Uma vez, há vinte anos, talvez menos, pensei vou morrer e não
fiz nada, falta-me quase tudo. Este foi o último pensamento que tive, e fiquei
tão triste comigo mesma, de uma tristeza tão funda, que nem teria palavras para a dizer. Quando acordei no hospital estava dentro da tenda do E.T. e mesmo
médicos, enfermeiros, estavam vestidos como no E.T.: fatos inteiros, luvas,
máscaras, óculos. Não sabia se estava a sonhar com o E.T. quando, na cama do lado,
vejo a minha irmã que me diz: finalmente acordaste. A mãe está ali. O ali era
atrás de um vidro à altura do rosto que a porta tinha. Foi então que percebi
que a coisa devia ser grave apesar de estar viva.
Fiquei a saber que também o namorado da minha irmã estava
internado noutra tenda de E.T.. Nos períodos pequeninos em que estava consciente
faziam perguntas: em que país tínhamos estado, o que tínhamos comido, se
tínhamos estado em contacto com algum animal. Perguntas de maluquedo, o
twilight zone verdadeiro. Havia uma banheira com água e gelo. Ou então era só
água muito fria. Não me recordo bem – para escrever isto tive de perguntar como
fomos para o hospital, não tenho memória disso, fui a que esteve pior e durante
mais tempo.
Depois levantaram a tenda e despiram os fatos do E.T.. Não era
nada infecto-contagioso. De qualquer maneira estávamos quase sempre a dormir
porque a febre era muito alta. A coisa durou cerca de sete dias. E foi
inconclusiva.
Para mim, no entanto, foi conclusiva. Diante do não fiz nada, resolvi
fazer alguma coisa. Isto há vinte anos. E descobri que o mundo não se compadece
de resoluções. Não consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Nem ter uma só resposta de um qualquer jornal ou revista. Não havia lugar para
mim em qualquer editora, agência de publicidade: nada em lugar algum. Ninguém queria
ler o que eu escrevia, ninguém sabia quem eu era, nem ninguém queria saber - nem
eu estava disposta a ser apresentada por uma figura tutelar que garantisse o
que quer que seja que tais figuras garantem. Assim é a vida.
Isto porque tenho uma amiga de infância, fomos colegas de
colégio, que todos os anos me oferece o Poemário da A&A. Quando era
pequenina queria ser escritora, na quarta classe já tinha a certeza absoluta e
esta minha amiga também. E no nono ano já a minha feroz professora de português
que me gritava Vasconcellos, quadro!, tinha a mesma certeza. Foi com estas
certezas e a oposição da família inteira, vivos e mortos, mais a oposição do
mundo empregador, que andei ano após-ano naquele supra referido porta-a-porta
qual Testemunha de Jeová até me fartar e dizer nunca mais. Minto. A minha avó sabia-o.
Quem havia de dizer que esta oposição é um bem? E dizer
nunca mais outro bem? Não se pode escrever porque outros dizem que podemos
escrever. É igual ao amor, é porque sim, não é precisa autorização. Escreve-se e acabou-se.
Hoje no Poemário da minha amiga repete-se o dia de há quase
vinte anos atrás num poema de António Franco Alexandre. Conto um bocadinho
desse poema:
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava a “morte”;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.
O meu álbum é o mais incompleto dos álbuns que conheço. Não tenho as conquistas dos outros para
mostrar – nem as minhas porque foram desconseguidas. É como o meu telemóvel.
Não tem fotografias de filhos. Nem de marido. Nem de almoços de colegas, não
tenho colegas. Falta-me ver Paris contigo dentro como me faltas tu, e como me
falta quase tudo, e sei que vou morrer, um dia.
Talvez não tenha feito nada,
mas não me vejo a fazer outra coisa.