelataria. Sentei-me na esplanada onde sempre me sento. A última vez que lá estive, antes desta agora, foi a vinte de Outubro do ano passado, um domingo a ler o Expresso de sábado. Lembro-me bem porque o Manuel Fonseca tinha então publicado Um Autor, Dois Ladrões, sobre o livro Taxi Driver, um texto de se lamber com chocolate, nata e chantilly: peço sempre o mesmo gelado, nem sei como ainda dura: tantos anos a comê-lo sem chegar ao fim.
Faço isto. Há dois ou três lugares onde vou quando tudo corre bem ou quando tudo corre mal. Não mudam nada, nem o bem nem o mal, nada se altera, mas os sabores mantêm-se os mesmos enquanto o mundo se desconhece, ou o cheiro ainda é aquele, ou é a paisagem intocada. Estes dois ou três lugares, quatro, se calhar mais, têm a maravilhosa propriedade de serem estáveis, ancoram-me: se estou feliz não voo, se estou triste não me afundo: tudo continuará exactamente na mesma depois de mim. Só somos importantes para meia dúzia de pessoas e vamos desaparecendo à medida que elas nos vão desaparecendo.
Na mesa atrás da minha duas senhoras com mais de setenta anos a caminharem para perto dos oitenta. 
A minha filha zangou-se comigo porque a casa tinha pó. E riu-se. Depois explicou à outra que a entendia perfeitamente: levanto-me, faço a cama, tomo o pequeno almoço, vou ao mercado comprar qualquer coisinha, hoje carapaus. Grelhou-os? Não, valha-me Deus, depois tinha de lavar a porcaria do grelhador que não cabe na máquina. Riram-se as duas. Ponho-me a fazer um bocadinho de renda - comprei dois novelos em branco pérola. Na Tininha? Não, no chinês, mas é linha boa e os dois três euros e vinte. Depois vou ao café para não ficar enfiada em casa sem ver ninguém - estive a ver as montras e a Manuela tem uns belos blazers. De fazenda ou tirelene? De fazenda! A seguir chegou a hora da novela e já não me deu tempo para limpar o pó. Quando a minha filha me foi buscar para irmos ao supermercado, disse logo a casa está cheia de pó, mãe. Riram-se as duas. É o tempo, disse uma. É o tempo, disse a outra. Não chega para nada: amanhã já é quinta-feira, é o fim-de semana e ainda ontem foi domingo. É verdade. É verdade.
A filha ainda não compreende a velocidade da vida. É muito rápida e a morte mete medo. É preciso desacelerar as horas, trocá-las por renda rápida nos dedos mas lenta até se fazer uma toalha. E andar devagar a espreitar as montras para levar blazers na retina, sabe lá uma pessoa se é apanhada descomposta, sem manicure nem cabeleiro, ao menos assim tem uma boa fazenda nos olhos. E se a cabra da morte entrar à socapa em vez da filha, pois que espirre dos ácaros.